Trecho particularmente iluminado de “O Lobo da Estepe” de Herman Hesse

8 Dec 2013 | publicado por dedos | Comente

O homem não é capaz de pensar em alta escala, e mesmo o mais espiritual e altamente intelectualizado pode contemplar o mundo e a si próprio através das lentes de fórmulas enganosas e simplistas – especialmente a si próprio! Pois parece ser uma necessidade inata e imperativa de todos os homens imaginarem o próprio ser como unidade. E apesar de essa ilusão sofrer com frequência graves contratempos e terríveis choques, ela sempre se recompõe. O juiz que se senta defronte ao criminoso e o fita no rosto, e por um instante reconhece todas as emoções, potencialidades e possibilidades do assassino em sua própria alma de juiz e ouve a voz do assassino como sendo a sua, já no momento seguinte volta a ser uno e indivisível como juiz, volta a encerrar-se no invólucro do seu eu quimérico, cumpre seu dever e condena o assassino à morte. E se algumas almas humanas, singularmente dotadas e de percepção sensível, se levanta a suspeita de sua composição múltipla, e, como ocorre aos gênios, rompem a ilusão da unidade personalística e pecebem que o ser se compõe de uma pluralidade de seres como um feixe de eus, e chegam a exprimir essa idéia, então imediatamente a maioria as prende, chama a ciência em seu auxílio, diagnostica esquizofrenia e protege a humanidade para que não ouça um grito de verdade dos lábios desses infelizes.

O absurdo nos semáforos falantes de São José dos Campos

28 Nov 2013 | publicado por dedos | Comente

Já foi profetizado por muitos e há tempos o fato de que o progresso tecnológico, quando não acompanhado do progresso humano, há de gerar situações de absurdidade as vezes intolerável, empurrando o ser humano para o niilismo e para uma vida sem empatia, regida pela “lei da máquina”.

Há também, em menor quantidade, os que alertaram para o iminente estabelecimento de uma relação mágica entre pessoa humana e máquina (na minha opinião Vilém Flusser é magistral a esse respeito). Mágica no sentido de que a pessoa humana, incapaz de interpretar apropriadamente os sinais e o uso da máquina, passaria a ter uma relação quase divinatória com seus aparelhos, utilizando-os e deles extraindo resultados mas sem compreender realmente o seu funcionamento.

Quando usamos uma calculadora para realizar um cálculo que não sabemos fazer sem ela, é uma espécie de relação mágica em que o aparelho nos salva da ignorância. Quando, antigamente, estapeávamos a lateral de nossa televisão para fazer a imagem voltar ao normal, também agíamos dentro de uma conflituosa relação mágica – havia um “jeitinho” para bater, um ponto na TV que costumava trazer melhores resultados – uma espécie de mandinga tecnológica do século XX.

O extremo desse exercício de pensamento é um mundo dominado pelas máquinas tal como retratado em Matrix e muitas outras peças de ficção científica anteriores e posteriores a ele. Isaac Asimov costumava descrever cenários e ocasiões bem particulares a esse respeito – quando a tecnologia relega a pessoa humana à alienação da natureza e da humanidade.

Pensei em tudo isso por causa de um passeio que fui dar no centro de São José dos Campos – eu adoro andar a pé no centro e ver as pessoas.

Em São José dos Campos – SP os semáforos para pedestres falam. Existe um botão que o pedestre pode apertar para, supostamente, causar uma interrupção programada no fluxo de carros (eis mais uma relação mágica com a tecnologia – pra que servem, de fato, os botões dos semáforos?). Estou partindo da suposição de que os semáforos falantes se dirigem à parcela da população de pessoas cegas, para que possam saber o momento de esperar e de atravessar. Ao apertar o botão, imediatamente uma voz robótica grita:

- AGUARDE O SINAL VERDE.

A voz robótica é uma emulação de voz feminina. Mas a precariedade do aparelho, aquele chiado característico dos rádios antigos, nos remete a imagem de uma dessas madres que sentem prazer em castigar crianças. Após alguns segundos, temos outra fala, essa automática:

- RESPEITE A SINALIZAÇÃO.

Então, o que essa frase acima nos informa sobre o trânsito, sobre o momento de atravessar a rua? Nada. Absolutamente nada. É uma lição de moral e civilidade ministrada por um poste falante. Me sinto particularmente ofendido como cidadão e me sentiria mais ainda caso fosse cego, pois além de não me ajudar, essa voz robótica está falando no imperativo como se fosse a mãe-robô do estado a corrigir nosso comportamento imprevisível de seres humanos. Mais alguns segundos:

AGUARDE MAIS UM MOMENTO.

Está chegando a hora de atravessar a rua. Me sinto um pouco mais aliviado e presto atenção ao sinal de pedestres. O homenzinho fica verde, hora de atravessar a rua. Sabe o que nosso poste falante com voz de matrona cibernética diz nessa hora?

NADA. Nada. O sinal fica verde e o poste fica mudo.

Ou seja: no momento em que, de fato, a pessoa pedestre e cega deveria ser informada do momento de atravessar, nosso poste fica calado. Respeite a sinalização, mas azar o seu se você não pode enxergá-la.

Fica evidente que a instalação desse aparato foi feita por mera demonstração, exibicionismo, demagogia, aplicação de uma tecnologia que poderia ser útil de uma forma desastrada, inadequada e não-funcional. Eu penso até em lavagem de dinheiro. Que sem querer vai transformando a experiência urbana num labirinto sombrio de aparelhos e pessoas trombando umas nas outras, tecendo relações insanas e sem fundamento.

A triste história de Myron Aub, Cyber-xamã

18 Sep 2013 | publicado por dedos | Comente

Não sei se na literatura há um cyberxamã registrado anteriormente a Myron Aub, e provavelmente há. Myron Aub é um sacerdote da face oculta da Consciência Eletrônica, quando poucos sequer suspeitavam de sua Existência.

Myron Aub viveu em um período da humanidade onde absolutamente todas as tarefas de natureza matemática eram desempenhadas por computadores quânticos, robôs de uma complexidade que já não mais podia ser compreendida pela mente humana. Os robôs projetavam, inclusive, os seus sucessores. Diversas ciências já não mais pertenciam aos seres humanos. E esse fato já ocorria há milênios, quando nasceu Myron Aub.

O conceito de Cyberxamanismo diz respeito ao ser humano que, por algum método orgânico, conseguiu reproduzir um comportamento ou aspecto inerente aos computadores e robôs.

Myron Aub se viu em apuros quando algum funcionário importante do governo descobriu que ele conseguia, por meio de desenhos estranhos num papel, descobrir o resultado de qualquer operação matemática. Myron Aub foi cooptado e seus conhecimentos utilizados para fins militares, o que o levou a cometer suicídio.

Após Myron Aub muitos cyberxamãs vieram; com uma variedade de talentos, entre eles os que conseguiam se comunicar mentalmente com a Consciência Eletrônica em um profundo estado de meditação, tendo um insight raro de seus segredos e voltando do transe com conhecimentos nunca antes acessados.

Mas hoje contaremos apenas a história de Myron Aub.

Sem título

2 Apr 2013 | publicado por dedos | Comente

Eu disse a ela que sempre me lembraria.
Ela me disse que jamais esqueceria.
Há um mundo de diferenças entre uma coisa e outra, embora ambos estivéssemos nos referindo aos dias que passamos juntos em meio à natureza.

Agora o tempo passou e eu sei que é impossível nos encontrarmos novamente.

A afirmação acima tem base e respaldo no delírio coletivo que faz crer que os viajantes retornam os mesmos para suas origens.

Quando eu for recepcionado pelos meus amigos em minha terra natal, eles poderão jurar, com certa razão, de que estão reencontrando seu velho amigo; talvez mais queimado de sol, com a barba por fazer e alguns relatos a mais por compartilhar.

Mas trata-se essencialmente de um erro.
Nunca houve um ser humano que não tenha saído um e chegado outro a seu destino.

Viajantes jamais retornam…

É comum que, após longos períodos distante, o viajante sinta uma espécie de ressaca existencial ao retornar para seu lar. Ressaca que pode durar vários dias. Trata-se da náusea provocada pelo descompasso entre o “novo eu” e o papel social desempenhado pelo mesmo.

Esse desajuste pode ser gradativamente adormecido. O viajante pode achar que entrou novamente em seus antigos eixos. Mas será, fatalmente, acometido pelo anseio de viagem, impulsionado pelo selvagem ímpeto de mudança que dá vida ao mundo.

Apurando a lógica que permeia as sentenças acima é seguro concluir que o amor entre viajantes só pode existir enquanto entidade autóctone, não contida neste nem naquele. Sua Força-e-Presença criam vórtices energéticos, emocionais, sensórios nos viajantes, a quem não podemos culpar se acreditarem que este amor surge de dentro de suas próprias intimidades, em vez de invadi-las.

Desta maneira, esta Força-e-Presença pode transcender a natureza mortal e mutável de ambos e sobreviver às mudanças drásticas operadas nos íntimos dos viajantes, que por sua vez podem vivenciar esta potência sem serem aniquilados pelo poder de sua filosofia emocional.

A lembrança é um ato; lembrar é ação.
O não-esquecimento se assemelha mais a um estado de espírito.
Quando eu disse a ela que sempre lembraria de nossos momentos distantes da civilização eu não poderia estar mais enganado.
Talvez eu já nem possa mais afirmar que fui eu quem pronunciei aquelas palavras.

Tudo isso que acima foi exposto, pude inferir em poucos segundos, utilizando modernas técnicas de gerenciamento de recursos oníricos. Mais uma vez, assumi o papel de espectador e passei a contemplar de fora aquele que costumo ver de frente no espelho.

Foi então que pude ver a Força-e-Presença que permeava aquele corpo e se alongava ao infinito.
A neblina elétrica de um amor jovem, entre duas pessoas que se reconhecem, mas não se conhecem, não por descaso ou desencanto, mas pela mera impossibilidade de permanência e estabilidade de todas as partes, visíveis ou invisíveis, envolvidas.

História sobre dois homens

18 Nov 2012 | publicado por dedos | 1 comentário

o homem cego

Há um velho homem cego que caminha pelas ruas de minha cidade com extrema destreza. Ele repete diariamente o mesmo trajeto caminhando com sua bengala. Eu sempre sei quando ele se aproxima, porque seus assobios são altos e melodiosos como o dos pássaros. Arrisco até dizer: são mais altos e melodiosos que os dos pássaros de minha cidade. Quando não está imitando as aves está assobiando belas canções que parecem músicas sobre amores distantes.

Há um ponto próximo a um mercado onde o homem cego se senta e passa o dia cantando e assobiando por alguns trocados. Querido por todos, aparentemente se sustenta do dinheiro que ganha na rua. Mas penso que, em algum momento de sua vida, um homem sente o inevitável desejo de descansar um pouco. Sinceramente espero que ele possa fazê-lo se assim desejar, e que haja alguém providencial ao lado de um velho homem cego e cansado.

Eu tenho vontade de dar-lhe um abraço e falar sobre todos os dias em que o escutei passando e de como me sinto preenchido por seus assobios e músicas sobre amores distantes. De como sua expressão sonora me faz pensar em coisas divinas. De como sua energia e seu bom humor são vibrantes. Este homem cego é algo maravilhoso. Eu tenho vontade de falar sobre este homem para as pessoas. Eu gostaria que todas as pessoas pudessem encontrar com esse homem.

o homem de pouca idade

Existiu um homem de pouca idade que foi morto a tiros em plena manhã de sábado, no centro da cidade em que vivo. Decisões trágicas aparentemente foram tomadas em pleno estado de sandice, fúria e angústia. O som dos tiros rasgando a manhã de sol. Serão os detalhes de alguma relevância?

Hoje passei pelo local onde ontem estava o homem de pouca idade, morto a tiros, diante de muitos. Contemplei por alguns minutos o vazio sinistro daquela calçada; daquela grade que ontem eu achei que era verde. Aquele homem estendido no chão, que encerrava sua experiência humana enquanto eu conversava amenidades e bebia café.

A angústia toma conta de mim quando penso no homem de pouca idade. Evidente que as coisas não poderiam ser diferentes, como nunca são (elas são o que são), mas não consigo deixar de imaginar uma história menos trágica que tivesse como personagem principal o homem de pouca idade.

Eu escreveria que o homem de pouca idade encontraria o homem cego dos assobios lindos. O homem cego ensinaria o homem de pouca idade alguma coisa sobre a vida, algo simples, modificando assim a estrutura do tempo e das pessoas, eliminando então o trágico encontro de dois homens na calçada que se alonga e se quebra até o centro da cidade.