Categories for sonhos e inconsciente

Nove auto-retratos

7 Aug 2012 | publicado por dedos | Comente
  • um periscópio explora o alto mar, percebe as ondas, contempla o céu e os elementos que flutuam acima da superfície. abaixo dele, não há submarino.
  • um crocodilo macho, ao ver o rebentar dos ovos de suas crias, corre para devorá-las. a mãe esconde o que consegue em sua boca enquanto o pai devora os desfavorecidos. não há nenhum tipo de lamento, em nenhuma das partes envolvidas.
  • um homem pousa seu olhar sobre uma cena e organiza o caos. a cena se desfaz em caos quando o homem passa à próxima cena. essa cena se repete e existe sem a possibilidade de questionamentos acerca de sua origem ou especulações sobre o seu fim.
  • um menino sai de seu quarto e abandona uma pilha de papéis em sua mesa, em frente à janela aberta. quando retorna os papéis estão espalhados pelo quarto. o menino resiste à tentação de atribuir a responsabilidade ao vento.
  • uma cena de despedida se desenrola em uma rodoviária enquanto o universo explode. é importantíssimo não olhar para trás, porém não se pode exigir que um homem não se ampare no fugaz conforto da memória – ao menos durante a sua passagem mundana -  sob o risco de ser desfigurado de forma abrupta.
  • um homem sonha constantemente que é carregado por ondas gigantes, sendo arremessado ao longe pelas cristas enfurecidas do mar. ao acordar recorda-se dos vôos desordenados que o mar lhe proporcionou, mas esquece-se de que nadou tranquilamente por debaixo das ondas na maior parte do tempo.
  • um filhote de pássaro cai de seu ninho, perdendo a visão panorâmica da copa das árvores e a tutela do vôo. em poucos instantes é incapaz de compreender que um dia viveu nas alturas, acreditando que deve batalhar firmemente contra a altura e concretude excessiva do mundo que o rodeia.
  • um homem viaja o mundo e seu deslumbramento é arrebatador. sonha intensamente todas as noites, sorri com facilidade, não observa o relógio em hipótese alguma. sua câmera fotográfica, recém adquirida, não foi removida de sua mochila uma vez sequer.
  • um menino e seu cão brincam de maneira furiosa. ambos sangram e se esfacelam no solo. ao fim da tarde, não compartilham a mesma tigela de água mas a tranquilidade que os acompanha no sono tem a mesma natureza.
  • dois amantes entrelaçados sucumbem ao abismo. um homem que sonha testemunha a queda de ambos, desencadeando uma percepção aguda, sobre a qual jamais meditará novamente, tamanho é o medo de que sua percepção de si próprio perca a consistência irreparavelmente.

Sobre espíritos e girinos

31 Jul 2012 | publicado por dedos | Comente

Também o Espírito floresceu na natureza à maneira dos sapos e girinos.

O Espírito Humana é como o girino que acabou de ganhar membros, mas ainda age e vive como peixe: inevitavelmente irá transcender a sua condição, porém antes pelo empuxo da natureza do que pelo resultado de seus próprios esforços.

  • a libertação é inevitável
  • mutatis mudandis

Duas breves notas sobre a impermanência

24 Jul 2012 | publicado por dedos | 1 comentário
  • estou pronto para partir deste mundo, a qualquer momento. a preparação não foi longa, não foi premeditada, não foi sequer realizada. como um choque súbito percebi que estou no mesmo dia do meu nascimento desde sempre e que não há possibilidade de conclusão de nenhuma das minhas arquiteturas mentais, planejamentos e aspirações para o futuro. os produtos de meus atos se encontram no mesmo estado que eu, completos desde o início.
  • da última vez que me despedi de uma pessoa viajante, percebi claramente que não voltaria a vê-la, mesmo que ela retornasse e nos encontrássemos – por não se tratar mais da mesma pessoa. nunca um viajante de fato volta o mesmo.
  • as duas notas acima possuem ligação íntima entre si.

 

Carta ao ser humana

17 Jul 2012 | publicado por dedos | 1 comentário
  • O peixe que pede desculpas ao pescador por não ter mordido a isca
  • Uma cena comum se desenrola na vizinhança. Um milhão de anos não seriam suficientes para que algum dos observadores percebesse que é o próprio mundo que renasce perante a seus olhos.
  • Uma senhora velha lamenta em silêncio o excesso de pudor que ostentou com certo orgulho durante toda a sua vida. Contemplando a devassidão que dominava seus pensamentos, todos os seus esforços de preservação de uma suposta pureza lhe pareciam uma grande tolice, de maneira que seu cotidiano se tornou uma constante batalha de auto-convencimento do contrário, de que uma vida árida poderia ser de utilidade para os desígnios divinos.
  • O viajante que põe a si próprio, voluntariamente, em situações em que o seu nível de atenção seja desafiado constantemente, costuma receber recompensas divinas em forma de sorte. Pois este viajante contribui diretamente para o Espírito do Homem, com suas experiências e conquistas que enriquecem o manancial coletivo do qual bebem as consciências humanas em suas trajetórias. A sorte ou Fortuna atrai e recompensa esses viajantes das mais diversas maneiras, para que o aspecto errante e aventureiro do ser humano mantenha-se entretido e engajado na prospecção de novas ideias e atos.
  • Não duvide que o ser humano será capaz de reescrever estes parágrafos sobre a água.
  • (imagem: um centauro e sua lança contemplam um pasto)
  • Tente encarar uma mosca nos olhos e contemple o vazio
  • Certas frases são arruinadas por um ponto final.
  • Escrever: desenrolar imagens. (ecos de Flusser) – Há um ato em que imagens são reveladas a um ou mais seres humanos, em suas mentes, como que aparecendo por acaso.
    Tive uma ideia.
    Olhei para a Lua e lembrei de ti.
    São reações comuns. Mas há o ato da escrita que também pode se desdobrar de imagens vindas de sentimentos – eventualmente a escrita flui diretamente do sentimento e a etapa das imagens é prescindida.
    Da escrita do sentimento muitas vezes resultam cartas de amor como esta.
  • Noites tórridas a quatro paredes que rasgam o amanhecer, ao qual sucumbem os amantes. Esse tipo de situação evidencia a frágil consistência do tempo, que se alonga veloz nos atos e se compacta em memória.
  • A estrada como caminho, a estrada como barreira: são ideias que produzem sentidos diversos, mas sequer tocam a experiência de viver a estrada em suas distâncias subjetivas, não-físicas.
  • Sentei-me de frente ao mar durante o pôr-do-sol, em uma praia onde não se via outro ser humano além de mim mesmo. Desfoquei minha vista e observando em visão periférica, deixe-me envolver pelo som e pelas cores do céu e do mar, sem prestar atenção em nenhum ponto específico, mas captando com muita vivacidade os movimentos e luzes.
    O céu me parecia ter três vezes mais estrelas. Tive a sensação do barulho do mar estar saindo de dentro de mim, e não vindo a meu encontro.
    Em algum ponto mais ou menos ao centro de meu campo de visão um estranho aglomerado de luzes se formava; mas quando eu fixava minha visão, as luzes desapareciam. No entanto, quando eu retomava a visão periférica, o espetáculo recomeçava.
    Me contentei em apreciar e relatar, sem tentar entender.
  • Tua presença é um acidente no vazio. Fico tentando focar em um ponto visível e suspenso no ar entre mim e você.
  • Henry Thoreau jamais conheceu um homem que conhecesse a arte de caminhar. E jamais poderia conhecê-lo, tamanha é a particularidade do estado de espírito do caminhante.
  • Há certas mulheres capazes de incendiar a chama criativa de um homem. Antes regular, normal em suas atividades, o homem sob influência inspiradora de uma mulher pensa nela e tratados poéticos lhe afloram à mente; em sua presença é tomado de surpresa por centenas de imagens que flutuam à sua mente; quando em seus braços, sente que pode reinventar o próprio ato criativo.
  • Para o homem sem laços trata-se de uma determinada quantia de metros a serem percorridos. Já o homem envolvido deve trilhar o difícil caminho do sentimento, a cada passo. Uma vida inteira pode não ser tempo suficiente para se chegar a uma cidade vizinha, sob estas circunstâncias.
  • Uma criança fecha os olhos e se esforça para imaginar o que aconteceria a si depois da morte. Ao ser tomada por imagens de um novo nascimento, abre os olhos, sorri e não toca mais no assunto por longos anos.
  • Quando percebi o florescer de novos desígnios em meu espírito, procurei um ponto conhecido para me firmar internamente. Na mesma noite sonhei com Mársias sendo esfolado a pedido de Pan, e meu espírito, em sonho, me indicava os procedimentos de remoção da estaca que firmei no dia anterior.
  • Para o ser humano que diz sim eventualmente se abrem portas de natureza estranha à sua realidade desperta, sendo uma das maiores honrarias partilhar das festas dos faunos e sátiros. Este ato é sentido pelo corpo como grande calor interno e elevação do estado de ânimo e atenção.
  • Há sentenças, atos e frases com mais de doze sentidos e interpretações possíveis. Também há os desprovidos de qualquer possibilidade de compreensão racional. Se alguma luz vem nesse sentido, ela vem com o afastamento contemplativo. O que acabo de escrever não é real.
  • Sonhei com uma pessoa me falando frases que começavam todas com “é como se”
  • No ato físico de escrever com o punho existe também a deposição material do espírito, por meio da intenção e do gesto.
    Como consequência, o texto primordial escrito à mão expande a atenção e a receptividade de seus leitores – ou leitor único, como é o caso das cartas de amor.
  • Eu não choraria se o tempo em que a matéria já não servisse mais ao propósito humano chegasse num estalo. Ninguém choraria por ser impossível.
  • Se a energia investida na saudade é direcionada aos sentidos e à intuição e à atenção aos sonhos, a saudade e a distância são fonte de satisfação e aprendizado.
  • (imagem: um homem dentro de um espaço reduzido luta por espaço com seus próprios pensamentos)
  • Há uma diferença
  • Nunca esperei por nada do que acontece ao meu redor e, no entanto, quantos eventos não foram sentidos como resultados de planejamento prévio feito por mim, sem o meu consentimento?
  • Há um homem a quem chamam Plácido
    Há um homem a quem chamam de vagabundo, maltrapilho e outros nomes
    Há um homem a quem chamam EXEMPLO
    Há um homem a quem chamam Wanderley Nogueira
    Há um homem a quem chamam Lépido
    Há infinitos desdobramentos de homem, mas todas as frases dizem respeito à mesma coisa.
  • Há uma diferença entre alguns artistas da mesma ordem da discrepância que existe entre um golfinho e um nadador profissional.
  • Há um prazer supremo em não desejar ser outra pessoa, não desejar viver outra vida, ter compaixão consigo próprio e não olhar para trás.
  • Mesmo Sidarta, após sua Iluminação, buscou o aprendizado pelo amor feminino. Foi a primeira coisa que fez.
  • O homem é capaz de tarefas hercúleas conquanto haja propósito e objetivos.
    Contemplar o mar em silêncio já matou mais de sete homens.
  • Quem contempla o som do mar como respiração põe sua individualidade em grave risco.
  • A cruz como um peso;
    A cruz como um veículo;
    A diferença é grande e nos fala sobre o Egito. O homem de braços abertos está de frente ou de costas para o Sol?
    Terá a sombra discernimento do lado que a projeta?
  • O Cristo de São João da Cruz e Salvador Dali plana silenciosamente no espaço a bordo de sua cruz.
  • O desafio de Mársias, sua ousadia e confiança. Não haveria outro destino reservado à sua pobre carcaça? Vale indagar sobre sua sorte?
  • Mas também Pan teve destino semelhante, extinguiu-se num lamento, como nos recorda Nietzsche. O nascimento do cordeiro, Jesus o Cristo, causou uma cisão grave no desejo humano, no pensamento e no inconsciente coletivo humano na era de Peixes. “E Pan está morto” – Cristo e Pan não tiveram lugar na mesma dimensão humana. Muitos artistas captam os ecos de ambas as eras e os confundem ou até mesmo os expressam, ignorando ingenuamente a natureza de suas inspirações.
  • Uma geração se conscientiza sobre si mesma e subitamente morre, uma geração é um jogo de lentes num espaço vazio.
  • (imagem: uma pirâmide oca com uma janela flutua sobre as águas, nuvens alaranjadas, céu violeta)

Garganta obstruída por estrelas

19 Jun 2012 | publicado por dedos | Comente

Existem momentos em que um ser vivo é determinado a agir para garantir a sua sobrevivência, isso é fato conhecido com a mente e o corpo pelos seres humanos mas somente pelo corpo pelos animais.

Desse modo o ser humano tem uma vulnerabilidade que o animal não possui, em troca de faculdades mentais que o animal está longe de ter. O ser humano entende a si mesmo como uma unidade que evolui com o tempo e possui um passado pelo qual responde e é constituído. Mas o entendimento de si mesmo como um resultado da natureza, uma unidade cuja mente é moldada pelos mesmos princípios que sua própria natureza física muitas vezes lhe escapa ao largo.

(Há quem diga que o chamado da natureza não morreu completamente no ser humano.)

Diz-se haver pessoas que ouvem o chamado e então se desprendem de seu passado como uma cigarra troca de pele, porém não deixando sua carcaça em forma de memórias na mente de outros. Quando se transformam – e essa transformação pode ser sutil, algo como uma mudança de hábito, uma declaração surpreendente, uma atitude considerada imperdoável – muitas vezes deixam de ser reconhecidos e muitas vezes são abandonados pelos seus pares.

A transformação que sofri não me permite interpretar o passado como algo factível que realmente aconteceu; memórias são como matrizes de sentimentos múltiplos, oscilantes – mas jamais fatos consumados. Isto é sentido por meu corpo como a ansiedade de um viajante que parte para seu próximo destino.