Firefox e Google, estou de olho

Não demorou muito. Mitos outrora inquestionáveis na Internet começam a dar sinais de um certo “microsoftismo”, a conhecida decadência inerente aos planos ambiciosos de expansão sem limites. Tenho estranhado o Firefox; costumo recheá-lo com alguns plugins vitais para mim (Adblock, Firebug, botõezinhos do Delicious e do Twitter, etc) e não sei se por causa disso, ou por algum outro obscuro motivo, a inicialização do Firefox é anormalmente lenta, perdendo de chinelada para o Chrome (também tenho medo do Chrome) e o Opera. O desempenho também tem deixado a desejar, páginas com muitas animações e gráficos dão diversas travadinhas inexistentes nos outros browsers. O programa também fecha, do nada, mais vezes do que o desejável, e ultimamente tem apresentado dificuldades em recarregar as abas que estavam abertas. O que está acontecendo? Desde a versão 3 eu fiquei meio cismado. O Firefox ainda conta com a desculpa das temidas palavras-chave “estabilidade e segurança”. Mas eu estou de olho.

E o Google? Sabemos que o Google tem operações em quase tudo, e que é possível achar um programinha bonitinho pra cada necessidade que surgir. O sonho é entrarmos no site do Google, usando o Google Chrome, instalado no Google OS, rodando num Google PC, vestindo uma camiseta do Google e tomando café da cafeteira Google. Sinal claro de “microsoftismo”. Mas palhaçadas como o Google Wave e Google Buzz, fugindo de maneira atroz da conhecida praticidade e clareza dos aplicativos Google, só me podem fazer imaginar o motivo desses caras estarem perdendo a linha desse jeito. Já liguei as antenas para alternativas ao Gmail. É claro que coisas como o Google maps ainda vão me fazer agradecer muito pelo Google, mas meu carinho não é incondicional. Vamos vendo…

Desista da Arte / Salve os famintos

Ver e criar uma imagem são a mesma atividade. Aqueles que criam a arte também estão criando os famintos. Nosso mundo é uma ilusão coletiva.

É uma grande ironia que o mito do artista celebre o sofrimento, enquanto são aqueles que nunca ouviram falar de arte, aqueles sofredores famintos na seca e com doenças endêmicas, que são os verdadeiros pobres e infelizes do nosso mundo. E nessa perversão que foi um dia uma busca religiosa, os artistas de hoje negam ser mais do que trabalhadores, negam a arte em si, e então se mobilizam para apagar para o homem a luz que existe dentro dele.

A arte é agora definida pela elite autoperpetuante para ser comercializada como uma mercadoria internacional, um investimento seguro para os ricos que têm tudo. Mas chamar um homem de artista é negar a outro um dom igual de visão; e negar a todos os homens a igualdade é reforçar a injustiça, a repressão e a fome.

Tudo o que é aprendido é alienígena. Nossa história é construída a partir da herança de homens que aprenderam somente a substituir um conceito por outro. Nós lutamos para agarrar o que não sabemos, quando nossos problemas não serão resolvidos por novas informações, mas pelo entendimento do que o homem já sabe. É hora de reexaminar a natureza do pensamento.

Ficções ocupam nossas mentes e a arte tornou-se um produto, porque acreditamos que nós e o nosso mundo não somos suscetíveis a mudanças fundamentais. Então, escapamos para a arte. É a nossa habilidade de transformar este mundo, de controlar nossa consciência, que está secando na videira.

Precisamos controlar nossas próprias mentes, comportarmo-nos como se a revolução já houvesse acontecido. Pintar todos os quadros de preto e celebrar a arte morta. Estamos vivendo num baile de máscaras: o que pensamos ser a nossa identidade é um jogo de noções recebidas pelo sistema educacional, preconcepções que nos prendem à história. A crença em nossa própria identidade gera tristeza sem fim: nosso isolamento, nossa alienação e nossa crença de que a vida de outro homem é mais interessante que a nossa.

É somente através da valorização igualitária de todo o mundo que qualquer um de nós encontrará a liberação. Um fim para a história é nossa exigência de direito. Continuar a produzir arte é ficarmos viciados em nossa própria repressão. A recusa da criação é a única alternativa para aqueles que querem mudar o mundo. Desista da arte. Salve os famintos.

Ano 2010

Saudações. Sei que vocês andaram passando por aqui, o passarinho das ferramentas estatísticas me contou. Sei que as coisas andaram meio paradas também, e que vocês devem ter ficado a imaginar que esse blog seria mais um a integrar a poeira estelar dos blogs abandonados. Mas vocês estão enganados! As férias de Internet foram propositais, planejadas desde o fim do ano passado enquanto terminava de compilar aquela esquisitice chamada Grandes Ovos Negros.

Pois bem, agora as férias de Internet acabaram e a situação atual demanda que eu invista de forma mais incisiva nesse meio tão fascinante que é a rede telemática. Se vocês entraram no dedos.info repararam que fiz uma atualização MAJOR, a cara inicial do site está completamente diferente, com os bonus escondidos e surpresinhas de sempre… Ainda dá pra acessar a versão 1.0, clicando na lata de chá de jasmim (SPOILER).

A outra novidade que estou preparando são as lojas online, siiim teremos camisetas, adesivos e pôsteres à venda, para você se rodear de cores lunáticas e imagens dramáticas. VOU COBRAR dos que me disseram “ahhh se você vendesse isso ou aquilo eu compraria com certeza”. Me ajudem a sobreviver pessoal!

Quanto ao blog, podem esperar as esquisitices de sempre. Acho que vou falar mais de alimentação e culinária também, para os que sentiram saudade da tiazinha-loura-com-cabelo-de-sapata. A vida continua. Abraços a todos.

Verão 2009

Quero mostrar-lhes uma prévia da versão 2.0 do site que está quase pronta! Para isso, fiz mais uma página temática relativa a uma estação do ano (já tinha feito a homenagem à Primavera 2008). Está no ar o VERÃO 2009. Fiz um esqueminha em português/inglês dessa vez, e com algumas surpresinhas…!

Você poderá baixar a exposição digital “Verão 2009″ inteira, em alta resolução, para sua diversão irrestrita. Poderá também baixar a página da exposição, com todos os códigos e scripts. E NÃO É SÓ ISSO: você poderá baixar, além de tudo, o site inteiro zipado, com muitas coisas ocultas e abandonadas; explore o dedos.info pelas entranhas! Dá pra se divertir no fim de ano né?

Tentarei colocar a versão 2.0 inteira online até o fim do ano. Se isso não acontecer, bem, não esperem muita coisa até o fim de janeiro… um abraço a todos!

GRANDESOVOSNEGROS

ESTÁ CIRCULANDO.

E eu não vou escrever mais nada sobre nada relacionado a isso por um bom tempo.


L337 BL06Z0R

Não resisti, voltei ao tema anterior, do qual eu tanto gosto. ;]

Em comemoração ao lançamento da revista Grandes Ovos Negros (falarei sobre em breve), à finalização do meu trabalho de conclusão de curso, entre outras coisas, resolvi mudar o tema do blog para algo que me deixa realmente feliz: o tema Bash, feito por pax. Como podem ver, estou ligando um pouco menos para a usabilidade; com este tema, iniciamos um novo ciclo para o blog, onde deixarei um pouco de lado as especulações acadêmicas. Creio que finalmente terei tempo e energia para dar fluxo ao experimental e inventivo, graças aos céus.

Então, até agora, 2 temas fazem parte do nosso histórico…

  1. Omit Needless Elements
  2. Bash

Abraços a todos e fiquem ligados para as novidades…

Links deliciosos

http://www.flusserstudies.net/

Poetas em suas próprias vozes

Mais uma pros amantes de poesia; fiz o upload dos 4 volumes da coleção “Poets in their own voices”. Como o nome sugere, são arquivos de áudio de diversos poetas (de língua inglesa) declamando seus poemas. Figuras carimbadas: Sylvia Plath, e.e. cummings, Charles Bukowski, Allen Ginsberg, William Butler Yeats e Ezra Pound. Confira a lista total de arquivos aqui.

E eu sei que vai ter gente querendo me pegar depois de colocar os beatniks no meio desses outros… ;]

  1. disco 1
  2. disco 2
  3. disco 3
  4. disco 4

Considerações e proposições

Esta é a introdução que LUTHER BLISSETT escreveu para o meu TCC de Bacharelado em Artes Visuais. em breve elencarei os textos em sua devida ordem (estão todos postados).

Gostaríamos de, num exercício poético, profético e acadêmico, fazer um passeio por alguns aspectos ocultos desse campo de guerra que se criou em torno da palavra “cultura”. Devido ao importantíssimo papel que assumiram os advogados na frente de batalha, somos forçados a voltar nossos olhos com um pouco mais de atenção para as palavras “plágio” e “pirataria”. Se megacorporações estão processando usuários domésticos por “downloads ilegais” e músicos e DJs por “plágio”, ficamos inclinados a pensar que a indústria cultural, além de ditar precisamente o que é criativo ou copiado, original ou plagiado, entende que toda essa produção “artística” se desloca por uma via de mão única, concedida aos mortais pelos detentores da inteligência artística – ou algo desse tipo. Vamos conversar sobre isso.

Para começar, uma agradável sequência de afirmações arbitrárias:

  • Consumimos, diariamente, quantias consideráveis de lixo mental alheio, a título de “cultura”;
  • “Cultura” essa que, embora seja mil vezes reciclada, enlatada, emprestada e repetida, nos é vendida com o rótulo de “original”;
  • Ironicamente, não é preciso mais pagar para consumir tais coisas, tal é a força do advento da Internet;
  • Não deixa de ser também irônico que o mercado da tecnologia tornou-se uma faca de dois gumes, fornecendo brinquedinhos novos para a indústria e armamento aos piratas;
  • Não podemos ter idéia exata, ainda, do que irá acontecer. Este embate deixará claro qual a força da rede independente em relação ao poder das corporações;

Enquanto isso, em um outro universo:

  • A arte erudita se comporta como se nada estivesse acontecendo, ainda perdida em seus objetos únicos e conceitos de arte pura;
  • Da aproximação da arte erudita com a arte de rua surgiu uma quimera que tem pouquíssimo conhecimento de si própria;
  • A aproximação da arte erudita com a Internet ainda ocorre desconfortavelmente;
  • A arte da Internet aparece em sua melhor forma quando feitas por geeks e nerds, e não por artistas eruditos;
  • Parece ter sido sempre assim no que diz respeito à arte e computadores;
  • No entanto, a arte erudita tem muito o que ensinar no campo de batalha da cultura: a prática do plágio, em sua raiz heróica “aprender com os mestres”, sempre foi tolerada e eventualmente muito bem recebida neste âmbito;
  • Alguns desdobramentos marcantes da arte erudita surgiram da prática do plágio. Marcel Duchamp projeta sua sombra em toda a produção contemporânea.

Após esta breve aclimatação, e com a série de artigos a seguir, nossa intenção é dar um pouco mais de visibilidade à algumas curiosidades e pessoas que analisaram e até previram estes problemas há certo tempo, com admirável visão de futuro. Se, imediatamente, Walter Benjamin nos vêm à memória, podemos, por outro lado, encontrar em Vilém Flusser alguns presságios mais robustos e específicos sobre a cultura recombinante e descartável, entre outros. Passando por outros autores heréticos, pseudônimos coletivos e filósofos semi-anônimos da era da Internet, e fazendo finalmente uma breve incursão na ficção científica, gostaríamos de experienciar e vivenciar as facetas luminosas e sombrias desse ambiente instável, antes que atinja sua próxima forma estável, a qual ainda desconhecemos. Em outras palavras, aguçar nossos sentidos para o que quer que aconteça daqui a alguns anos. Saudações a todos e uma ótima leitura.

- LUTHER BLISSETT

1984, de George Orwell

Este artigo sobre o já consagrado livro 1984 foi escrito em contraposição à resenha que fizemos, há alguns meses, do romance Nós, de Eugene Zamiatin. Sugerimos sua leitura antes do texto que se segue.

Se escolhemos comparar 1984 a Nós, não foi com o intuito de dissecá-los, ponto a ponto, para que ao fim tenhamos uma tabela de semelhanças e diferenças. Tal estudo seria mais apropriado a algum tipo de publicação especializada no gênero. Nosso propósito é consideravelmente mais simples, e pode ser delineado pontualmente:

  • Perceber como determinadas obras/expressões/discursos, ao mesmo tempo que ganham notoriedade, projetam uma sombra sobre suas “raízes” ou principais influências – quando não as fontes de onde extraíram literalmente alguns de seus conteúdos. Tentaremos, então, olhar um pouco mais adiante, e investigar estas influências.
  • Ver como a abordagem negativa do conceito de plágio é um fator limitante do exercício da criatividade. Consideramos oportuna a comparação por se tratar de dois marcos da ficção científica, sendo que 1984 foi largamente inspirado no romance de Zamiatin, e tornou-se indiscutivelmente o mais conhecido dos dois. Plágio ou não, fato é que, de qualquer maneira, uma grande obra literária possibilitou o surgimento direto de mais uma, e quem sabe de quantas outras, indiretamente.

A relação entre 1984 e Nós não é casual: Orwell leu o livro de Zamiatin, e manteve por este vivo interesse, a ponto de publicar uma crítica literária sobre o mesmo, num jornal, como nos conta Anthony Burgess, que ainda nos dá uma pista importante do que 1984 viria a fazer pela propagação de Nós:

“Orwell escreveu um artigo criticando o livro [Nós], publicado no Tribune de 4 de janeiro de 1946, quando conseguiu finalmente encontrá-lo, muitos anos depois de saber de sua existência. Sempre foi um livro bastante difícil e, se agora pode ser encontrado em quase todos os idiomas, isto se deve ao fato de que Orwell foi influenciado por ele. Mas parece ser impossível encontrá-lo na língua original, o russo.” – 1985, p.52

Zamiatin encontrou severas dificuldades para publicar sua obra em sua terra natal. Seu romance não fazia nenhum tipo de alusão demasiado direta a um ou outro governo, porém seu texto era considerado potencialmente perigoso, tanto pelos tzaristas quanto pelos socialistas, e foi banido da União Soviética. É natural que a tradução inglesa circulasse em maior quantidade. O romance de Orwell, apesar de ser crítico e até demasiado literal em sua analogia com a ditadura stalinista, não contou com a mesma perseguição, já que estava em curso um decisivo momento histórico: a Guerra Fria. Se o texto de Orwell era desagradável aos socialistas, o ocidente capitalista o receberia de braços abertos. Isaac Asimov, em sua crítica a 1984, destaca alguns detalhes da biografia de Orwell que ilustram bem a chegada deste momento, acompanhados de sua opinião pouco favorável ao livro:

“Orwell concluiu A Revolução dos Bichos em 1944, mas teve dificuldade em favoráveis para causar-se qualquer perturbação aos soviéticos. Todavia, logo que a guerra terminou, a União Soviética tornou-se uma caça permitida e A Revolução dos Bichos veio a lume. Foi recebida com grandes aplausos e Orwell tornou-se suficientemente próspero para afastar-se de outros trabalhos e dedicar-se à sua obra-prima, 1984. […]

Trata-se exclusivamente de um retrato do stalinismo.

Em 1944, na época em que o livro foi publicado, a Guerra Fria encontrava-se em seu auge. Por esse motivo o livro tornou-se popular. Era quase uma questão de patriotismo, no Ocidente, comprar esse livro, discuti-lo, talvez ler partes do mesmo, embora, em minha opinião, um maior número de pessoas o adquiriu e discutiu do que aquele que o leu, pois se trata de um livro tremendamente cacete, didático, repetitivo, sendo, antes de tudo, destituído de ação.” – No mundo da ficção científica

Não é o primeiro caso em que uma obra artística ou literária serviu como uma luva para a propaganda anti-comunista nos tempos da Guerra Fria; as pinturas do norte-americano Jackson Pollock foram amplamente difundidas como o símbolo da liberdade de criação e expressão nos EUA, em oposição ao Realismo Socialista imposto por Stalin aos artistas soviéticos. Toda a arte produzida pelos soviéticos, inclusas a literatura e a poesia, deveria ser um instrumento do Estado, uma expressão de sua identidade visual, importantíssima para um estado totalitário, que precisará manter intacta a imagem de seu poder, mesmo que a situação seja das mais adversas. Apesar de Hitler ter sido o maior “ditador esteta” – como sugere o documentário Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen – Orwell preferiu manter o foco sobre Stalin e a Revolução Russa, alvos maiores de seu rancor e ressentimento. Continuar lendo »