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2 Apr 2013 | publicado por dedos | Comente

Eu disse a ela que sempre me lembraria.
Ela me disse que jamais esqueceria.
Há um mundo de diferenças entre uma coisa e outra, embora ambos estivéssemos nos referindo aos dias que passamos juntos em meio à natureza.

Agora o tempo passou e eu sei que é impossível nos encontrarmos novamente.

A afirmação acima tem base e respaldo no delírio coletivo que faz crer que os viajantes retornam os mesmos para suas origens.

Quando eu for recepcionado pelos meus amigos em minha terra natal, eles poderão jurar, com certa razão, de que estão reencontrando seu velho amigo; talvez mais queimado de sol, com a barba por fazer e alguns relatos a mais por compartilhar.

Mas trata-se essencialmente de um erro.
Nunca houve um ser humano que não tenha saído um e chegado outro a seu destino.

Viajantes jamais retornam…

É comum que, após longos períodos distante, o viajante sinta uma espécie de ressaca existencial ao retornar para seu lar. Ressaca que pode durar vários dias. Trata-se da náusea provocada pelo descompasso entre o “novo eu” e o papel social desempenhado pelo mesmo.

Esse desajuste pode ser gradativamente adormecido. O viajante pode achar que entrou novamente em seus antigos eixos. Mas será, fatalmente, acometido pelo anseio de viagem, impulsionado pelo selvagem ímpeto de mudança que dá vida ao mundo.

Apurando a lógica que permeia as sentenças acima é seguro concluir que o amor entre viajantes só pode existir enquanto entidade autóctone, não contida neste nem naquele. Sua Força-e-Presença criam vórtices energéticos, emocionais, sensórios nos viajantes, a quem não podemos culpar se acreditarem que este amor surge de dentro de suas próprias intimidades, em vez de invadi-las.

Desta maneira, esta Força-e-Presença pode transcender a natureza mortal e mutável de ambos e sobreviver às mudanças drásticas operadas nos íntimos dos viajantes, que por sua vez podem vivenciar esta potência sem serem aniquilados pelo poder de sua filosofia emocional.

A lembrança é um ato; lembrar é ação.
O não-esquecimento se assemelha mais a um estado de espírito.
Quando eu disse a ela que sempre lembraria de nossos momentos distantes da civilização eu não poderia estar mais enganado.
Talvez eu já nem possa mais afirmar que fui eu quem pronunciei aquelas palavras.

Tudo isso que acima foi exposto, pude inferir em poucos segundos, utilizando modernas técnicas de gerenciamento de recursos oníricos. Mais uma vez, assumi o papel de espectador e passei a contemplar de fora aquele que costumo ver de frente no espelho.

Foi então que pude ver a Força-e-Presença que permeava aquele corpo e se alongava ao infinito.
A neblina elétrica de um amor jovem, entre duas pessoas que se reconhecem, mas não se conhecem, não por descaso ou desencanto, mas pela mera impossibilidade de permanência e estabilidade de todas as partes, visíveis ou invisíveis, envolvidas.

História sobre dois homens

18 Nov 2012 | publicado por dedos | 1 comentário

o homem cego

Há um velho homem cego que caminha pelas ruas de minha cidade com extrema destreza. Ele repete diariamente o mesmo trajeto caminhando com sua bengala. Eu sempre sei quando ele se aproxima, porque seus assobios são altos e melodiosos como o dos pássaros. Arrisco até dizer: são mais altos e melodiosos que os dos pássaros de minha cidade. Quando não está imitando as aves está assobiando belas canções que parecem músicas sobre amores distantes.

Há um ponto próximo a um mercado onde o homem cego se senta e passa o dia cantando e assobiando por alguns trocados. Querido por todos, aparentemente se sustenta do dinheiro que ganha na rua. Mas penso que, em algum momento de sua vida, um homem sente o inevitável desejo de descansar um pouco. Sinceramente espero que ele possa fazê-lo se assim desejar, e que haja alguém providencial ao lado de um velho homem cego e cansado.

Eu tenho vontade de dar-lhe um abraço e falar sobre todos os dias em que o escutei passando e de como me sinto preenchido por seus assobios e músicas sobre amores distantes. De como sua expressão sonora me faz pensar em coisas divinas. De como sua energia e seu bom humor são vibrantes. Este homem cego é algo maravilhoso. Eu tenho vontade de falar sobre este homem para as pessoas. Eu gostaria que todas as pessoas pudessem encontrar com esse homem.

o homem de pouca idade

Existiu um homem de pouca idade que foi morto a tiros em plena manhã de sábado, no centro da cidade em que vivo. Decisões trágicas aparentemente foram tomadas em pleno estado de sandice, fúria e angústia. O som dos tiros rasgando a manhã de sol. Serão os detalhes de alguma relevância?

Hoje passei pelo local onde ontem estava o homem de pouca idade, morto a tiros, diante de muitos. Contemplei por alguns minutos o vazio sinistro daquela calçada; daquela grade que ontem eu achei que era verde. Aquele homem estendido no chão, que encerrava sua experiência humana enquanto eu conversava amenidades e bebia café.

A angústia toma conta de mim quando penso no homem de pouca idade. Evidente que as coisas não poderiam ser diferentes, como nunca são (elas são o que são), mas não consigo deixar de imaginar uma história menos trágica que tivesse como personagem principal o homem de pouca idade.

Eu escreveria que o homem de pouca idade encontraria o homem cego dos assobios lindos. O homem cego ensinaria o homem de pouca idade alguma coisa sobre a vida, algo simples, modificando assim a estrutura do tempo e das pessoas, eliminando então o trágico encontro de dois homens na calçada que se alonga e se quebra até o centro da cidade.

Nove auto-retratos

7 Aug 2012 | publicado por dedos | Comente
  • um periscópio explora o alto mar, percebe as ondas, contempla o céu e os elementos que flutuam acima da superfície. abaixo dele, não há submarino.
  • um crocodilo macho, ao ver o rebentar dos ovos de suas crias, corre para devorá-las. a mãe esconde o que consegue em sua boca enquanto o pai devora os desfavorecidos. não há nenhum tipo de lamento, em nenhuma das partes envolvidas.
  • um homem pousa seu olhar sobre uma cena e organiza o caos. a cena se desfaz em caos quando o homem passa à próxima cena. essa cena se repete e existe sem a possibilidade de questionamentos acerca de sua origem ou especulações sobre o seu fim.
  • um menino sai de seu quarto e abandona uma pilha de papéis em sua mesa, em frente à janela aberta. quando retorna os papéis estão espalhados pelo quarto. o menino resiste à tentação de atribuir a responsabilidade ao vento.
  • uma cena de despedida se desenrola em uma rodoviária enquanto o universo explode. é importantíssimo não olhar para trás, porém não se pode exigir que um homem não se ampare no fugaz conforto da memória – ao menos durante a sua passagem mundana -  sob o risco de ser desfigurado de forma abrupta.
  • um homem sonha constantemente que é carregado por ondas gigantes, sendo arremessado ao longe pelas cristas enfurecidas do mar. ao acordar recorda-se dos vôos desordenados que o mar lhe proporcionou, mas esquece-se de que nadou tranquilamente por debaixo das ondas na maior parte do tempo.
  • um filhote de pássaro cai de seu ninho, perdendo a visão panorâmica da copa das árvores e a tutela do vôo. em poucos instantes é incapaz de compreender que um dia viveu nas alturas, acreditando que deve batalhar firmemente contra a altura e concretude excessiva do mundo que o rodeia.
  • um homem viaja o mundo e seu deslumbramento é arrebatador. sonha intensamente todas as noites, sorri com facilidade, não observa o relógio em hipótese alguma. sua câmera fotográfica, recém adquirida, não foi removida de sua mochila uma vez sequer.
  • um menino e seu cão brincam de maneira furiosa. ambos sangram e se esfacelam no solo. ao fim da tarde, não compartilham a mesma tigela de água mas a tranquilidade que os acompanha no sono tem a mesma natureza.
  • dois amantes entrelaçados sucumbem ao abismo. um homem que sonha testemunha a queda de ambos, desencadeando uma percepção aguda, sobre a qual jamais meditará novamente, tamanho é o medo de que sua percepção de si próprio perca a consistência irreparavelmente.

Garganta obstruída por estrelas

19 Jun 2012 | publicado por dedos | Comente

Existem momentos em que um ser vivo é determinado a agir para garantir a sua sobrevivência, isso é fato conhecido com a mente e o corpo pelos seres humanos mas somente pelo corpo pelos animais.

Desse modo o ser humano tem uma vulnerabilidade que o animal não possui, em troca de faculdades mentais que o animal está longe de ter. O ser humano entende a si mesmo como uma unidade que evolui com o tempo e possui um passado pelo qual responde e é constituído. Mas o entendimento de si mesmo como um resultado da natureza, uma unidade cuja mente é moldada pelos mesmos princípios que sua própria natureza física muitas vezes lhe escapa ao largo.

(Há quem diga que o chamado da natureza não morreu completamente no ser humano.)

Diz-se haver pessoas que ouvem o chamado e então se desprendem de seu passado como uma cigarra troca de pele, porém não deixando sua carcaça em forma de memórias na mente de outros. Quando se transformam – e essa transformação pode ser sutil, algo como uma mudança de hábito, uma declaração surpreendente, uma atitude considerada imperdoável – muitas vezes deixam de ser reconhecidos e muitas vezes são abandonados pelos seus pares.

A transformação que sofri não me permite interpretar o passado como algo factível que realmente aconteceu; memórias são como matrizes de sentimentos múltiplos, oscilantes – mas jamais fatos consumados. Isto é sentido por meu corpo como a ansiedade de um viajante que parte para seu próximo destino.

Retrato mental número 37

19 Jun 2012 | publicado por dedos | Comente

um cesto utilizado para estocar roupas destinadas à máquina está vazio e encimado por uma pilha de roupas sujas

objetos que há meses repousam em determinados lugares como que por decreto, completamente vazios de sentido

(eu sou veementemente contra o uso da sentença “ou não” no final das frases mas você entendeu)