Considerações e proposições
Esta é a introdução que LUTHER BLISSETT escreveu para o meu TCC de Bacharelado em Artes Visuais. em breve elencarei os textos em sua devida ordem (estão todos postados).
Gostaríamos de, num exercício poético, profético e acadêmico, fazer um passeio por alguns aspectos ocultos desse campo de guerra que se criou em torno da palavra “cultura”. Devido ao importantíssimo papel que assumiram os advogados na frente de batalha, somos forçados a voltar nossos olhos com um pouco mais de atenção para as palavras “plágio” e “pirataria”. Se megacorporações estão processando usuários domésticos por “downloads ilegais” e músicos e DJs por “plágio”, ficamos inclinados a pensar que a indústria cultural, além de ditar precisamente o que é criativo ou copiado, original ou plagiado, entende que toda essa produção “artística” se desloca por uma via de mão única, concedida aos mortais pelos detentores da inteligência artística – ou algo desse tipo. Vamos conversar sobre isso.
Para começar, uma agradável sequência de afirmações arbitrárias:
- Consumimos, diariamente, quantias consideráveis de lixo mental alheio, a título de “cultura”;
- “Cultura” essa que, embora seja mil vezes reciclada, enlatada, emprestada e repetida, nos é vendida com o rótulo de “original”;
- Ironicamente, não é preciso mais pagar para consumir tais coisas, tal é a força do advento da Internet;
- Não deixa de ser também irônico que o mercado da tecnologia tornou-se uma faca de dois gumes, fornecendo brinquedinhos novos para a indústria e armamento aos piratas;
- Não podemos ter idéia exata, ainda, do que irá acontecer. Este embate deixará claro qual a força da rede independente em relação ao poder das corporações;
Enquanto isso, em um outro universo:
- A arte erudita se comporta como se nada estivesse acontecendo, ainda perdida em seus objetos únicos e conceitos de arte pura;
- Da aproximação da arte erudita com a arte de rua surgiu uma quimera que tem pouquíssimo conhecimento de si própria;
- A aproximação da arte erudita com a Internet ainda ocorre desconfortavelmente;
- A arte da Internet aparece em sua melhor forma quando feitas por geeks e nerds, e não por artistas eruditos;
- Parece ter sido sempre assim no que diz respeito à arte e computadores;
- No entanto, a arte erudita tem muito o que ensinar no campo de batalha da cultura: a prática do plágio, em sua raiz heróica “aprender com os mestres”, sempre foi tolerada e eventualmente muito bem recebida neste âmbito;
- Alguns desdobramentos marcantes da arte erudita surgiram da prática do plágio. Marcel Duchamp projeta sua sombra em toda a produção contemporânea.
Após esta breve aclimatação, e com a série de artigos a seguir, nossa intenção é dar um pouco mais de visibilidade à algumas curiosidades e pessoas que analisaram e até previram estes problemas há certo tempo, com admirável visão de futuro. Se, imediatamente, Walter Benjamin nos vêm à memória, podemos, por outro lado, encontrar em Vilém Flusser alguns presságios mais robustos e específicos sobre a cultura recombinante e descartável, entre outros. Passando por outros autores heréticos, pseudônimos coletivos e filósofos semi-anônimos da era da Internet, e fazendo finalmente uma breve incursão na ficção científica, gostaríamos de experienciar e vivenciar as facetas luminosas e sombrias desse ambiente instável, antes que atinja sua próxima forma estável, a qual ainda desconhecemos. Em outras palavras, aguçar nossos sentidos para o que quer que aconteça daqui a alguns anos. Saudações a todos e uma ótima leitura.
- LUTHER BLISSETT
malu wrote,
fodido, senhor dedos, fodido…
Link | novembro 26th, 2009 at 13:43