Situação banal com tempo suspenso

Vivo num quarto enorme. A distância da porta até a minha cama é de tantos passos que, quando chego até o leito, minha visão já está acostumada ao escuro faz tempo. Tenho que andar até a minha cama no escuro porque o interruptor fica ao lado da porta.

Além da minha cama, existem dezenas, talvez uma centena de camas dentro do quarto. Eu poderia muito bem deitar-me em qualquer uma delas, já que sou o único habitante do quarto. Mas não me parece correto, já que a minha cama, encaixada no canto diagonalmente oposto à porta, foi a mim designada em épocas imemoriais, e não há qualquer motivo para contrariar uma decisão tão simples e ingênua como a localização de uma cama.

Eu entro no quarto, apago o interruptor e caminho até a minha cama, inicialmente esbarrando em outras e tropeçando aqui e ali. Mas após alguns minutos, minha vista se acostuma e o caminho é mais rápido.

Após me deitar, e aquietar meu corpo e mente no silêncio e no escuro, escuto ao longe, muito longe, o ranger da porta abrindo. Tenho a impressão de ver um braço passando pelo vão da porta aberta. A luz se acende, e a porta se fecha. Levanto e começo a lenta e sonolenta caminhada em direção ao interruptor.

Isso acontece toda noite.

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Só para registrar

Pinacoteca, São Paulo, exposição de arte feita no Brasil aos tempos da colônia.

Estou ao lado de dois senhores que estão observando uma ilustração que retrata faces de negros de diversas etnias africanas. Um deles disparava asneiras artísticas repetidamente, enquanto o outro meio que concordava, quieto.

Então, o nosso gênio da crítica começa a soltar essa: “… é interessante que os portugueses sabiam diferenciar os biotipos dos negros. Você vê, são biotipos diferentes. Tipos diferentes de negros. Os portugueses não os tratavam como uma massa indiferenciada, mas reconheciam os biotipos diferentes de negros. Sabe como é, são biotipos diferentes…”.

Pefeito para ilustrar o que eu vinha pensando há uns tempos: a arte ainda serve para embasar e destilar qualquer tipo de preconceito e ódio injustificado pelo outro. Serve para embasar comentários cuzões de um racista nem tão enrustido num museu. Por essas e outras que eu tenho nojo amor incondicional pela arte, da arte pela arte, do discurso artístico-positivista de que a arte vai mudar o mundo e salvar as pessoas. Surpresa amiguinhos, podem ficar bem tristes e pintar um quadro sobre isso, porque ela não vai salvar ninguém. Hitler também era um homem sensível.

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Como olhar para um desenho

Oi amiguinhos, hoje é dia de blogar, e vou contar para vocês como é fácil olhar para um desenho! Não é fascinante? São duas instruções simples, mas se eu estiver muito rápido, por favor me digam. Lá vai:

  1. Posicione-se de forma confortável a uma distância que lhe permita observar o desenho no nível de detalhe desejado. Ou seja, se quer ver de perto, fique perto, se quer ver a composição de modo mais geral, fique mais longe.
  2. Olhe para o desenho.

Fácil, não é? Não é.

Eu sou uma pessoa que faz muitos desenhos. Eles estão espalhados pela Internet, aqui e ali, e você pode olhá-los. Olhar do seu computador não representa nenhum perigo físico para meus desenhos. No entanto, se um dia você vier à minha casa e por acaso eu estiver trabalhando em um novo desenho, ou se eu quiser lhe mostrar um ou outro trabalho, você terá que tomar alguns cuidados.

Eu quase agredi fisicamente bons amigos e amigas por causa das condutas indesculpáveis que vou enunciar a seguir, e se você for um estranho, não espere menos do que uma surra seguida de esfolamento com lixa 200 como resposta à sua atitude grosseira.

  1. Tocar pra crer, ou o retorno de Tomé. Essa é a violação mais básica das duas simples etapas que enumerei no início desse post. A pessoa simplesmente não se contenta em olhar, precisa tocar com suas mãos vis e gordurosas um trabalho delicado que exige horas, dias, semanas de empenho e cuidado para não fazer qualquer tipo de sujeira. A curiosidade maior é que os violadores mais frequentes são meus amigos que também desenham, o que torna essa indelicadeza especialmente imperdoável no caso deles. Fico me perguntando qual será o maldito motivo para isso, já que se tratam de trabalhos bidimensionais onde a diferença de relevo entre o papel branco e a tinta é desprezível. Entendo que esculturas estimulam o toque, mas nesse caso é simplesmente imperdoável. Sou completamente a favor das linhas brancas no chão dos museus, separando a obra do público, e iria mais além, algo como um muro laser invisível que detectasse se a pessoa é ou não um artista. Em caso positivo, a mão da pessoa seria queimada irremediavelmente.
  2. A chuva de meteoros. É claro que as pessoas adoram omitir suas opiniões geniais sobre o que quer que seja. Dê a elas uma oportunidade de falar, e elas preencherão todo o espaço e tempo disponíveis com palavras. No nosso caso particular, estamos falando sobre desenhos, e parece existir, em algumas pessoas, uma necessidade imperiosa de virar a boca em direção ao papel e disparar gotículas de saliva que transformarão suas delicadas linhas de nanquim ponta 0.05 em micro-pocilgas, dando um efeito aquarelado ao trabalho. Sim, sou paranóico a esse ponto, então quando for dar uma de crítico e falar verdades artísticas ou o que quer que seja, vire a boca para uma direção qualquer onde não haja um papel com tintas solúveis em água dispostas de maneira harmoniosa. Veja bem, são 360 graus ricos em possibilidades, você tem mesmo que babar em um frágil e delicado desenho quase pronto?
  3. Desculpe, achei que isso fosse apenas um apoio estilizado para meus pertences pessoais. Cresci acostumado com o fato da maioria das pessoas não estar ligando a mínima para atividades artísticas ou criativas, principalmente quando se trata de tipos desconhecidos e estranhos fazendo desenhos malucos. Mas a falta de sensibilidade e consideração de alguns indivíduos simplesmente arrebenta as raias do ultrajante. Por isso, antes de chegar em casa contando seus milhares de problemas e novidades sem sequer olhar o ambiente à sua volta, respire um pouco, perceba onde está, entre com calma e coloque suas coisas no lugar adequado. Porque eu dificilmente vou me recuperar a tempo de salvar sua vida do acesso de fúria causado por pessoas que colocam bolsas, celulares e outras coisas em cima de desenhos em andamento na minha mesa.
  4. Vamos tomar um drinque? Não, não vamos. Muito menos perto desse desenho tamanho A1 feito cuidadosamente com um bico de pena minúsculo. Só quem vivenciou algo parecido sabe o quão terrível pode ser a cena de alguém se aproximando com um copo cheio de um líquido qualquer e olhando bem de pertinho aquele trabalho que levou semanas e está finalmente quase pronto.  Dica para os desenhistas: se estiver bebendo algo enquando desenha, deixe o copo num nível abaixo do papel, um banquinho do lado da sua cadeira é perfeito.

Eu poderia continuar reclamando e exigindo cuidados de vocês, mas acredito piamente na capacidade de tirar conclusões e levá-las adiante de cada ser humano. Só gostaria de finalizar com o que eu acho que seria a cena completa da desgraça esboçada acima em 4 itens.

Você está quase no fim daquela ilustração que precisa ser finalizada a qualquer custo, sob o risco de você não aguentar mais olhar para a mesma imagem e colocar tudo a perder. Uns amigos estão em casa bebendo vinho tinto. Um deles se aproxima, semi-bêbado, e vê o grande desenho quase pronto na sua mesa. “Nooooossaaaaa, que viaaaaaageeeeeem” ele diz, enquanto coloca a sua taça na mesa, bem pertinho do papel (o vinho na taça oscila e quase algumas gotas espirram para fora). Ele começa então a olhar bem de perto, fazendo comentários (gotinhas de saliva cor de vinho estão voando) e tocando com o dedo as partes do desenho que mais gostou.

Se você sobreviver ao ataque cardíaco que provavelmente será engatilhado por tão terrível visão, educadamente diga a seu amigo que vá tomar no cu venha ler este post, enquanto bate com sua cabeça repetidamente na parede gentilmente o afasta da mesa lhe explicando que quer atravessá-lo de cabo a rabo com uma lança com certas coisas não dá pra manter o habitual trogloditismo do cotidiano.

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Obras que discutem

Um de meus passatempos favoritos é procurar textos críticos sobre arte, para depois espinafrá-los e defenestrá-los. Como sou um bom menino, desisto na maioria das vezes de tornar públicas minhas críticas, não por não serem reais, mas porque não quero criar caso com ninguém, muitos menos criar imagens desfavoráveis de pessoas que não conheço. Mas as vezes é complicado… por isso, vou tentar, de forma geral, sem apontar o dedo, e sem parecer um comunista espumando de raiva (o que vai provavelmente acontecer lá pro fim do post), falar de algo que me causa um incômodo terrível.

Se você já foi a uma exposição, leu um catálogo, um blog ou algo que fale de arte (arte com “A maiúsculo”, erudita, burguesa, “história da arte” etc et al), certamente já leu algo assim: A obra x discute a questão do urbano na vida sexual dos artrópodes chilenos…

Ácaros andinos à parte, eu gostaria de perguntar: como é que uma obra pode discutir alguma coisa? Até onde eu sei, pessoas discutem sobre coisas. Obras de arte não possuem opiniões, pontos de vista, interpretações de fatos ou conceitos. Você pode dizer que estou sendo literal e chato, então vou tentar mostrar o perigo de morte cerebral que existe por trás da afirmação a obra discute, analisando o que encontramos comumente em textos críticos sobre arte contemporânea:

  1. Descrições sobre os aspectos físicos da obra em questão, ou seja, o autor descreve aspectos formais como cor, volume, dimensões, traço, material. Esse tipo de texto é potencialmente maçante, a não ser que você esteja realmente interessado nos aspectos formais de determinada obra, ou seja, provavelmente você é um artista tentando fazer algo parecidinho (releitura, interrogação) ou juntando repertório pra fazer algo original mais pra frente.
  2. Exaltações ao artista. Nunca mais li um texto crítico, e de repente estamos cercados de gênios. Em alguns casos, fica quase evidente que o crítico é amigo íntimo do artista e está precisando de algum favor.
  3. Conceitos antigos sendo apresentados como novidades. O que eu simplesmente não aguento mais são os “deslocamentos de objetos do cotidiano para o contexto artístico”. Céus, a prática do ready-made é uma senhora de quase cem anos, então não escreva sobre seu artista favorito que desentulhou o porão numa galeria de arte como se fosse o novo gênio da invenção artística. (Esta reclamação já foi feita de modo poético no Manifesto Inexpressionista).
  4. A combinação dos três itens anteriores desemboca no temido a obra discute. Alternando extensas descrições sobre o objeto em questão, com elogios ao artista e sua obra anterior, mesclados com práticas inovadoras e originais, chega-se à discussão da obra, isto é, o crítico agora desfilará verdades tentando chegar ao famoso “o que o artista quis dizer com isso”. Essa mensagem muitas vezes é interpretada pelos incautos como uma verdade vinda de uma autoridade no assunto, infelizmente.

Intimamente associada à discussão das obras de arte está a questão da mediação, muito em voga ultimamente. O discurso crítico ultimamente tem se prestado a esse serviço desprezível: deglutir e entregar ao grande público obras de arte numa bandeja, menosprezando as interpretações e novas leituras que poderiam advir desse mesmo público. Passe um dia num centro cultural ou museu, e fique próximo aos monitores que estão explicando obras, e certamente ouvirá algumas atrocidades. Eu tive a oportunidade de presenciar um caso pavoroso na Pinacoteca de São Paulo.

Uma turma de adolescentes está sentada ao redor do Porco Empalhado de Nelson Leirner (um ótimo trabalho, por sinal). O monitor já sai logo de cara com essa: e aí pessoal, esse porco aqui é uma pintura ou uma escultura? Pintura ou escultura. Parem as máquinas, exclamação. E nem queiram saber o que veio depois. Vocês querem mesmo discutir obras de arte? Para isso, terão que jogar suas impressões sensoriais no lixo e entrar num mundo de conceitos, que, ao meu ver, nasceram elitistas e poderiam muito bem morrer do mesmo modo, sem essa hipocrisia de mediação para as massas. E tira a mão de mim.

post scriptum 1: não é meu desejo ficar apontando dedo pra ninguém, como escrevi no início, MAS para ilustrar bem o que são textos que combinam os 4 itens aqui expostos separei dois links, este e aquele.

post scriptum 2: escrevi esse post no estilo dos caras do único blog de futebol que eu leio, exclamação.

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Não seja um artista prego

Olá senhor artista. Eu venho escrever aqui, impessoalmente, para você, porque cansei de ouvir outros senhores artistas dizerem coisas do tipo “não ligo muito para a Internet, nem sei usar o computador direito, nunca gostei, não sou muito disso, não entendo nada”. Venho lhe dar um importante recado, que é muito simples, porém composto de várias partes diferentes. Mas se você é mesmo um artista, isso não será problema para você.

Aprenda a usar um computador. Depois, aprenda a usar a Internet. Use a Internet. Digitalize seu trabalho – isso mesmo, coloque tudo o que você fez na Internet. Você estará dando às pessoas a oportunidade de conhecer um pouco mais a fundo o que você faz.  Use a Internet também para conhecer o trabalho de outros artistas que, para a sua sorte e a do resto do mundo, digitalizaram suas obras.

E é claro, aprenda inglês, para não ficar restrito a algo como 2% do que é produzido na rede telemática – mas eu nem precisava ter escrito isso.

Aí eu não vou ter que ficar queimando internamente toda vez que eu te ver dizendo arrogantemente que a Internet não serve para você, seu cuzão! senhor artista, enquanto fala pela milésima vez daquele quadro que tem na casa da sua mãe e eu nunca vi na minha vida.

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