Este artigo sobre o já consagrado livro 1984 foi escrito em contraposição à resenha que fizemos, há alguns meses, do romance Nós, de Eugene Zamiatin. Sugerimos sua leitura antes do texto que se segue.
Se escolhemos comparar 1984 a Nós, não foi com o intuito de dissecá-los, ponto a ponto, para que ao fim tenhamos uma tabela de semelhanças e diferenças. Tal estudo seria mais apropriado a algum tipo de publicação especializada no gênero. Nosso propósito é consideravelmente mais simples, e pode ser delineado pontualmente:
- Perceber como determinadas obras/expressões/discursos, ao mesmo tempo que ganham notoriedade, projetam uma sombra sobre suas “raízes” ou principais influências – quando não as fontes de onde extraíram literalmente alguns de seus conteúdos. Tentaremos, então, olhar um pouco mais adiante, e investigar estas influências.
- Ver como a abordagem negativa do conceito de plágio é um fator limitante do exercício da criatividade. Consideramos oportuna a comparação por se tratar de dois marcos da ficção científica, sendo que 1984 foi largamente inspirado no romance de Zamiatin, e tornou-se indiscutivelmente o mais conhecido dos dois. Plágio ou não, fato é que, de qualquer maneira, uma grande obra literária possibilitou o surgimento direto de mais uma, e quem sabe de quantas outras, indiretamente.
A relação entre 1984 e Nós não é casual: Orwell leu o livro de Zamiatin, e manteve por este vivo interesse, a ponto de publicar uma crítica literária sobre o mesmo, num jornal, como nos conta Anthony Burgess, que ainda nos dá uma pista importante do que 1984 viria a fazer pela propagação de Nós:
“Orwell escreveu um artigo criticando o livro [Nós], publicado no Tribune de 4 de janeiro de 1946, quando conseguiu finalmente encontrá-lo, muitos anos depois de saber de sua existência. Sempre foi um livro bastante difícil e, se agora pode ser encontrado em quase todos os idiomas, isto se deve ao fato de que Orwell foi influenciado por ele. Mas parece ser impossível encontrá-lo na língua original, o russo.” – 1985, p.52
Zamiatin encontrou severas dificuldades para publicar sua obra em sua terra natal. Seu romance não fazia nenhum tipo de alusão demasiado direta a um ou outro governo, porém seu texto era considerado potencialmente perigoso, tanto pelos tzaristas quanto pelos socialistas, e foi banido da União Soviética. É natural que a tradução inglesa circulasse em maior quantidade. O romance de Orwell, apesar de ser crítico e até demasiado literal em sua analogia com a ditadura stalinista, não contou com a mesma perseguição, já que estava em curso um decisivo momento histórico: a Guerra Fria. Se o texto de Orwell era desagradável aos socialistas, o ocidente capitalista o receberia de braços abertos. Isaac Asimov, em sua crítica a 1984, destaca alguns detalhes da biografia de Orwell que ilustram bem a chegada deste momento, acompanhados de sua opinião pouco favorável ao livro:
“Orwell concluiu A Revolução dos Bichos em 1944, mas teve dificuldade em favoráveis para causar-se qualquer perturbação aos soviéticos. Todavia, logo que a guerra terminou, a União Soviética tornou-se uma caça permitida e A Revolução dos Bichos veio a lume. Foi recebida com grandes aplausos e Orwell tornou-se suficientemente próspero para afastar-se de outros trabalhos e dedicar-se à sua obra-prima, 1984. […]
Trata-se exclusivamente de um retrato do stalinismo.
Em 1944, na época em que o livro foi publicado, a Guerra Fria encontrava-se em seu auge. Por esse motivo o livro tornou-se popular. Era quase uma questão de patriotismo, no Ocidente, comprar esse livro, discuti-lo, talvez ler partes do mesmo, embora, em minha opinião, um maior número de pessoas o adquiriu e discutiu do que aquele que o leu, pois se trata de um livro tremendamente cacete, didático, repetitivo, sendo, antes de tudo, destituído de ação.” – No mundo da ficção científica
Não é o primeiro caso em que uma obra artística ou literária serviu como uma luva para a propaganda anti-comunista nos tempos da Guerra Fria; as pinturas do norte-americano Jackson Pollock foram amplamente difundidas como o símbolo da liberdade de criação e expressão nos EUA, em oposição ao Realismo Socialista imposto por Stalin aos artistas soviéticos. Toda a arte produzida pelos soviéticos, inclusas a literatura e a poesia, deveria ser um instrumento do Estado, uma expressão de sua identidade visual, importantíssima para um estado totalitário, que precisará manter intacta a imagem de seu poder, mesmo que a situação seja das mais adversas. Apesar de Hitler ter sido o maior “ditador esteta” – como sugere o documentário Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen – Orwell preferiu manter o foco sobre Stalin e a Revolução Russa, alvos maiores de seu rancor e ressentimento. Continuar lendo »