Bibliografia básica

Bom, como eu sei que vocês têm um senso crítico agudo e não vão engolir nada de graça, gostariam de saber de onde tenho tirado certos pensamentos, argumentos e citações que tenho utilizado nos meus textos. Talvez não fiquem tão surpresos ao descobrir que é tudo uma grande mistureba de filosofia, arte, sociologia, literatura e misticismo. Vou passar aqui o nome de alguns livros, sem ano, editora, cidade, sem ordem – aqui a ABNT não tem vez, e vocês tem o Google – e quem tiver interesse que vá atrás. Não é isso?

  • FLUSSER, Vilém. Pós-História: Vinte instantâneos e um modo de usar
  • FLUSSER, Vilém. O Mundo Codificado
  • FLUSSER, Vilém. Da Religiosidade
  • CONFÚCIO. Os Analectos
  • BURROUGHS, William. O Gato por dentro
  • DOSTOIÉVSKI. Memórias da casa dos mortos
  • RAJNEESH, Bhagwan Shree. Tantra: a suprema compreensão
  • KRISHNAMURTI, Jiddu. Sobre a aprendizagem e o conhecimento
  • KRISHNAMURTI, Jiddu. Ensinar e aprender
  • KRISHNAMURTI, Jiddu. Aos pés do mestre
  • CAMPOS, Haroldo de. Ideograma: lógica, poesia, linguagem
  • PIGNATARI, Décio. Informação, Linguagem, Comunicação
  • HOME, Stewart. A greve da arte / Manifestos Neoístas
  • TAYLOR, Roger L. Arte, inimiga do povo

Abraços e paz a todos!

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Imagens que consumimos

Recomendo aos leitores que ainda não o fizeram, que leiam o Advento da salsicha, a morte da intuição antes do presente artigo, já que este é meio que uma sequência daquele. Nada sumamente necessário, no entanto.

Texto revisado, enxugado e atualizado dia 14/10/2009.

É difícil conceber, nesses dias em que somos constantemente assaltados por imagens, um tempo onde uma imagem fosse uma espécie de artigo incomum, ou até mesmo raro. Sabemos que esse tempo existiu – sem métodos de impressão em massa, fotografia, televisão, etc. O domínio técnico, ou o know-how da criação de imagens, nesses tempos idos, estava nas mãos e mentes dos artistas. Portanto, para ver uma imagem, existiam poucas opções, que no fundo eram apenas uma: ir aonde estavam as imagens. Ou seja, visitar igrejas, cavernas pré-históricas, museus ou a casa de algum afortunado colecionador ou nobre que pudesse pagar um pintor por um retrato, por exemplo. 
Uma característica quase geral é que as imagens em questão eram signos relacionados diretamente aos seus objetos dinâmicos, o que na prática quer dizer: o retrato do nobre remetia ao nobre em pessoa, a pintura de paisagem a um lugar específico, o afresco na igreja à passagem bíblica em questão. Se levarmos em consideração também o fato de que, antes da invenção da imprensa, a alfabetização e o uso do código escrito eram privilégio de pouquíssimos, podemos ter uma noção mais precisa da importância da imagem nesses tempos. Por exigir dos observadores um posicionamento – tanto físico, quanto intelectual – a imagem (ou código imagético, segundo Flusser) concentrava em si grande riqueza de significado, a ser explorada por vários e diversos pontos de vista. O código imagético era, portanto, de natureza subjetiva e dependia de um ponto de vista, a partir do qual poderia ser interpretado. O número de possíveis interpretações está diretamente relacionado ao número de pontos de vista possíveis de serem escolhidos.
De natureza bem diversa é o código escrito, ou código conceitual. Em relação a uma imagem, um texto é, a princípio, mais pobre em significado. Primeiro, porque um texto necessita de uma estrutura prévia, o alfabeto, que está submisso a um idioma, que é um importante fator limitante.  Em seguida, existe a sua natureza objetiva e linear: tem início e fim, vai de um ponto a outro: acompanha-se o raciocínio linear até o final para chegar então à síntese, à conclusão. Embora possa nos fornecer com precisão um significado ou uma mensagem, o texto está limitado justamente pelo conceito a ser transmitido, e não contempla outras possíveis interpretações que escaparam à sua “rede conceitual”. É nesse sentido que a imagem concentra maior potencial de significado que o texto: pode ser explorada por vários e diversos pontos de vista, e desdobrada de múltiplas maneiras, por estar livre do alfabeto, do idioma e do fio linear do código escrito. Esta comparação é possível, pois não envolve dois códigos de natureza diferente; os textos surgiram da necessidade de explicar as imagens. Todo texto, por mais abstrato que seja, remete a uma imagem. Este fato foi observado e anotado diversas vezes por Flusser, como na seguinte passagem:

“A cultura ocidental como um todo pode ser considerada uma tentativa progressiva de explicar a imaginação (explicar as imagens). E para isso foi criada a escrita linear, código que permite denotar os códigos imagéticos e assim clarear o ponto de vista da imaginação, tornando as imagens transparentes de novo para o mundo dos objetos. Esse fato pode ser visivelmente constatado nas primeiras plaquetas mesopotâmicas. Lá se torna manifesta a intenção por trás dos gestos da escrita linear. Elementos imagéticos isolados (pixels) são assim retirados da tela para serem ordenados numa sequência de pictogramas. O propósito aí é decodificar as imagens bidimensionais em linhas unidimensionais, submetê-las a uma crítica que enumera, que conta.”

Existe então o que chamaremos pensamento em superfície (imagem), subjetivo, não linear, e com grande potencial significante, que depende do ponto de vista dos observadores. E também o pensamento em linha, sendo caracterizado principalmente pela objetividade e linearidade, características que garantem a transmissão mais eficaz de uma determinada mensagem ou significado, o que também significa uma limitação no número de significados e interpretações possíveis. 
É inegável que o pensamento em superfície, no século XXI, tornou-se o principal meio de leitura do mundo do homem. No entanto, eria um tanto ingênuo supor que as imagens que consumimos em nossas televisões e computadores (as principais ferramentas atualmente), revistas, cartazes, fotografias e outras superfícies são da mesma natureza que as imagens produzidas pelo homem até o século retrasado. 
Retornemos a um exemplo dado anteriormente – o funcionamento das imagens enquanto signos. Mencionamos que as imagens estavam mais diretamente relacionadas aos objetos que representavam. E isso é fácil de observar, se estivermos atentos a certas particularidades das imagens dos nossos meios de comunicação. Por exemplo, quando vemos em uma revista algumas fotos de uma conhecida atriz sexagenária, ostentando um corpo firme de pele brilhante, o qual esperaríamos ver em uma mulher na casa dos trinta anos ou menos: o que esta imagem quer nos dizer? Que a atriz em questão realmente possui tal corpo? Não seremos inocentes a este ponto, ainda mais levando em consideração a ampla utilização de técnicas e programas de tratamento de imagens. Se a fotografia dessa atriz não aponta à mulher em questão, para onde está apontando este signo fotográfico? Para uma idéia, um conceito, ou uma rede de conceitos. Neste caso particular, a imagem da atriz a substitui – a única relação que podemos ter com esta mulher é com a imagem dela, e nada mais, o que torna compreensível a preocupação em transmitir uma imagem perfeita, desejável. Pois é com a imagem, e com o conceito para o qual esta imagem remete, que nos relacionamos.
Estas imagens não são como as pinturas que citamos no início do texto: não podem ser desdobradas infinitamente pelo público. Ao contrário: estas imagens chegam até nós com um propósito específico e bem delimitado. A razão não mais representa a forma com a qual analisamos e decompomos imagens, mas sim o modo como estas imagens são construídas. É uma espécie de prostituição da imaginação, que está sendo utilizada de forma complexa, científica, extremamente racional para fins que, atualmente, contribuem para a perpetuação de um mercado baseado na estupidez e na ignorância: a propaganda e a cultura de massa. A imagem, em vez de mediar a relação homem/mundo, substituiu o mundo e aprisionou o homem em suas imagens. É por isso que a publicidade pode ter tanto sucesso, pois não vende objetos, e sim idéias associadas a eles. Mas este fascínio pelas imagens não é exatamente novo; a propaganda explora uma tendência humana bem antiga, conhecida há milênios. Flusser faz uma anotação neste sentido, considerando o surgimento do código escrito: 

“Foi contra essa idolatria de imagens, como uma terapia contra essa dupla alienação, que a escrita foi inventada. Os primeiros escritores na nossa tradição, como por exemplo os profetas, sabiam disso ao se empenharem contra os ídolos e sua criação. E assim fez Platão quando anunciou seu ódio por aquilo que hoje chamamos de “artes plásticas”. A escrita, a consciência histórica, o pensamento racional foram inventados para salvar a espécie humana das “ideologias”, da imaginação alucinatória.”

Sendo assim, a grande novidade do retorno às imagens não reside no fato de que se movem ou são luminosas. Uma característica das novas imagens é que estas têm origem em uma mensagem pré-planejada que se torna imagem. Levando em consideração também um princípio básico da Teoria da Comunicação – quanto maior o nível de informação, menor o público a ser atingido – podemos imaginar que que nível de informação é transmitido nas imagens das mídias de massa. Além disso, outra característica importante das imagens que hoje consumimos é a de que o deslocamento físico foi praticamente anulado: não é mais necessário nos deslocarmos para ter acesso às imagens. Ir a um lugar para ver imagens denota ação, uma escolha – quando vamos a uma exposição de arte, por exemplo. Existe a contemplação, a reflexão, o eventual diálogo com alguém que esteja nos acompanhando: espaço para olharmos de diferentes pontos de vista, e desdobrarmos a imagem em múltiplos significados. 
Mas o fato é que também consumimos, e muito, as imagens que se movem dentro dessas caixas em nossas casas. A imagem em movimento é o melhor recurso para aniquilar qualquer possibilidade de reflexão crítica. A sucessão rápida de imagens diversas é viciante e manipuladora, pois permite diluir uma idéia em uma quantidade grande de tempo. Por isso uma telenovela pode fazer de um roteiro abaixo do medíocre uma produção cinematográfica de meses de duração. A estrutura, que é praticamente a mesma para todas as novelas, permanece oculta, enquanto as partes vão sendo rapidamente reveladas e superpostas. Cria-se, assim, a ilusão de serem estruturas diferentes, o que é um bom motivo para muitas pessoas continuarem assistindo novelas, mesmo sabendo que são “todas a mesma coisa”. A imagem televisiva é uma rua de mão única – não há possibilidade de responder diretamente ao conteúdo que é recebido. Somos capazes de passar horas diante dela, apertando botões – a ilusão de um relativo poder de escolha. Mas o comportamento em relação à televisão muitas vezes se extende para todas as imagens – as imagens pelas quais lemos o mundo e somos programados. Perdemos o contato com os fatos, e os substituímos pelas imagens. Mas esta reação passiva às novas imagens conceituais era previsível, como de fato foi prevista, por Flusser. E sua contrapartida positiva também:

“Temos duas alternativas. A primeira possibilidade é a de o pensamento imagético não ser bem sucedido ao incorporar o pensamento conceitual. Isso conduzirá a uma despolitização generalizada, a uma desativação e alienação da espécie humana, à vitória da sociedade de consumo e ao totalitarismo da mídia de massa. Parecerá muito com a atual cultura de massa, até mais, inclusive, e a cultura da elite desaparecerá para sempre. E esse é o fim da história em qualquer sentido significativo que esse termo possa ter. A segunda possibilidade é a de o pensamento imagético ser bem-sucedido ao incorporar o conceitual. Isso levará a novos tipos de comunicação, nos quais o homem assumirá conscientemente a posição formalística.”

Este novo tipo de comportamento está, ainda que de maneira tímida, surgindo. A cultura recombinante, que encontrou uma poderosíssima aliada, a Internet, e alguns casos da arte de rua são dois bons exemplos de ações que não regurgitam o bombardeio de imagens à sua maneira, devolvendo-as para o circuito, com seus significados reciclados. É verdade que a indústria cultural e os governos estão em movimento para transformar a Internet na nova televisão, e a arte de rua está sendo cooptada pelos museus e galerias, para que também possam ser consumidos como arte. Mas, aparentemente, um novo tipo de consciência imagética está surgindo, e dificilmente será abafada por medidas que visam somente a manutenção de mercados obsoletos. Ou assim esperamos. De qualquer forma, é nessa empreitada que os “artistas visuais” poderão ser úteis: criando imagens que devolvam ao público a possibilidade e o prazer de contemplar, admirar, refletir e criticar. Os arte-educadores, em vez de repetirem aos seus alunos toda a verborragia prolixa dos livros de história da arte, poderiam, gradualmente, apontar as imagens que fazem parte do cotidiano desses alunos e analisar, juntos, a natureza dessas imagens. Certamente, o prazer encontrado tanto na contemplação, quanto no exercício do raciocínio crítico, diminuirão a diposição geral de engolir passivamente as imagens-salsichas que diariamente consumimos.
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Livros de filosofia para download

Recebi hoje, em uma lista de discussão da qual participo, um e-mail de um camarada que resolveu fazer-nos um imenso favor e compartilhar diversos livros de filosofia e sociologia, completos e em português, em formato PDF. Como eu estava precisando movimentar minha conta do 4shared pra não perder tudo o que eu tenho por lá, subi 2 livros que têm relação com o que ando escrevendo por aqui. Deixarei os links para download aqui, mas o link principal é para a página do 4shared do rapaz que está disponibilizando o resto dos livros – 2gb até agora!

+ de 2 GB de livros de filosofia e sociologia

Leituras recomendadas pelo dedos.info:

Abraços e até a próxima!

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Manifesto Inexpressionista

A tola arte dos que não compreenderam os novos caminhos da expressão; dos que, por ingenuidade, ainda vêem na prática e no fazer artístico-artesanal um caminho possível. Tolos seduzidos pelo falecido retrato moderno dos que “esperam os milagres que o mundo lhes parece dar direito, sentem correr sangue purpúreo nas veias e lançam um longo olhar carregado de tristeza à luz do Sol e às sombras dos grandes parques”. Insensatos entregues ao imediatismo do prazer visual.

Preferimos o cômodo caminho do “labor criativo”. Renunciamos ao elevado traçado das idéias, antes por incompreensão, que por despeito. Não somos versados nas particularidades da linguagem contemporânea; não encontramos lugar dentro do fascinante círculo das performances em galerias, das eletrizantes vídeo-instalações, tampouco somos algum dos quatro estômagos que ainda estão a ruminar Duchamp e Beuys, as eternas novidades. Não, dessa vaca somos apenas o sininho amarrado ao pescoço, que debilmente ressoa nossa quase completa falta de desenvoltura frente à arte de nosso tempo. Como seríamos mais felizes se conseguíssemos, por meio do discurso artístico, transformar o copo d’água em carvalho! Mas nossa percepção deslocada temporalmente só nos permite ver o copo d’água – e, não sem certa vergonha, admitir que gostamos dele.

Reconhecemos, no entanto, a incomensurável distância que separa nossas defasadas composições formais dos avançados conceitos que têm colocado a arte em movimento em nossos dias. Não desejamos, porém, que essa distância seja motivo para cisões e discussões acaloradas: aceitamos sem reservas o papel de retrógrados. Ainda estamos presos a certas qualidades que, a muito custo, foram transmutadas para o que hoje conhecemos como erudição artística.

Desprovidos das características que hoje fazem um artista, dessa arte que só a razão de nosso tempo poderia produzir, prudentemente nos abstemos. Não há crise, não há propostas, apenas a manutenção do que já vem sendo feito: em vez de construirmos nossas obras com idéias e entregarmos pensamentos prontos, continuaremos construindo imagens – para que delas nossos obsoletos admiradores e observadores possam extrair seus próprios pensamentos e idéias. Transferimos, assim, a árdua tarefa de pensar, idealizar e conceitualizar para o público.

Os artistas da vanguarda de cem anos atrás proclamaram que a arte era dos artistas, que a obra de arte estava na idéia, que o artista é uma espécie de Midas que, pelo toque mental, transforma o chumbo do cotidiano banal no ouro da arte. Os artistas das décadas seguintes gostaram muito desta idéia, que ainda persiste sem grandes distorções. Nós, humildes inexpressionistas, por alguma deficiência cuja explicação nos escapa, enxergamos tal tarefa como demasiado árdua e grandiloquente. Por meio da recusa à expressão artística contemporânea, devolvemos a arte à mente do grande público. Nesta recusa arde a chama inexpressionista.

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O último livro impresso

O último livro impresso terá como assunto a história dos livros impressos e o valor destes objetos. O autor desta obra será o dono da última editora de livros impressos no globo, que sobrevirá à crise do papel graças a alguns títulos de auto-ajuda, destinados a um público ainda mal adaptado aos métodos “imateriais” de difusão do código escrito.
O primeiro capítulo tratará de traçar uma breve história da imprensa, dando certa ênfase à pessoa de Gutemberg e seus tipos móveis. Relembrará os árduos tempos em que alguns heróis talhavam, em xilogravura, as páginas da Bíblia, em caracteres góticos – letra por letra, página por página – e como o surgimento da imprensa transmutou para melhor este quadro. Evocará o caráter quase material dos tipos impressos, de como se podia tocar a superfície da página e sentir o corpo das letras.
Em seguida, nosso caro autor nos fará o favor de rememorar o grande serviço prestado às massas com a difusão dos textos impressos, dando assim, finalmente, a oportunidade das pessoas comuns se alfabetizarem, outrora um privilégio de muito poucos. Apenas isto não bastará: seremos também lembrados de que a difusão dos textos e livros mudou também o modo de pensar da humanidade em geral. A realidade deixou de ser inóspita, mágica, desconhecida: o conhecimento chegou para todos, mulheres e homens, dos infantes aos anciãos.
Em seguida, o último livro impresso apresentará uma reflexão da relação homem/livro. Nosso autor terá um particular empenho dramático neste ponto: citará livros que mudaram o rumo da história, livros que tiraram outros livros do ostracismo, livros que despertaram grandes mentes adormecidas, livros que salvaram vidas. A seguir, mencionará a relação afetiva do homem com seus objetos: o prazer de ter consigo um livro especial evocador de boas lembranças, de possuir uma biblioteca particular, de poder colecionar literatura sob diversas formas, cores e tamanhos.
E é neste ponto que os argumentos do autor do último livro impresso não serão tão arrazoados quanto os iniciais – para não dizer um tanto desesperados. Apelará para o fetichismo, suscitará os supostos prazeres de tirar um livro da embalagem, sentir o cheiro das páginas novas, perscrutar com os dedos a capa ainda intacta. Dirá ainda que sempre existirão árvores em quantidade suficiente para se fazer mais e mais papel, que os ecologistas estão gravemente equivocados, que a celulose é a submissão da natureza a uma causa nobre. Encerrará seu discurso argumentando que os livros impressos são parte viva do pensamento humano, um legado cultural cuja extinção trará ao homem certa miséria de identidade.
O último livro impresso será um fracasso de vendas e motivo de risos nos novos círculos literários. Um funcionário insatisfeito da última editora deixará “vazar” a matriz digital do livro para a rede mundial de computadores, e a versão não-impressa do último livro impresso circulará online, em alta velocidade. Os leitores interessados o carregarão em seus eletronic readers, como um artigo curioso de um tempo estranho, onde tudo parecia excessivo, espaçoso e empoeirado.

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