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Do protesto à pornografia

14 Apr 2014 | publicado por dedos | Comente

Logo que aconteceu o evento/protesto “Toplessaço”, no RJ, eu fiquei impressionado com a foto abaixo. Fiquei tentado a escrever sobre o assunto. Mas não escrevi, resolvi esperar. A espera acabou se justificando, pois a indústria cultural tardou, mas não falhou, em confirmar minhas mais trágicas suspeitas. Primeira imagem:

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a mídia sendo a mídia

Quando eu vi essa foto e todas as reportagens a respeito, eu pensei que esse evento provavelmente seria utilizado pela mídia para gerar dinheiro. Todos os protestos de hoje em dia estão sendo transformados em grandes eventos, big business; se você for à essas manifestações para protestar, sua maior chance de sucesso é causar algum tipo de prejuízo financeiro. Como por exemplo: deixar a cidade entregue ao lixo. Caso contrário, você será apenas parte de mais um case midiático.

Eu menti. Você será parte de um case midiático de qualquer maneira.

Voltando ao toplessaço no Rio de Janeiro; eu suspeitava, desde o início, que esse evento seria aproveitado pela indústria cultural. Eu só não esperava que fosse ser tão rápido, e de maneira tão escancarada. Uma das manifestantes do toplessaço foi recrutada pela Globo para posar nua. Um absurdo? Aparentemente não; ela aceitou. 

toplessaco3

poderia ser qualquer uma, ela não é o mais importante

Eu já sei o que você está pensando: “Mas isso vai trazer mais visibilidade para o movimento. O toplessaço está na mídia! Ela tem até um nome: Musa do Toplessaço.” - Pare com isso. Pense no que você acabou de dizer. Vamos com calma. Vai ser feio.

Se eu tivesse um cargo de prestígio na mídia, ou na polícia, eu contrataria uma equipe somente para ficar entrando em páginas de protestos no Facebook. Eu faria o seguinte pedido: façam um levantamento de quem são esses protestantes, quero saber tudo:

  • Distribuição de idade e gênero;
  • Endereço residencial/profissional/etc;
  • Orientação sexual;
  • Marcas que consomem, páginas que curtem, etc;
  • Profissão;
  • Nível de escolaridade;
  • Orientação política;
  • Poder de consumo;
  • Nível de alfabetização;
  • Com que frequência usam a Internet;
  • Para que usam a Internet;
  • Quantos realmente comparecem aos eventos;
  • etc.

Mas isso não é mera especulação: já existem muitos profissionais fazendo isso. Uma pesquisa desse tipo, para levantar tantos dados de um espaço amostral tão grande, custaria caríssimo. Hoje em dia as pessoas fornecem seus dados gratuitamente. Basta saber se movimentar em meio aos dados e coletar o que é relevante.

O que aconteceu no toplessaço? Muitas pessoas confirmaram; pouquíssimas aderiram. Havia muito mais fotógrafos e repórteres do que mulheres participantes. Por que você acha que havia tantos fotógrafos assim no lugar? Será que eram necessários tantos, será que a adesão em massa era realmente aguardada?

A mídia noticiou o caso da seguinte maneira: o protesto foi um fracasso, havia muito mais mídia do que manifestantes. Isto é proposital. Uma mulher decide participar; chega lá e se depara com uma horda de fotógrafos. Eu posso estar enganado, mas eu acho que existe uma diferença considerável entre 1) fazer topless na praia e 2) fazer topless na praia com um monte de gente te fotografando e sabe-se lá deus onde estas imagens vão parar e o que vão fazer delas. Quero acreditar uma das motivações do protesto fosse demonstrar que é perfeitamente possível que mulheres não usem a parte de cima do biquini na praia, sem causar grandes tragédias ou corromper a família “de bem” etc.

Mas aquele dia não foi possível. Só foi possível o topless estilo mídia, com dezenas de fotógrafos a te perseguir; junte a isso pessoas comuns misturadas a eles tirando fotos suas para fins escusos, os curiosos de plantão, imagens que possivelmente poderiam parar na Internet… desistir não é exatamente uma má ideia. O protesto foi sufocado pela mídia. A Globo diz:

Ana Paula foi umas oito mil mulheres que confirmaram presença no evento “toplessaço”, que aconteceu em janeiro no Rio de Janeiro. Ao chegar à areia, uma surpresa: um amontoado de imprensa e curiosos e nenhuma mulher aderindo à causa. Restou a ela ser a primeira a tirar a parte de cima do biquíni e, logo, ganhar o posto de “musa do toplessaço”.

Isso é típico do estilo mídia: slogans. Rotulação ou branding, como queiram. “Mulher do ano”, “mulher mais sexy do ano”, “mulher-bife” etc etc etc etc. Musa do toplessaço. Eu queria entender como funcionou essa premiação. Na página do Facebook do protesto estava estipulado esse posto para a primeira voluntária? Havia um comitê na praia dedicado a escolher a musa? Nada disso, não existe musa do toplessaço, eles precisam disso para que eles possam vender esse ensaio fotográfico. “Mas o ensaio pode ser visto de graça na Internet!”  – isso não quer dizer que você não está pagando. “Mas se está na mídia, deve ser importante.” - (respiração profunda) Eu sei, eu sei.

O problema não é o fato de essa mulher posar nua. O problema nunca foi nudez, a arte está aí para comprovar isso. O erotismo tampouco é o problema; Robert Mapplethorpe virá atrás de você em seus sonhos, com um chicote, se você disser isso.

O problema está em acreditar que posar nua para as organizações Globo vai ajudar a causa do topless nas praias brasileiras. A Globo, da sua parte, quer que o espectador pense que a musa do toplessaço acredita nisso. Talvez ela acredite, mas ela não é importante nessa história, ela é uma ferramenta útil, e descartável por sinal – haveria uma musa do toplessaço de qualquer maneira.

Se existe a musa do toplessaço, a legalização da maconha no Brasil vai acontecer antes da legalização do topless. Você não vai ver ninguém fumando maconha na Globo; se isso acontecer, essa pessoa estará matando os pais em alguma novela.

A nudez é um mercado valiosíssimo, monopolizado pela indústria cultural há décadas. É por isso que você ouve esse tipo de frase: “nós vemos pessoas peladas o tempo inteiro na TV e não podemos tirar a roupa na praia”. A nudez de pessoas comuns expõe uma verdade brutal: a diversidade humana é imensa, não cabe nos estereótipos vendidos pela mídia. Qual o tipo de reação que você espera da mídia em relação a isso?

Seios expostos fora da mídia? Não vai acontecer. As manifestantes que aderiram foram engolidas por fotógrafos; algumas de suas fotos foram parar em portais de notícias. Uma delas ainda está com os peitos de fora, só que num site de pornô softcore de subcelebridades. É horrível, eu sei.

A indústria cultural lança celebridades e elege algumas poucas pessoas como “especiais” porque esse é o business da mídia. O que quer dizer, automaticamente, que existe um público comprando essas ideias. Quem acessa o site onde a musa do toplessaço está posando? Eu tenho quase certeza do seguinte: não é o público que consome pornografia. Esse público consome clipes de vídeos pornô na Internet, as revistas pornô estão indo à falência. O acesso ao ensaio da musa do toplessaço é gratuito, está enterrado em um site de fofocas: quem se importa? O ensaio é muito ruim, aliás. Mas é o suficiente para a indústria cultural absorver esse evento de protesto. O output é a nudez midiática, e nada de nudez ou semi-nudez pública para a população. Fica pior:

toplessaco

Isso é Notícias Populares. Está tudo aí: a pornografia, a demagogia, a violência gore, o policialesco. Só falta a manchete escrachada. Esse é o público-alvo do ensaio da musa do toplessaço: o público que consome telejornais no estilo bang-bang, revistas de fofoca e programas de auditório, e não o público ávido por pornografia para a auto-satisfação. Esses estão nos tubes da Internet consumindo clipes de vídeo.

Falando em pornografia online… você já deve ter visto: roupas caem, pênis sobem, coisas acontecem, nada de muita conversa ou preliminares, onde todo o teatro culmina no orgasmo masculino. “A pornografia trata as mulheres como objetos!” Sim, isto é verdade, porém mulheres são tratadas como objetos pelos homens desde sempre. Considere que isso não é exclusividade da pornografia ou da indústria cultural. Qual é, então, a influência direta da indústria cultural e da pornografia sobre as mulheres?

Apesar de as mulheres serem retratadas como objetos sexuais, quero crer que as mulheres, em maioria esmagadora, sabem que não são objetos sexuais, mesmo que não o expressem. A propaganda não produz diz diretamente para as mulheres: você é um objeto sexual. Pelo contrário, a mídia vende produtos para mulheres com afirmações do tipo: você não é um objeto ou apenas mais uma, você é bela, poderosa, independente, então é claro que você vai querer que sua cozinha seja de primeira linha, suas roupas íntimas as mais caras, seus seios os maiores, sua barriga inexistente etc. 

Isso é uma parte do problema; a outra parte do problema, que envolve estupros, agressões, abusos, ameaças na Internet, encoxadas no metrô etc, começa quando a mensagem de “mulher = objeto” é comprada por homens.

Homens que compram essa ideia podem, ao longo do tempo, se deparar com uma realidade: as mulheres não são objetos. Como consequência inevitável da sua visão distorcida de mundo e de suas atitudes, mulheres o rejeitam, seus relacionamentos fracassam, ele está cada vez mais isolado. “Mas na pornografia é tão fácil! É só tirar a calça. Eu até tenho dinheiro!”

OK garanhão, mas… o que fazer então, na dura realidade, onde as mulheres não são objetos e não te querem porque você é um imbecil? Qual o próximo passo? Trancado em sua própria ignorância, talvez possam surgir soluções como, não sei… sacar o pênis para fora dentro do metrô? Criar um clube de encoxadores, um site misógino, violentar alguém? Fazer terrorismo na Internet, comentários agressivos em fotos etc? Qual a próxima invenção? Para esse tipo de sujeito, o problema está no mundo, nas mulheres, nos problemas da sociedade, na perversão dos valores, no comunismo, onde quer que seja.

“Mas na pesquisa do IPEA a maioria das respostas machistas vieram de mulheres!” - foda-se o IPEA, essa pesquisa foi um desastre, a começar pelas questões. Mas essa pesquisa e o toplessaço acabaram tendo seus destinos laçados um ao outro. Quer ver onde foi parar o toplessaço? Eu vou citar uma matéria cujo subtítulo é o seguinte: Protesto online motivado pela pesquisa do IPEA convoca selfies de topless contra o estupro. O grifo é meu:

Nana disse ao Brasil Post que teve a ideia quando viu o resultado da pesquisa, inspirada na Marcha das Vadias e no grupo russo Pussy Riot. “A ideia é que a gente tire a roupa e se fotografe, da cintura para cima, com um cartaz tampando os seios com os dizeres “Eu também não mereço ser estuprada” e postemos, todas juntas, ao mesmo tempo, online. Quem tá dentro?”, diz a descrição do evento. Quem não quiser fazer topless pode aparecer vestida, o importante é postar a foto com a hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada no seu perfil do Facebook às 20h.

OK, é tipo um topless, mas cobrindo os seios, ou seja, não é um topless, muito embora esteja sem sutiã. Mas por que? Eu tenho dois palpites, um não elimina o outro e os dois funcionam juntos:

1) Qualquer mulher tem muitas razões para não querer mostrar os seios na Internet. Seja por razões íntimas ou de privacidade, auto-confiança etc, seja por razões de segurança, existe porque se preocupar. Mesmo com os seios tampados, as participantes desse protesto online foram vítimas da hostilidade e ignorância de hordas de trolls, misóginos, machistas etc. Imagine se estivessem com os seios à mostra. Melhor: não imagine.

2) Elas estão tampando os seios porque o Facebook não permite seios à mostra. Pegue uma bebida, medite nessa frase.

Por que fazer um protesto sobre o corpo da mulher em uma rede social que, notadamente, já baniu fotos de mulheres amamentando, por exemplo? Porque fatos como esse não fizeram as pessoas procurarem outra alternativa de rede social? O teor e a intensidade dos protestos sempre varia, mas a única constante é o Facebook. Por exemplo, nesse protesto online, para várias mulheres mostrar os seios seria sim uma opção, mas a forma do protesto teve de ser pré-formatada para caber no Facebook.

O que quer dizer também que seus dados serão vendidos para anunciantes que também são a indústria cultural. Mesmo que você esteja compartilhando conteúdos políticos contrários aos interesses da mídia, a mídia estará lá registrando, e dará o melhor de si para te oferecer algo que, finalmente, você queira comprar. Ou algo que você esteja disposta a fazer.

toplessaço começou nas praias, ao ar livre, em público, e foi parar na Internet, com os seios tampados, atraindo o ódio de milhares de machistas/misóginos/imbecis anônimos, escondidos atrás de um computador. Ah, mas a musa do toplessaço está nua na Internet. Se sente melhor agora? É claro que não. A proporção de uma mulher nua (na mídia) para milhões de mulheres proibidas de deixarem a parte de cima do biquini em casa continua.

Para que esse tipo de manifestação tenha sucesso, é urgente que os impactos sejam sentidos no tecido da sociedade, no cotidiano, as ideias convertidas em ações. Meu palpite é que para o topless nas praias começar a ser discutido a sério no Brasil, com possibilidades reais de mudança, mulheres tenham que começar a fazê-lo espontaneamente, em qualquer dia, em qualquer praia, a qualquer momento. Até que não haja fotógrafos o suficiente para cobrir todos os casos, até que não haja policiais o suficiente para prender todas as mulheres. É claro que estamos diante de um problema enorme aqui: se eu sou mulher e faço topless na praia, no Brasil, quantos minutos até começarem os insultos, os abusos, as abordagens violentas, os estupros?

Compartilhar no Facebook, ou em qualquer rede massivamente monitorada, não vai resolver este problema. Pelo contrário, eu acho que ele só tende a aumentar, quanto mais seja veiculado no Facebook e na grande mídia (assunto pra outro texto). No momento, infelizmente, a solução mais realista está próxima de algo como “porte de armas para mulheres” – nesse nível. Eu adoraria estar brincando em relação a isso. 

(não há conclusão possível para esse texto)

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Considerações :

1a) Eu relutei muito em publicar esse texto, e não consegui conclui-lo de maneira digna. O assunto do meu blog é principalmente indústria cultural e arte, é a primeira vez que adentro o campo das questões de gênero. Eu tenho um pênis no meio das pernas e não sou feminista – mas também não me considero machista – o que não quer dizer nada, nós somos o que fazemos e não o que dizemos que fazemos. O “feminismo para homens“, na minha visão, é igual a “não seja um imbecil”, muito embora isso pareça uma tarefa hercúlea para muitos. Tudo isso considerado, o foco do texto é, realmente, a indústria cultural e como ela se comporta quando um ativo muito valioso para essa indústria – a nudez feminina – corre o risco de se tornar domínio público.

1b) Eu fui, ao longo dos anos, treinado para tentar ler o verso da superfície da mídia; eu fui acompanhando os casos que citei no texto por meio do que chegava pra mim via Facebook. Eu fiz algumas previsões pra mim mesmo e, infelizmente, todas elas foram se confirmando com o passar dos dias (o que não me deixou feliz). Escrever esse texto foi uma experiência difícil e muito arrastada, e estou feliz de não ter mais que mexer nele;

1c) Decidi conectar esses eventos (toplessaço -> musa do toplessaço -> toplessaço no Facebook) como uma tentativa de mostrar que nem a mídia, nem o Facebook, nem o IPEA e nem essa guerra de compartilhamentos estão ajudando as mulheres a conquistar o direito de fazer topless na praia (algo trivial, nada de outro mundo, mas aqui estamos). Meu corpo, minhas regras: eu sou completamente a favor. Mas, infelizmente, essa questão está longe de estar no campo da opinião apenas.

2) Perguntaquando a mídia (Internet, TV, etc) noticia um caso de abuso sexual no metrô, por exemplo, ela está aumentando a probabilidade de acontecerem abusos semelhantes? Minha opinião: sim. 

3) A seção de comentários está desativada de propósito para esse post. Eu sei muito o bem o tipo de pessoa que eu posso atrair com esse texto, e além disso, 1) eu faço o tipo reservado e 2) as pessoas podem discutir nas redes sociais, nos bares e etc.

Você pagaria 94 mil reais no letreiro de Alexandre Orion?

A busca pela felicidade é uma farsa

17 Mar 2014 | publicado por dedos | Comente

Dia desses eu comi um pastel gorduroso que ficou entalado na minha garganta; comprei, então uma lata de Coca-Cola. Nela estava escrita a palavra: Felicidade. Esta palavra não significa mais nada, está morta – do contrário, jamais poderia ser estampada aos milhões em uma lata de refrigerantes. Isso não é mística, isso é economia, isso é teoria da comunicação. De onde chegamos à conclusão de que, ao mesmo tempo, ela está se tornando a palavra mais valiosa de todas, para a felicidade da indústria. Gostou do trocadilho? Foi péssimo, eu sei.

Voltando à felicidade: se eu posso estampar essa palavra em uma lata de refrigerante, numa marca de supermercados, num pote de margarina ou em qualquer outro produto, é porque existe algum consenso em torno dessa palavra, uma espécie de entendimento comum onde “feliz” = bom, “infeliz” = não-bom. Na verdade isso chama-se redundância – quando uma mensagem possui zero ou quase zero de informação nova.

Ah sim, existe uma segunda dimensão desse pensamento, onde “feliz” = lucrativo, e “infeliz” = mais lucrativo ainda.  Tente imaginar a água da sua descarga girando ao mesmo tempo nos dois sentidos. Eles fabricam Rivotril com essa água. Cerveja também.

Agora, espere um pouco, eu garanto que não sou um sujeito deprimido e rancoroso destilando meu veneno contra a humanidade de um quarto escuro. Se você me convidar para conhecer sua casa ou dar uma volta, eu irei com o maior prazer, daremos risadas e será ótimo; o problema não é, de modo algum, viver momentos felizes.

O problema é a compreensão da palavra felicidade que se tornou o lugar comum. “Dinheiro não traz felicidade, todo mundo sabe disso”. Eu sei, eu li todos esses textos que você leu, horríveis por sinal. “Largou tudo pra ser feliz”, bla-bla-bla. Palestras do Steve Jobs: trabalhar com o que você gosta = felicidade. Sério, eu vi tudo isso, o que quer dizer que tudo isso era pra mim também. Céus, me sinto péssimo. Isso não deve ser coincidência.

Eu vou deixar você fazer essa pesquisa: digite “gente feliz” no Google imagens. Eu tive que olhar de novo pra ver se eu não tinha digitado “um bando de idiotas jogando as mãos pro alto, gargalhando sem motivo aparente” porque é justamente isso que o Google cospe para “gente feliz”. Mas isso é ilustrativo.

Se estamos falando sobre “felicidade”, estamos automaticamente falando sobre “infelicidade”, ou “tristeza”, isso acontece 100% das vezes. A felicidade, assim como qualquer valor de natureza humana, é dual, projeta uma sombra. Vou tentar reescrever um conto zen-budista que eu ouvi em uma certa ocasião, muito belo, para ilustrar o que eu quero dizer a seguir:

O mestre de um templo zen-budista no Japão havia falecido. No cortejo fúnebre, muitas flores e cânticos; um clima leve pairava no ambiente. Os monges e pessoas que atendiam a cerimônia haviam absorvido muitos dos ensinamentos do mestre, e sabiam que a vida era passageira. O mestre havia morrido em paz; não foi uma morte sofrida nem dolorosa. No entanto, o discípulo mais próximo do mestre, considerado o mais sábio entre os monges, estava em prantos. Chorava, tremia e soluçava copiosamente. Os outros monges estavam perplexos; como ele, o mais sábio, cotado para ser o próximo mestre, estava em um estado tão miserável? Um deles se aproximou do monge que chorava e perguntou: “O que há contigo? Não sabe que o mestre se encontra unido novamente com a natureza e a divindade? Não há motivo para lágrimas.”

Ao que o monge que chorava respondeu: “Querido irmão, meu espírito está em paz. Quem chora são meus olhos, que não poderão mais enxergar o mestre. Quem treme é o meu corpo, que não poderá sentir a proximidade do mestre. Quem agoniza são meus ouvidos, que não mais escutarão suas palavras. Meu corpo se acostumou à presença do mestre e agora lamenta a sua partida. Eu não desejo me opor a ele; deixarei que chore, deixarei que sofra, até que se acostume à sua nova vida, longe do mestre.”

Você vê? Esse conto é muito belo:

  1. O mestre morreu. O que fazer? Claro, todos os envolvidos tinham algum nível de elevação espiritual. Um dos monges vem ao monge que chora e diz: o que você está fazendo? Do que vale todo o conhecimento que o mestre te transmitiu? Os outros monges estão olhando. Recomponha-se! Ele está preocupado com as aparências.
  2. Independente de todo o seu conhecimento, o monge que chorava não tentou distorcer a realidade; deixou seus sentimentos aflorarem e viveu o momento de maneira honesta e franca. Ele estava triste, mas estava em paz. Esta é a parte mais importante do conto. Mas nós dormimos nessa hora do filme.

Quando Nelson Mandela morreu, você compartilhou uma foto dele em alguma rede social, com uma mensagem de “valeu, Madiba!”. Mas o que você deveria ter feito é ter pensado: “o que raios eu estou fazendo com a minha vida?”. Aquele homem passou 27 anos dentro de uma prisão. Você acha que Mandela estava preocupado com felicidade nesse período? Se ele estivesse preso a um ideal de felicidade desse que nós compramos - fazer o que gosta, trabalhar com o que gosta, nos darmos o valor que merecemos etc - ele teria se matado ou enlouquecido, provavelmente os dois. Um ano após o outro, acordando no mesmo lugar, vendo as mesmas pessoas, o mesmo Sol quadrado, sem poder sair… é uma vida dura!

Mas Mandela viu algo mais nessa situação – ele não só resistiu aquele tempo todo; ele saiu e realizou grandes feitos. Ele fez o que havia para ser feito, o que a vida lhe apresentou como possibilidade. Suas quase três décadas encarcerado certamente causaram transformações profundas em seu íntimo, a ponto de declarar que não sentia ódio de seus captores, sob o risco de tornar-se igual a eles. Mas essas histórias são boas apenas para serem vistas, não é mesmo? Você quer só a felicidade, esqueça essa parte do sofrimento, da luta, da persistência. A indústria ficará muito feliz em te ajudar nessa parte. A Internet também.

Um tempo atrás várias pessoas compartilharam um link no Facebook; ele se chamava “Vale a pena largar tudo em busca da felicidade?“. Eu abro a página e BANG, lá está um hipster sorridente, ganhando um beijinho no rosto de sua namorada. Calma lá, refreie sua raiva, todos amamos odiar hipsters, mas isso também é um truque da mídia – eles são ótimos “bois de piranha”, mas deixemos isso pra outro momento. De qualquer modo, um começo mais do que suspeito. Eu começo a ler o texto e é necessário escalar uma muralha de propaganda, branding puro: casamento com uma mulher bonita e inteligente, prêmios profissionais, lua-de-mel, lançamento de livro, banda, vida em São Paulo etc.

Logo no segundo parágrafo eu já desconfiava de uma armadilha, mas no trecho a seguir eu tive certeza:

De repente, um monte de outras coisas começaram a aparecer como necessidades urgentes para que minha vida fosse plena: “você precisa comprar um carro pra ser feliz”, “você precisa comprar um pacote de viagem anual pra ser feliz”, “você precisa comprar aquele ingresso caríssimo de festival cheio de bandas (que você nunca ouviu na vida) pra ser feliz” e, finalmente, “você precisa comprar uma máquina de Nespresso pra ser feliz”.

Espere aí garotão, você quer me dizer que essas “necessidades urgentes” simplesmente pularam na sua frente, surgiram na sua vida como um fator inevitável? Aula número zero da faculdade de propaganda e marketing, extraído de um site genérico:

Um dos conceitos mais simples do Marketing é a definição do Target, o público alvo. O público alvo é o conjunto de pessoas que pretendemos chegar com a nossa mensagem. Existem diversas definições para este conceito, resumidamente é quem pretendemos que compre os nossos produtos ou serviços.

Se você está vendo, é para você. Céus, se você faz questão de explicitar a propaganda da Nespresso, é muito possível imaginar o tipo de mídia que você anda consumindo e a categoria de público-alvo da qual você faz parte. A essa altura do texto eu estava tentando montar o quebra-cabeça, mas não precisei me esforçar, o mapa das peças foi fornecido algumas linhas depois:

Sim, porque eu (que era editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem da Editora Abril) e a Karin Hueck (que era editora da SUPERINTERESSANTE) pedimos demissão no começo de agosto e acabamos de mudar temporariamente para Berlim (a atual “capital mundial da criatividade”) para tocarmos essa investigação.

Ugh. Por onde começar? Editora Abril? “Mas não é aquela que edita a revista V…” Shh, fale baixo, já está constrangedor o suficiente. Mudar para Berlim para investigar a felicidade? OK, agora era o momento em que eu esperava algum tipo de método, alguma proposta, diga o que você vai fazer em Berlim para tocar essa “investigação” – mas não, nada disso, talvez isso, talvez aquilo e a chave de ouro do texto (sim, fica pior):

 O que oferecemos para vocês é uma carona na nossa viagem de busca por respostas que possam levar à felicidade. Porque – como ensina o filme “Na Natureza Selvagem” – “a felicidade só faz sentido quando é compartilhada”.

Se você está aprendendo coisas com filmes de Hollywood, feche as portas, apague a luz, você é mídia dos pés à cabeça. A última frase dessa parte é reveladora. Felicidade compartilhada: não no sentido de “venha almoçar na minha casa” mas no sentido de “olhe a foto do que eu fiz no almoço, ficou linda com esse filtro”. Esse site se chama Gluck Project – isso é século XXI, a “felicidade” como um projeto. Há textos com títulos típicos de revistas sensacionalistas: como ser feliz no trabalho, como deixei de ser corrupta (?!)como a psicologia pode ajudar, como ter um corpo perfeito para o verão etc. “Mas o título sobre o corpo de verão era irônico.” Mas você leu de qualquer jeito, não? Eu li. É assim que funciona.

Esse site é um produto da mídia; eles dizem ter abandonado os empregos na Abril, porém o site é repleto de links para matérias de seus antigos trabalhos. Você pode abandonar a mídia, mas a mídia não abandona você. Gostaram dessa? Dá uma boa tatuagem. Aliás, eles já colocaram no site o link “Na mídia”, onde você pode ver o que andaram falando na mídia sobre o projeto, que não é sobre felicidade, de modo algum, é sobre eles mesmos. Aliás, é a mesma mídia que vendeu as propagandas que nosso amigo tanto questionou, inclusive a máquina Nespresso – lembra da água privada girando nos dois sentidos ao mesmo tempo?

Todos esses discursos midiáticos sobre felicidade são embustes, simplesmente porque ser feliz é análogo a um dia eterno de Sol; no começo é gostoso, mas você vai sentir falta de ver as estrelas. Felicidade é um conceito manipulável; enquanto você estiver buscando a felicidade, você pode muito bem estar correndo atrás de um unicórnio ou uma máquina de café ou qualquer que seja a ideia que você comprou a respeito disso. E enquanto isso, você gasta horas lendo sobre a felicidade alheia na Internet. OK, eu também li, estamos juntos nessa, mas estou tentando aqui fazer um rationale disso tudo.

É possível que sua vida não lhe permita nem sequer pensar em ser feliz. Você nasceu pobre, num lugar horrível, tudo lhe falta, desde o mais básico. O que fazer? O outro extremo também vale: você nasceu rico, num lugar maravilhoso, nada lhe falta. O que fazer? O problema é que você está perdido - esse trabalho não é bom pra mim, essa vida não é a que eu quero, meus amigos são chatos, meu país está perdido – existe uma situação ideal em sua mente que não corresponde com a realidade. E o problema nesse caso não é, de modo algum, a realidade. A diferença é que o pobre não tem tempo para investigar, ele tem que acordar e fazer o que deve ser feito para colocar alimento dentro de sua casa. Vários estudos já apontaram que há altos índices de felicidade em países extremamente pobres. Como é isso?!

Vou descer do muro agora. Existiu um homem na Grécia antiga que saía por aí nas ruas, apontando o dedo para as pessoas e gritando: conhece-te a ti mesmo! Seu nome era Sócrates e seu destino foi trivial, foi obrigado a beber veneno por causa de seus pensamentos, nada de mais. Mas essa frase é reveladora - conhece-te a ti mesmo. É o conselho mais precioso que já foi dado para a humanidade, e muitos o repetiram – Jesus, Buda, Nietzsche - torna-te o que tu és! Foi precisamente isso que Mandela fez. Não há investigação, há fazer o que deve ser feito; enquanto você buscar na mídia esse tipo de resposta, “como ser feliz”, o máximo que irá acontecer é entulhar sua mente com um monte de histórias que só tem uma coisa em comum: você não faz parte delas, você é um espectador, um dia você vai fazer aquilo… Vamos observar a coisa de uma forma mais transcendental do que mundana? O místico Osho disse:

Se a felicidade se tornar o grande objetivo a ser alcançado em sua vida, então ela será para você um verdadeiro pesadelo. Mas quando, para você, a felicidade está nas pequenas coisas, na forma pela qual você as vive (…) sua casa torna-se um templo, seu corpo se torna a morada de Deus, e, para onde quer que você olhe e qualquer coisa que você toque, se torna imensamente bela, sagrada – então, a felicidade é liberdade.

Mas isso é extremamente difícil, não é mesmo? Num metrô lotado, no seu emprego, no seu casamento… é difícil viver as pequenas coisas. Por isso é mais fácil acompanhar essas histórias da mídia, repletas de grandiose, pretensão, e sempre associadas ao mundo do consumo, do mercado - abandonar empregos, mudar de país, doar tudo o que você tem, fazer uma dieta extrema – jamais pode ser uma coisa pequena e simples, pois assim todos poderiam fazê-lo e não só alguns personagens midiáticos.

Meu deus. Eu preciso de uma Coca-Cola. Das grandes. Para encher um balde e enfiar meu cérebro dentro.

A quem interessa o adjetivo “universitário”?

11 Mar 2014 | publicado por dedos | Comente

Eu estou pesquisando um meio de cancelar meu diploma universitário.

Para saber os motivos, acesse o blog O Mexidão, onde esse texto foi publicado. Bom mudar de ares as vezes não é mesmo?!

O que é um artista? Parte 2: o lápis da natureza

6 Mar 2014 | publicado por dedos | Comente

Então selfie foi a “palavra do ano” de 2013. Eu nunca acreditei nessas listas: o homem do ano, a mulher do ano, a palavra do ano; o alvo é sempre o seu dinheiro, mas dessa vez eu tive que prestar atenção, porque quem apontou selfie como a palavra do ano de 2013 foi Big Data, o inconsciente coletivo eletrônico feito das nossas escolhas quando estamos conectados. E a palavra que mais proliferou nas entranhas de Big Data em 2013 foi selfie. Parabéns pra nós. De todos os devaneios imaginados pela ficção científica, estagnamos nessa idade média com gadgets e hábitos narcisistas.

Likes no seu selfie te deixam feliz? Mas… e se ninguém curtir?

Eu não sou contra o auto-retrato (sou contra escrever autorretrato). Você já viu os auto-retratos de Albrecht Dürer, Rembrandt, Frida Kahlo? Já observou e se deixou observar por algum deles? Auto-retratos não são problema nenhum – apesar dessas imagens mui constrangedoras que circulam no Instagram e no Facebook etc.

Estou usando o selfie de ponto de partida por dois motivos. O primeiro é porque é algo que nós da Internet entendemos bem, praticantes ou não; o segundo é para trazer à tona o fato de que pessoas, todas as pessoas, estão produzindo imagens. Vamos focar nesse aspecto e deixar o narcisismo – outro tema que eu adoro – para outro dia. 

Você postou um selfie hoje. O que você fez? Você matou um artista de fome. Para entender como isso aconteceu, será necessário viajarmos no tempo novamente. Eu sei que ninguém liga para mais nada que não tenha se passado nos últimos dois dias, mas o que eu posso fazer? Sou um saudosista. Mentira, eu tenho problemas com a indústria cultural.

eckhout - tapuia

“eu tive um dia difícil”

Eu adoro essa pintura, datada de 1643. Gosto dela principalmente porque é traiçoeira.

Albert Eckhout foi um artista que viveu no Brasil durante a ocupação holandesa. Nessa época de expedições ultramarinas, artistas eram uma presença constante nos navios; eram os incumbidos de fazer registros visuais e levá-los de volta ao velho continente, para os que lá ficaram pudessem imaginar o novo mundo. Imagine um mundo onde as imagens, todas as imagens, eram frutos da capacidade de imaginação de alguém.

Com imaginação eu não quero dizer capacidade de sonhar acordado com unicórnios ou entrevistas de TV, eu falo do conjunto: olhar, sensibilidade e técnica. Isso não é poder? Observemos:

  1. Você acha que essa índia tem feições indígenas? Eckhout devia estar acostumado a ver européias e talvez pintá-las, e deixou transparecer esse fato nesse rosto que quase nada tem de indígena;
  2. A pose, tipicamente forçada, provavelmente no intento de mostrar o máximo possível do corpo. Repare nas manchas e machucados nas pernas, braço e abdomen; o artista escolheu inclui-las: esse povo indígena não tem uma vida civilizada e protegida de eventuais escoriações;
  3. A mão e o pé decepados. A despeito da pose, que carrega certa dignidade, jamais podemos ver esses seres como humanos civilizados – são canibais. E provavelmente andam por aí carregando membros de seus futuros jantares. Repare como a vítima dessa índia estava batendo um cigarro no cinzeiro no momento em que sua mão foi decepada;
  4. Um pênis verde ereto aponta para o Sol por detrás das nuvens; Deus está ofuscado, o Sol divino ainda não brilhou com toda sua força nesse continente, a despeito de sua presença. Ele está lá, mas ainda são opacos os seus raios nessa terra de canibais. O verdor do falo representa a religião que ainda está por amadurecer. (É claro que eu inventei isso, mas é precisamente isso que muitos críticos e curadores continuam fazendo em seus textos sobre arte contemporânea).
  5. Não quero falar sobre o cachorro.

Esse foi um exemplo (com uma certa licença poética, é verdade) para ilustrar o seguinte fato: até meados do século XIX, artistas estavam em qualquer lugar onde imagens precisassem ser criadas. Um anatomista dissecando o corpo humano? Lá está um artista desenhando ossos e órgãos internos. Um inventor criou algo novo? Chame um artista, eu preciso dos desenhos para a patente (era comum que o inventor e o artista fossem a mesma pessoa). Um engenheiro projetando um novo mecanismo; um biólogo registrando novas espécies… Sem falar em retratistas, pintores pagos pelas igrejas (para criar as pinturas sem assinatura de que falamos no texto um) etc. Eram numerosos os ofícios que contavam com a habilidade de algum criador de imagens.

Provavelmente esse tipo de contexto permitia que pessoas como Da Vinci aparecessem – era preciso um pouco (muito) de cientista, de artista, de filósofo, de pedreiro, de artesão, tudo em uma mesma pessoa. No Tratado da Pintura escrito por Da Vinci consta o seguinte:

O pintor não é digno de louvor se não for universal. Pode-se dizer claramente que se enganam aqueles que chamam de bom mestre o pintor que executa bem apenas uma cabeça ou figura. Não é um grande feito, estudando uma única coisa durante toda a sua vida, alcançar alguma perfeição; mas nós, sabendo que a pintura abarca e contempla todas as coisas que a natureza produz e tudo o que criou a operação fortuita do homem, e por último o que se pode apreender com os olhos, parece-me bem pobre, o mestre que só sabe fazer bem uma figura. Ora, não vês quantos e quão variados são os atos realizados pelo homem? Não vês como os animais são diversos e também as árvores, as plantas, as flores e a variedade de sítios na montanha e na planície, nascentes, rios, cidades, edifícios públicos e privados, instrumentos de uso do homem, e diferentes vestimentas, ornamentos e artes? Todas essas coisas devem ser perfeitas e bem executadas por aquele que queres chamar de bom pintor. (…)

Pintura: representar os elementos característicos das paisagens montanhosas. As ervas e as plantas terão as cores tão mais pálidas quanto mais magro e sem umidade for o terreno que as nutre. O terreno é mais magro e mais seco sobre as rochas das quais se compõem os montes. E as árvores serão tão menores e tão mais frágeis quanto mais próximas dos cumes estiverem, e o terreno tão mais magro, quanto mais se aproxima dos ditos cumes das montanhas, e o terreno fértil é tão mais abundante quanto mais próximo estiver da concavidade dos vales.

A palavra escolhida é pintor, não artista. A pintura claramente não estava dissociada das outras ciências e ofícios para Da Vinci; sabe-se que era um cientista de intensa atividade. São numerosos seus desenhos de anatomia humana, animal e botânica. Você que gosta tanto de fotos de #cats deveria pesquisar o que Da Vinci escreveu sobre os gatos (e cavalos). Dica: ele adorava gatos. Mas o que quero dizer é que quando Da Vinci pintava uma planta ao fundo de uma pintura, não era simples figuração; ele conhecia o que estava representando.

Vamos falar de alguém que não sabia o que estava representando? Brasil, 1800-1805:

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gosto muito de você leãozinho

Vamos lá: eu gosto mesmo dessa escultura. Aliás, gosto muito de todas as outras onze; eu estive lá, em Congonhas do Campo-MG, eu vi. Inclusive fiz desenhos e xilogravuras do que vi, depois eu mostro. Existe poder naquelas pedrasEste é o profeta Davi; o único das doze esculturas em que há algum consenso em ter sido executada 100% pelo mestre Aleijadinho (nas outras, dizem ser reconhecível o trabalho de seus assistentes, eu não sou um especialista). O conjunto das doze esculturas é belíssimo e merece ser visitado. Mas porque eu disse que Aleijadinho não sabia o que estava fazendo?!

Olhe para o leão. Sabemos que é um Leão pois Davi triunfou sobre os leões, apenas com o poder de sua fé. Me diga: parece um leão? Eu posso aceitar que é um leão pelo contexto, mas claramente não é um leão retratado a partir do olhar. O que quero dizer é: Aleijadinho nunca viu um leão. 100% de certeza. Em 1800-1805 a fotografia estava apenas nascendo na França e na Inglaterra; sabe-se também que ele não viajou para a África. Tudo o que Aleijadinho poderia ter eram ilustrações e descrições textuais – ambas surgidos da capacidade de imaginação de outra pessoa. Como é que ele poderia ter esculpido um leão verossímil? Mas, admitamos: é um belo leão! A maneira com que ele está rente a Davi, já submisso, se insinuando. Mas não é um leão. “Mas ele pode ter visto um leão em sonho, ter feito uma projeção astral…” Por favor, pare com isso. Lembra dos auroques da caverna de Lascaux (texto um)? Aí está a diferença entre ver e não ver.

Enquanto Aleijadinho (que era escultor, arquiteto, carpinteiro etc) trabalhava em seus profetas, um acontecimento insignificante se desenhava na Europa. Alguns senhores estavam brincando com a luz, tentando fixá-la em uma superfície. Nada de mais nessa história, fora o fato de que eles conseguiram. Com vocês, Joseph Nicéphore Niépce e a “primeira fotografia do mundo”, de 1826:

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474.981 criadores de imagens morreram quando essa imagem foi feita

É claro que ainda não estamos falando da fotografia quando a conhecemos hoje. Essa imagem demorou oito horas para ser registrada. Hoje, a cada oito horas, milhões de fotos são feitas, quase todas piores do que essa. Olhe para essa cena – há um certo mistério nela. Pode-se ver um telhado, janelas, estruturas que lembram construções, mas há um ar vago, indefinido, até mesmo sombrio. Oito horas se passaram; o Sol mudou de lugar, pássaros pousaram no telhado, nuvens surgiram e desapareceram no céu. Essa imagem desencadeou a profunda transformação da imaginação. O olhar e a sensibilidade estão aí; mas a técnica foi profundamente alterada. A mão humana desapareceu do processo de registro; isso ficou a cargo da luz e das reações químicas.

O responsável pelo surgimento da fotografia na Inglaterra (ela foi inventada praticamente ao mesmo tempo na Inglaterra e na França sem que os inventores se conhecessem) foi Henry Fox Talbot. Ele inventou a calotipia (uma técnica fotográfica) e escreveu um livro chamado The Pencil of Nature, “O Lápis da Natureza”. Ele se referia à luz, que define todas as cores e todas as formas. Mas Talbot era um tipo danadinho - ele patenteou o processo da calotipia e, para fotografar utilizando o seu método, você precisava ser nomeado um calotipista profissional pelo próprio Talbot! Depois isso foi revogado pela justiça para o “bem da ciência”. O monopólio da linguagem é um negócio (no sentido financeiro) interessante desde sempre.

Você vê o que aconteceu? Antes, quando se falando sobre imagens, um bom desenhista, escultor e/ou pintor era necessário para quase tudo. Agora, olhe o passarinho: click, clack, bang, não precisamos de vocês para quase nada. As religiões vão sempre precisar de alguém para pintar imagens dos planos divinos, mas e os anatomistas, botânicos, inventores, pintores de expedições, etc? E as coisas só tendem a piorar, com o aperfeiçoamento da técnica, a descrição física/química do universo, os microscópios e todo o resto da aparelhagem de leitura do universo. E todos os avanços da ciência convergiram em 2013 na palavra selfie. Belíssimo trabalho!

O surgimento da fotografia põe fim à necessidade da representação “realista” no desenho, na escultura, na pintura e demais linguagens ditas artísticas; aparelhos já fazem isso, e fazem muito melhor. Outro mundo que está acabando: o mundo onde as pessoas nunca viram um leão. É nesse contexto que começa a surgir um tipo de pessoa mais próxima da artista que hoje conhecemos.

Eu hoje pensei que eu poderia estar ganhando dinheiro pra escrever isso em algum outro lugar. Mas depois eu pensei que este lugar não teria pinturas aleatórias de faunos e sátiros no cabeçalho e que eu ia ser obrigado a escrever um desses rodapés ridículos “sobre o autor” que vemos nos blogs por aí. Eu disse que ia mostrar um trabalho meu nesse texto:

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Quando eu fui conhecer as doze esculturas de Aleijadinho em Congonhas, eu desenhei algumas. Esta é uma delas, que traduzi para a xilogravura. A intenção foi trazer um ar pagão a um santo cristão; traduzir o mistério rochoso que se levanta na escadaria de Congonhas. Depois de um tempo eu voltei a modificar essa imagem, acabei com a matriz, misturei stencils e latas de spray e papéis coloridos, você pode ver o resultado aqui.

Hoje eu posso fazer esse tipo de experimentação sem nada temer e sem um objetivo definido. Meus trabalhos artísticos podem existir sem que haja uma justificativa prática/social/religiosa/educativa/etc. Afinal, eu sou um artista. Mas o que sou eu mesmo? Próximo texto:

O que é um artista? Parte 3: Beethoven num caminhão de gás

Leia a parte 1 aqui