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Como olhar para um desenho

20 Apr 2010 | publicado por dedos | 2 comentários

Oi amiguinhos, hoje é dia de blogar, e vou contar para vocês como é fácil olhar para um desenho! Não é fascinante? São duas instruções simples, mas se eu estiver muito rápido, por favor me digam. Lá vai:

  1. Posicione-se de forma confortável a uma distância que lhe permita observar o desenho no nível de detalhe desejado. Ou seja, se quer ver de perto, fique perto, se quer ver a composição de modo mais geral, fique mais longe.
  2. Olhe para o desenho.

Fácil, não é? Não é.

Eu sou uma pessoa que faz muitos desenhos. Eles estão espalhados pela Internet, aqui e ali, e você pode olhá-los. Olhar do seu computador não representa nenhum perigo físico para meus desenhos. No entanto, se um dia você vier à minha casa e por acaso eu estiver trabalhando em um novo desenho, ou se eu quiser lhe mostrar um ou outro trabalho, você terá que tomar alguns cuidados.

Eu quase agredi fisicamente bons amigos e amigas por causa das condutas indesculpáveis que vou enunciar a seguir, e se você for um estranho, não espere menos do que uma surra seguida de esfolamento com lixa 200 como resposta à sua atitude grosseira.

  1. Tocar pra crer, ou o retorno de Tomé. Essa é a violação mais básica das duas simples etapas que enumerei no início desse post. A pessoa simplesmente não se contenta em olhar, precisa tocar com suas mãos vis e gordurosas um trabalho delicado que exige horas, dias, semanas de empenho e cuidado para não fazer qualquer tipo de sujeira. A curiosidade maior é que os violadores mais frequentes são meus amigos que também desenham, o que torna essa indelicadeza especialmente imperdoável no caso deles. Fico me perguntando qual será o maldito motivo para isso, já que se tratam de trabalhos bidimensionais onde a diferença de relevo entre o papel branco e a tinta é desprezível. Entendo que esculturas estimulam o toque, mas nesse caso é simplesmente imperdoável. Sou completamente a favor das linhas brancas no chão dos museus, separando a obra do público, e iria mais além, algo como um muro laser invisível que detectasse se a pessoa é ou não um artista. Em caso positivo, a mão da pessoa seria queimada irremediavelmente.
  2. A chuva de meteoros. É claro que as pessoas adoram omitir suas opiniões geniais sobre o que quer que seja. Dê a elas uma oportunidade de falar, e elas preencherão todo o espaço e tempo disponíveis com palavras. No nosso caso particular, estamos falando sobre desenhos, e parece existir, em algumas pessoas, uma necessidade imperiosa de virar a boca em direção ao papel e disparar gotículas de saliva que transformarão suas delicadas linhas de nanquim ponta 0.05 em micro-pocilgas, dando um efeito aquarelado ao trabalho. Sim, sou paranóico a esse ponto, então quando for dar uma de crítico e falar verdades artísticas ou o que quer que seja, vire a boca para uma direção qualquer onde não haja um papel com tintas solúveis em água dispostas de maneira harmoniosa. Veja bem, são 360 graus ricos em possibilidades, você tem mesmo que babar em um frágil e delicado desenho quase pronto?
  3. Desculpe, achei que isso fosse apenas um apoio estilizado para meus pertences pessoais. Cresci acostumado com o fato da maioria das pessoas não estar ligando a mínima para atividades artísticas ou criativas, principalmente quando se trata de tipos desconhecidos e estranhos fazendo desenhos malucos. Mas a falta de sensibilidade e consideração de alguns indivíduos simplesmente arrebenta as raias do ultrajante. Por isso, antes de chegar em casa contando seus milhares de problemas e novidades sem sequer olhar o ambiente à sua volta, respire um pouco, perceba onde está, entre com calma e coloque suas coisas no lugar adequado. Porque eu dificilmente vou me recuperar a tempo de salvar sua vida do acesso de fúria causado por pessoas que colocam bolsas, celulares e outras coisas em cima de desenhos em andamento na minha mesa.
  4. Vamos tomar um drinque? Não, não vamos. Muito menos perto desse desenho tamanho A1 feito cuidadosamente com um bico de pena minúsculo. Só quem vivenciou algo parecido sabe o quão terrível pode ser a cena de alguém se aproximando com um copo cheio de um líquido qualquer e olhando bem de pertinho aquele trabalho que levou semanas e está finalmente quase pronto.  Dica para os desenhistas: se estiver bebendo algo enquando desenha, deixe o copo num nível abaixo do papel, um banquinho do lado da sua cadeira é perfeito.

Eu poderia continuar reclamando e exigindo cuidados de vocês, mas acredito piamente na capacidade de tirar conclusões e levá-las adiante de cada ser humano. Só gostaria de finalizar com o que eu acho que seria a cena completa da desgraça esboçada acima em 4 itens.

Você está quase no fim daquela ilustração que precisa ser finalizada a qualquer custo, sob o risco de você não aguentar mais olhar para a mesma imagem e colocar tudo a perder. Uns amigos estão em casa bebendo vinho tinto. Um deles se aproxima, semi-bêbado, e vê o grande desenho quase pronto na sua mesa. “Nooooossaaaaa, que viaaaaaageeeeeem” ele diz, enquanto coloca a sua taça na mesa, bem pertinho do papel (o vinho na taça oscila e quase algumas gotas espirram para fora). Ele começa então a olhar bem de perto, fazendo comentários (gotinhas de saliva cor de vinho estão voando) e tocando com o dedo as partes do desenho que mais gostou.

Se você sobreviver ao ataque cardíaco que provavelmente será engatilhado por tão terrível visão, educadamente diga a seu amigo que vá tomar no cu venha ler este post, enquanto bate com sua cabeça repetidamente na parede gentilmente o afasta da mesa lhe explicando que quer atravessá-lo de cabo a rabo com uma lança com certas coisas não dá pra manter o habitual trogloditismo do cotidiano.

E mais desenhos novos

27 Aug 2009 | publicado por dedos | 4 comentários

Certa vez eu tive um sonho, em que um velho esquisito apontava para a Lua (que estava pegando fogo) e me contava coisas aterradoras. Então surgiu um dragão imenso e passou a voar em torno da Lua, e eu perguntei quem era o dragão, e ele me disse que o dragão chamava Alaor (tinha um sobrenome estranho, que eu esqueci). Desde então esse dragão começou a dar as caras nos meus desenhos, este é o retrato mais preciso.


alaor by =adedos on deviantART

Sentado nas alturas, em meio às pedras e as arvorezinhas, ele observa o Sol se por, e ali passa a noite admirando as estrelas…


a day ends by =adedos on deviantART

Desenhos novos

18 Aug 2009 | publicado por dedos | Comente

Desenhos!! Feitos no período de junho a agosto de 2009.

Estou postando aqui do IA-UNESP, em São Paulo, empolgado com esses computadores novos e o scanner que estou a usar por aqui. Scaneei várias imagens em 600dpi numa rapidez inacreditável, pensando nas antigas chaleiras capengas que constituíam o antigo polo de informática. Parabéns também pela Internet, fiz uploads de imagens de 12mb em menos de um minuto. Assim sendo, atualizei minha pagininha no deviantART, com os novos trampos. As novidades são a disponibilidade das imagens em altíssima definição, para os interessados (é só clicar em Download, à esquerda da imagem), e a possibilidade de comprar os Deviant Prints dos trampos novos (imagens impressas, em altíssima qualidade, em diversos tamanhos). Neste caso, o pagamento deve ser feito pelo site do deviantART (em dólar), e o frete é internacional, etc etc. Ou seja, essa novidade é mais para nossos amigos de fora do Brasil, ou para algum apreciador que eventualmente disponha de um pouco mais de dinheiro e vontade de ter algum desenho meu impresso, bem bonito.

Bonus: Coloquei um arquivo ZIP no 4shared com todas as imagens dos desenhos novos, em alta definição, e um rascunho não publicado de brinde. O link é este: desenhos_jun-ago-09.zip

Alguns desenhos:

horse rides fish by =adedos on deviantART


mother and son by =adedos on deviantART


contemplative state by =adedos on deviantART

Pequenos pensamentos sobre o desenho

17 Jul 2009 | publicado por dedos | 2 comentários

Ao solitário leitor que insinuou que eu somei meu blog à legião de blogs abandonados que assolam a rede: não estou escrevendo muito, de fato, pois estou desenhando bastante. Algo estranho acontece: uma época escrevo muito, outra desenho muito; parece que o exercício mental exigido pelas duas atividades é de uma natureza diversa. Já reparei isso: nos dias que desenho muito, tenho dificuldades em ordenar as idéias de modo lógico e sequencial. E nos dias de escrever, me sinto “travado” pra desenhar, parece que falta aquele “estalo” inicial. Pois bem, hoje enquanto desenhava tive alguns insights, nada de original, só vou tentar colocar essas idéias de uma forma clara e resumida. Pode ser de utilidade aos que estão começando a se aventurar na seara das atividades criativas. Mas acima de tudo, isso é fruto da minha experiência particular, não sendo em absoluto nenhum tipo de verdade. Aí vai:

Estilo = Repetição

Ouvi dizer algumas vezes coisas como “nossa, que estilo original”. No entanto, me parece que não existe algo como um estilo original. O que chamamos de estilo – o que torna reconhecível este ou aquele desenhista, artista, etc – é um conjunto de características que se repetem ao longo de um conjunto de imagens, e que nos permite identificar uma imagem separada como pertencente a um “todo”. Portanto, creio que seria extremamente proveitoso ao aprendiz de desenho abandonar qualquer busca por um estilo, pois estará no fundo procurando um conjunto de repetições que poderá aplicar em suas criações. É claro que não se pode fugir ao estilo, pois cada um possui um jeito característico de fazer as coisas, e isso necessariamente transparecerá também na prática do desenho. Mas é melhor que essas repetições características surjam naturalmente, ao invés de serem buscadas. Os casos críticos aqui seriam os do tipo “quero desenhar que nem tal pessoa” ou ainda “quero desenhar estilo mangá (ou qualquer outro gênero)“. Claro, se você quer ter uma profissão no ramo, isso ajuda, mas se quer desenvolver sua criatividade – e melhorar sua vida como um todo – é o caminho menos indicado, sujeito à frustrações diversas e desnecessárias.

Nenhuma idéia é tão boa

Eventualmente temos alguma idéia genial para um desenho e rapidamente começamos a colocá-la em prática. Porém, às vezes, a coisa começa a trilhar caminhos estranhos, e começa a surgir uma coisa diferente do que foi prevista. Nesse momento, existem algumas escolhas a serem feitas, sendo que geralmente optamos por tentar, desesperadamente, adaptar o que estamos fazendo à  idéia original. Após muitos desenhos e decepções, percebi que nesses momentos é mais frutífero continuarmos fazendo o que começamos, e nos libertarmos da idéia original, em favor das novas formas que estão a surgir. Pois a idéia inicial é simplesmente uma idéia como qualquer outra, com a diferença de que você pensou que era uma idéia genial. Persista no que está acontecendo diante de seus olhos, por meio das suas mãos, e talvez ficará positivamente surpreso. E, além de tudo, nada está perdido: pode-se anotar a idéia antiga ou fazer um rascunho da mesma, para continuar depois.

E algumas idéias são péssimas

Pro bem ou pro mal: não se leve a sério. Pensamentos como “eu não sei desenhar, não sirvo pra isso” ou então “nossa, isso realmente está ficando SENSACIONAL, sou o novo Picasso” devem ser rapidamente abandonadas. Não combatidas ou reforçadas, mas simplesmente ignoradas. Não existe nenhum compromisso seu para com a beleza e a verdade artística, portanto coloque-se frente ao papel em branco com o máximo de liberdade possível. Comece a desenhar e simplesmente veja o que está acontecendo. Comparações não ajudam em absolutamente nada: atenha-se ao que você está fazendo, observe sua própria maneira de fazer as coisas, deixe a criatividade agir. As auto-depreciações não vão te deixar sair do lugar. Observei isso dando aula: o maior entrave para o aprendiz são as idéias erradas que tem de si mesmo. Muitos alunos, ao largarem mão dessas idéias negativas sobre sua própria capacidade, simplesmente soltaram a mão e encontraram grande prazer no ato de criar. Quando ao auto-engrandecimento, bem… no meio artístico é fácil ver o que isso fez com certas pessoas.

Dê ouvidos à críticas mas nem tanto

Cuidado com o que as pessoas lhe dizem sobre o que está fazendo. Críticas são sempre bem-vindas, mas tente sempre pesar a crítica com a sua sincera posição em relação ao que fez. É difícil encontrar equilíbrio nessa hora. Cuidado também com o personal-crítico: aquela pessoa para quem você sempre mostra suas coisas. Quando menos perceber, estará fazendo coisas pensando no que o seu amigo vai dizer sobre isso ou aquilo, e isso é perigosíssimo, pois está moldando seu ato criativo a um julgamento alheio. Mais uma vez: nenhuma idéia é tão boa. Saiba aceitar as críticas, mas tente ter o máximo de percepção nesse momento para não ser manipulado. E é claro: desconfie quando todos estiverem elogiando.

Amilcar de Castro, um homem vivo

24 Jun 2009 | publicado por dedos | Comente

Trechos extraídos do livro Amílcar de Castro: depoimento. Editora C/Arte, Belo Horizonte, 1999. Com certeza vale muito a pena ir atrás do livro todo, pois creio que é sempre melhor ouvir o próprio artista do que a voz de terceiros sobre o artista. E é uma oportunidade rara ouvir uma voz como essa…

Visitem também seu site oficial.

Sobre o ensino de artes nas escolas e universidades

O professor tem que fazer provocações, tem que provocar o aluno à descoberta, à invenção. Fica tudo atrelado ao professor, ao currículo, às notas. A Escola podia ser melhor se fosse mais livre de currículos, de notas. A provocação, a criação seria mais viva. Eu sempre quis provocar o aluno a pensar, a ler e a discutir comigo. Mas o aluno, em geral, não tem interesse em pensar e descobrir coisas, ele se preocupa muito com a nota, quer passar de ano. Não se preocupa em saber desenhar, não existe uma proposta que seja desenvolvida, então fica tudo muito distante da arte. O aluno passa de ano, forma e é analfabeto em arte. O aluno tem que querer destruir o mundo, construir o mundo, reconstruir o mundo, revolucionar, pensar alguma coisa. Ficar preocupado com a notinha pra passar de ano é muito ruim. A maioria não quer nada, não quer fazer, não tem vontade de fazer.

Sobre o desenho e o tal “fazer artístico”

O desenho com lápis duro foi como um funil, me fez entrar pra um caminho que achei muito bom. Desenhar com lápis duro dá o prazer de fazer bem feito. Você não pode errar, você tem que fazer o melhor possível. Se errar não há conserto, não sai nunca mais, pois o lápis duro sulca o papel. O traço tem que ser feito corretamente, severamente. Isso me deu uma grande alegria e comecei, por aí mesmo, a ser mais severo, mais decidido.
O desenho é muito importante para trabalhar a escultura porque não tem negócio de sombra. Sombra engana todo mundo, enrola todo mundo. Se está errado o braço, é porque essa linha está errada, não porque existe sombra. A sombra muda segundo a hora do dia, a linha não, é essa aqui e pronto.
(…)
Os desenhos que estão no meu ateliê eu fiz de uma só vez, no mesmo dia, no máximo em uma hora. Eu desenho em cima dessa mesa, pego o balde com tinta acrílica, o pincel e risco sobre a tela. Faço o risco sem plano nenhum, sem nada previsto, procurando organizar o espaço e pronto.
(…)
Meu fazer é intuitivo e aventureiro, às vezes eu me provoco, começo um desenho de um lado, mudo para outro, mudo novamente e começo o desenho com a mão esquerda. Tenho que mudar para ver o que acontece com o desenho e o mesmo acontece com a dobra da escultura. Eu não estou querendo fazer coisa bonita, nem coisa fabulosa, estou querendo fazer coisas de que eu goste agora. Então, eu me aventuro hoje, agora, porque amanhã pode ser que eu faça tudo diferente.
(…)
Sou provocador de mim mesmo, estou me autoprovocando o tempo inteiro e a alegria está aí. Não tenho que fazer nada, passo um mês sem fazer coisas e faço em quinze dias o que deixei de fazer num mês inteiro. Faço desse jeito e é assim porque tem que ser.

Desenho de Amilcar de Castro.

Desenho de Amilcar de Castro. Tinta acrílica sobre tela, 67,5x70cm.