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Você pagaria 94 mil reais no letreiro de Alexandre Orion?

Drauzio Varella acha que não estamos gastando energia o suficiente

15 Jan 2014 | publicado por dedos | Comente

Eu estava com um desejo enorme de escrever a respeito de como nossos computadores e dispositivos eletrônicos são anti-ergonômicos e prejudicam nossa saúde, nossa postura, nossos ossos e nossos músculos, porque temos que ficar sentados, curvados, tortos e focados para fazer uso desses aparelhos. Mas no meio do caminho alguma coisa aconteceu, e eu mudei de ideia – agora eu suspeito que o problema não esteja nos aparelhos em si, mas sim na parte que faz uso do aparelho.

Li um texto do Drauzio Varella falando sobre preguiça, exercícios físicos etc, em um desses links que você clica no Facebook sem se perguntar o motivo. Eu não sou fã do Drauzio, sabe como é – médico (conhecimento científico, autoridade, poder sobre a vida e a morte na visão popular) ventilado na grande mídia televisiva (Rede Globo, filmes etc) – é muito poder dado a um só homem, eu fico desconfiado, não sei, eu nem tenho televisão, embora ela chegue até mim pela Internet; os portais colocam “notícias” das novelas misturadas aos “fatos” e eu não gosto nem de imaginar a leitura que a massa faz disso. Voltando ao texto do Varella.

acredite, você não quer nem imaginar a mensagem por detrás disso, aliás você não consegue

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A morte do livro impresso, prólogo

23 Aug 2010 | publicado por dedos | Comente

Uma interface de usuário deve ser tão simples que o leigo, em uma emergência, possa compreendê-la dentro de dez segundos. – Theodor Holm Nelson (Ted Nelson, filósofo-visionário)

Parece que a era dos computadores feitos por quem não gosta de pessoas está começando a dar sinais de fraqueza. Não digo nem que está terminando, mas com certeza este é um duro golpe na antiga caricatura do mundo dos computadores. Esse estranho mundo de máquinas que travam e expelem mensagens bizarras com efeitos sonoros do tipo buzinas e vidros quebrando, metáforas bizarras de escritório como pastas, arquivos, lixeira, desktop etc etc. É claro que isso está um pouco longe de terminar; imagine o dia em que as pastas sumirem, que coisa.

Achei uma coisa que me chamou a atenção na Internet, uma senhora de 100 anos, que não podia mais ler livros por causa de um glaucoma, voltou a ler num iPad da Apple. Devemos ressaltar a visível alegria e o entusiasmo da centenária, que aprendeu rapidamente a usar a interface do iPad, e desde então escreveu dois livros e cinco limeriques. Um golpe duríssimo nos fanáticos que preferem o mundo das linhas de comando e telas pretas com letras verdes (em qualquer fórum nerd existe pelo menos uma centena desses).

Mas isso não é nenhuma novidade para nós e os leitores deste site, não é mesmo? (more…)

Enquanto isso em um futuro nem tão distante

15 Mar 2010 | publicado por dedos | 1 comentário

Eu sou o usuário de um netnetnetbook, conhecidos também como 3Ns, ou ainda, popularmente, como “3netão”. O 3n é resultado de três readaptações dos modelos mais comuns de netbooks que surgiram nos anos 10. O resultado é um computador ainda menor, algo equivalente a duas palmas de mão abertas, uma ao lado da outra. Portabilidade e elegância com teclado QWERTY e ênfase nas comunicações, visual customizável e todo tipo de atrativo para todo tipo de pessoa, em suas infinitas variações… a um preço ridículo!

Após o banimento do uso popular do papel, computadores desse tipo começaram a pulular o mercado, já que nas escolas os cadernos foram substituídos pelos pequenos computadores. Em diversas áreas houve efeitos semelhantes: cartórios, hospitais, comércio, em quase todos os lugares havia um ou dois computadores centrais e dezenas de 3Ns e outros similares.

Eu me lembro do dia em que ganhei meu primeiro netnetnetbook. Abri-o emocionado, uma emoção que durou muito, muito pouco. Após poucos minutos de digitação, percebi que minhas mãos precisavam ficar muito juntas, e meus dedos fazerem movimentos tortuosos e contidos, para que eu não apertasse múltiplas teclas de uma vez no minúsculo teclado. Uma tensão horrível nos pulsos e antebraços instalou-se a seguir.

Além disso, a proximidade do teclado e do monitor obrigam o usuário a curvar sua cabeça para baixo, fazendo que gradualmente vá descendo em direção à tela até ficar numa posição corcunda. As mãos, naturalmente, devem elevar-se até o teclado. Imagine um cidadão comum, em seu emprego, ou um aluno de uma escola, com um 3N à mesa: seus braços estão erguidos, suas mãos viradas para baixo apertando as teclas, seu pescoço torto, sua cabeça baixa.  Temos algo semelhante ao tiranossauro rex, com seus bracinhos pendentes e seu pescoço curvado.

Evidentemente, não sou o único desafortunado possuidor de um 3N, sem condições de comprar um computador ergonômico. Some isso ao fato de muitos empregos comuns empregarem o uso de netnetnetbooks, e temos toda uma geração de corcundas com mãozinhas balançando e pulsos doendo, com feições faciais ligeiramente abobalhadas.

Desista da Arte / Salve os famintos

4 Mar 2010 | publicado por dedos | 1 comentário

Ver e criar uma imagem são a mesma atividade. Aqueles que criam a arte também estão criando os famintos. Nosso mundo é uma ilusão coletiva.

É uma grande ironia que o mito do artista celebre o sofrimento, enquanto são aqueles que nunca ouviram falar de arte, aqueles sofredores famintos na seca e com doenças endêmicas, que são os verdadeiros pobres e infelizes do nosso mundo. E nessa perversão que foi um dia uma busca religiosa, os artistas de hoje negam ser mais do que trabalhadores, negam a arte em si, e então se mobilizam para apagar para o homem a luz que existe dentro dele.

A arte é agora definida pela elite autoperpetuante para ser comercializada como uma mercadoria internacional, um investimento seguro para os ricos que têm tudo. Mas chamar um homem de artista é negar a outro um dom igual de visão; e negar a todos os homens a igualdade é reforçar a injustiça, a repressão e a fome.

Tudo o que é aprendido é alienígena. Nossa história é construída a partir da herança de homens que aprenderam somente a substituir um conceito por outro. Nós lutamos para agarrar o que não sabemos, quando nossos problemas não serão resolvidos por novas informações, mas pelo entendimento do que o homem já sabe. É hora de reexaminar a natureza do pensamento.

Ficções ocupam nossas mentes e a arte tornou-se um produto, porque acreditamos que nós e o nosso mundo não somos suscetíveis a mudanças fundamentais. Então, escapamos para a arte. É a nossa habilidade de transformar este mundo, de controlar nossa consciência, que está secando na videira.

Precisamos controlar nossas próprias mentes, comportarmo-nos como se a revolução já houvesse acontecido. Pintar todos os quadros de preto e celebrar a arte morta. Estamos vivendo num baile de máscaras: o que pensamos ser a nossa identidade é um jogo de noções recebidas pelo sistema educacional, preconcepções que nos prendem à história. A crença em nossa própria identidade gera tristeza sem fim: nosso isolamento, nossa alienação e nossa crença de que a vida de outro homem é mais interessante que a nossa.

É somente através da valorização igualitária de todo o mundo que qualquer um de nós encontrará a liberação. Um fim para a história é nossa exigência de direito. Continuar a produzir arte é ficarmos viciados em nossa própria repressão. A recusa da criação é a única alternativa para aqueles que querem mudar o mundo. Desista da arte. Salve os famintos.