Em situações de dificuldade ou crise, alguns indivíduos ficam mais expostos do que outros, e durante a exaltação causada por situações extremas, deixam transparecer alguns problemas graves em enfrentar problemas e viver com tranquilidade.
A questão dos direitos autorais, Internet, compartilhamento de arquivos e pirataria andou mexendo com os nervos de pessoas do setor cultural-industrial. Em uma reportagem de jornal, que já citei em um post, e também durante o documentário Good Copy Bad Copy, algumas declarações saltaram-me aos olhos e ouvidos. Vamos a elas:
O tribunal decidiu que é ilegal retirar qualquer pedaço de uma gravação [sonora]. Eles também disseram que não é criativo. – Jane Peterer, da produtora Bridgeport Music
As pessoas não vão fazer nada de graça. É simplesmente contra a natureza humana pintar uma tela ou fazer uma estátua e simplesmente dá-la embora. Deve haver algumas pessoas assim, mas elas provavelmente não comem muito bem. – Dan Glickman, precidente da MPAA (Associação dos Estúdios de Cinema dos EUA)
Minha posição é que somos facilmente seduzidos, corrompidos e desencaminhados. Em outras palavras, precisamos de regras e regulamentos para ajudar a controlar nossos comportamento online, assim como precisamos de leis de trânsito para regular o modo como dirigimos a fim de proteger a todos contra acidentes. Por vezes são necessárias normas governamentais para nos proteger contra nossos piores instintos e comportamentos mais autodestrutivos. O fato é que uma regulamentação modesta da Internet funciona. (…) Eu afirmaria que a regulamentação é urgentemente necessária, sobretudo para proteger nossas crianças contra predadores sexuais e pornografia nas redes sociais, como MySpace. – Andrew Keen, autor do livro “O Culto do Amador”
Ao que me parece, as pessoas citadas confiaram boa parcela de sua vida, além de todo seu discernimento, aos juízes que elaboraram as inteligentíssimas leis de direitos autorais que estão atuando contra sites como o Pirate Bay e outros distribuidores de dados.
São leis que protegem o suporte (CDs, DVDs, livros) em vez da informação contida no suporte (música, vídeo, texto). Isso pode ser traduzido como: protegem a indústria cultural dependente do comércio de objetos. E os interessados em proteger essas leis são essas pessoas que já confiaram seus “piores instintos” ao governo, que acham que os juízes devem estabelecer o que é “criativo”, esses sábios conhecedores da “natureza humana”.
Estes são tempos desafiadores para a Internet e seus usuários; as grandes indústrias de entretenimento e governos pretendem moldar a Internet como a nova televisão, um espaço não-interativo, onde receberemos informação filtrada e limitada pela ignorância dos que insistem em declarar guerra à população (chamando-nos de piratas). Provavelmente a Internet como conhecemos estará profundamente modificada em poucos anos, resta saber o que vai se salvar da ação estilo rolo compressor dos vendedores de “cultura” mundo afora.