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Você pagaria 94 mil reais no letreiro de Alexandre Orion?

O que é um artista? Parte 2: o lápis da natureza

6 Mar 2014 | publicado por dedos | Comente

Então selfie foi a “palavra do ano” de 2013. Eu nunca acreditei nessas listas: o homem do ano, a mulher do ano, a palavra do ano; o alvo é sempre o seu dinheiro, mas dessa vez eu tive que prestar atenção, porque quem apontou selfie como a palavra do ano de 2013 foi Big Data, o inconsciente coletivo eletrônico feito das nossas escolhas quando estamos conectados. E a palavra que mais proliferou nas entranhas de Big Data em 2013 foi selfie. Parabéns pra nós. De todos os devaneios imaginados pela ficção científica, estagnamos nessa idade média com gadgets e hábitos narcisistas.

Likes no seu selfie te deixam feliz? Mas… e se ninguém curtir?

Eu não sou contra o auto-retrato (sou contra escrever autorretrato). Você já viu os auto-retratos de Albrecht Dürer, Rembrandt, Frida Kahlo? Já observou e se deixou observar por algum deles? Auto-retratos não são problema nenhum – apesar dessas imagens mui constrangedoras que circulam no Instagram e no Facebook etc.

Estou usando o selfie de ponto de partida por dois motivos. O primeiro é porque é algo que nós da Internet entendemos bem, praticantes ou não; o segundo é para trazer à tona o fato de que pessoas, todas as pessoas, estão produzindo imagens. Vamos focar nesse aspecto e deixar o narcisismo – outro tema que eu adoro – para outro dia. 

Você postou um selfie hoje. O que você fez? Você matou um artista de fome. Para entender como isso aconteceu, será necessário viajarmos no tempo novamente. Eu sei que ninguém liga para mais nada que não tenha se passado nos últimos dois dias, mas o que eu posso fazer? Sou um saudosista. Mentira, eu tenho problemas com a indústria cultural.

eckhout - tapuia

“eu tive um dia difícil”

Eu adoro essa pintura, datada de 1643. Gosto dela principalmente porque é traiçoeira.

Albert Eckhout foi um artista que viveu no Brasil durante a ocupação holandesa. Nessa época de expedições ultramarinas, artistas eram uma presença constante nos navios; eram os incumbidos de fazer registros visuais e levá-los de volta ao velho continente, para os que lá ficaram pudessem imaginar o novo mundo. Imagine um mundo onde as imagens, todas as imagens, eram frutos da capacidade de imaginação de alguém.

Com imaginação eu não quero dizer capacidade de sonhar acordado com unicórnios ou entrevistas de TV, eu falo do conjunto: olhar, sensibilidade e técnica. Isso não é poder? Observemos:

  1. Você acha que essa índia tem feições indígenas? Eckhout devia estar acostumado a ver européias e talvez pintá-las, e deixou transparecer esse fato nesse rosto que quase nada tem de indígena;
  2. A pose, tipicamente forçada, provavelmente no intento de mostrar o máximo possível do corpo. Repare nas manchas e machucados nas pernas, braço e abdomen; o artista escolheu inclui-las: esse povo indígena não tem uma vida civilizada e protegida de eventuais escoriações;
  3. A mão e o pé decepados. A despeito da pose, que carrega certa dignidade, jamais podemos ver esses seres como humanos civilizados – são canibais. E provavelmente andam por aí carregando membros de seus futuros jantares. Repare como a vítima dessa índia estava batendo um cigarro no cinzeiro no momento em que sua mão foi decepada;
  4. Um pênis verde ereto aponta para o Sol por detrás das nuvens; Deus está ofuscado, o Sol divino ainda não brilhou com toda sua força nesse continente, a despeito de sua presença. Ele está lá, mas ainda são opacos os seus raios nessa terra de canibais. O verdor do falo representa a religião que ainda está por amadurecer. (É claro que eu inventei isso, mas é precisamente isso que muitos críticos e curadores continuam fazendo em seus textos sobre arte contemporânea).
  5. Não quero falar sobre o cachorro.

Esse foi um exemplo (com uma certa licença poética, é verdade) para ilustrar o seguinte fato: até meados do século XIX, artistas estavam em qualquer lugar onde imagens precisassem ser criadas. Um anatomista dissecando o corpo humano? Lá está um artista desenhando ossos e órgãos internos. Um inventor criou algo novo? Chame um artista, eu preciso dos desenhos para a patente (era comum que o inventor e o artista fossem a mesma pessoa). Um engenheiro projetando um novo mecanismo; um biólogo registrando novas espécies… Sem falar em retratistas, pintores pagos pelas igrejas (para criar as pinturas sem assinatura de que falamos no texto um) etc. Eram numerosos os ofícios que contavam com a habilidade de algum criador de imagens.

Provavelmente esse tipo de contexto permitia que pessoas como Da Vinci aparecessem – era preciso um pouco (muito) de cientista, de artista, de filósofo, de pedreiro, de artesão, tudo em uma mesma pessoa. No Tratado da Pintura escrito por Da Vinci consta o seguinte:

O pintor não é digno de louvor se não for universal. Pode-se dizer claramente que se enganam aqueles que chamam de bom mestre o pintor que executa bem apenas uma cabeça ou figura. Não é um grande feito, estudando uma única coisa durante toda a sua vida, alcançar alguma perfeição; mas nós, sabendo que a pintura abarca e contempla todas as coisas que a natureza produz e tudo o que criou a operação fortuita do homem, e por último o que se pode apreender com os olhos, parece-me bem pobre, o mestre que só sabe fazer bem uma figura. Ora, não vês quantos e quão variados são os atos realizados pelo homem? Não vês como os animais são diversos e também as árvores, as plantas, as flores e a variedade de sítios na montanha e na planície, nascentes, rios, cidades, edifícios públicos e privados, instrumentos de uso do homem, e diferentes vestimentas, ornamentos e artes? Todas essas coisas devem ser perfeitas e bem executadas por aquele que queres chamar de bom pintor. (…)

Pintura: representar os elementos característicos das paisagens montanhosas. As ervas e as plantas terão as cores tão mais pálidas quanto mais magro e sem umidade for o terreno que as nutre. O terreno é mais magro e mais seco sobre as rochas das quais se compõem os montes. E as árvores serão tão menores e tão mais frágeis quanto mais próximas dos cumes estiverem, e o terreno tão mais magro, quanto mais se aproxima dos ditos cumes das montanhas, e o terreno fértil é tão mais abundante quanto mais próximo estiver da concavidade dos vales.

A palavra escolhida é pintor, não artista. A pintura claramente não estava dissociada das outras ciências e ofícios para Da Vinci; sabe-se que era um cientista de intensa atividade. São numerosos seus desenhos de anatomia humana, animal e botânica. Você que gosta tanto de fotos de #cats deveria pesquisar o que Da Vinci escreveu sobre os gatos (e cavalos). Dica: ele adorava gatos. Mas o que quero dizer é que quando Da Vinci pintava uma planta ao fundo de uma pintura, não era simples figuração; ele conhecia o que estava representando.

Vamos falar de alguém que não sabia o que estava representando? Brasil, 1800-1805:

Congonhas_sanctuary_of_Bom_Jesus_prophet_Daniel

gosto muito de você leãozinho

Vamos lá: eu gosto mesmo dessa escultura. Aliás, gosto muito de todas as outras onze; eu estive lá, em Congonhas do Campo-MG, eu vi. Inclusive fiz desenhos e xilogravuras do que vi, depois eu mostro. Existe poder naquelas pedrasEste é o profeta Davi; o único das doze esculturas em que há algum consenso em ter sido executada 100% pelo mestre Aleijadinho (nas outras, dizem ser reconhecível o trabalho de seus assistentes, eu não sou um especialista). O conjunto das doze esculturas é belíssimo e merece ser visitado. Mas porque eu disse que Aleijadinho não sabia o que estava fazendo?!

Olhe para o leão. Sabemos que é um Leão pois Davi triunfou sobre os leões, apenas com o poder de sua fé. Me diga: parece um leão? Eu posso aceitar que é um leão pelo contexto, mas claramente não é um leão retratado a partir do olhar. O que quero dizer é: Aleijadinho nunca viu um leão. 100% de certeza. Em 1800-1805 a fotografia estava apenas nascendo na França e na Inglaterra; sabe-se também que ele não viajou para a África. Tudo o que Aleijadinho poderia ter eram ilustrações e descrições textuais – ambas surgidos da capacidade de imaginação de outra pessoa. Como é que ele poderia ter esculpido um leão verossímil? Mas, admitamos: é um belo leão! A maneira com que ele está rente a Davi, já submisso, se insinuando. Mas não é um leão. “Mas ele pode ter visto um leão em sonho, ter feito uma projeção astral…” Por favor, pare com isso. Lembra dos auroques da caverna de Lascaux (texto um)? Aí está a diferença entre ver e não ver.

Enquanto Aleijadinho (que era escultor, arquiteto, carpinteiro etc) trabalhava em seus profetas, um acontecimento insignificante se desenhava na Europa. Alguns senhores estavam brincando com a luz, tentando fixá-la em uma superfície. Nada de mais nessa história, fora o fato de que eles conseguiram. Com vocês, Joseph Nicéphore Niépce e a “primeira fotografia do mundo”, de 1826:

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474.981 criadores de imagens morreram quando essa imagem foi feita

É claro que ainda não estamos falando da fotografia quando a conhecemos hoje. Essa imagem demorou oito horas para ser registrada. Hoje, a cada oito horas, milhões de fotos são feitas, quase todas piores do que essa. Olhe para essa cena – há um certo mistério nela. Pode-se ver um telhado, janelas, estruturas que lembram construções, mas há um ar vago, indefinido, até mesmo sombrio. Oito horas se passaram; o Sol mudou de lugar, pássaros pousaram no telhado, nuvens surgiram e desapareceram no céu. Essa imagem desencadeou a profunda transformação da imaginação. O olhar e a sensibilidade estão aí; mas a técnica foi profundamente alterada. A mão humana desapareceu do processo de registro; isso ficou a cargo da luz e das reações químicas.

O responsável pelo surgimento da fotografia na Inglaterra (ela foi inventada praticamente ao mesmo tempo na Inglaterra e na França sem que os inventores se conhecessem) foi Henry Fox Talbot. Ele inventou a calotipia (uma técnica fotográfica) e escreveu um livro chamado The Pencil of Nature, “O Lápis da Natureza”. Ele se referia à luz, que define todas as cores e todas as formas. Mas Talbot era um tipo danadinho - ele patenteou o processo da calotipia e, para fotografar utilizando o seu método, você precisava ser nomeado um calotipista profissional pelo próprio Talbot! Depois isso foi revogado pela justiça para o “bem da ciência”. O monopólio da linguagem é um negócio (no sentido financeiro) interessante desde sempre.

Você vê o que aconteceu? Antes, quando se falando sobre imagens, um bom desenhista, escultor e/ou pintor era necessário para quase tudo. Agora, olhe o passarinho: click, clack, bang, não precisamos de vocês para quase nada. As religiões vão sempre precisar de alguém para pintar imagens dos planos divinos, mas e os anatomistas, botânicos, inventores, pintores de expedições, etc? E as coisas só tendem a piorar, com o aperfeiçoamento da técnica, a descrição física/química do universo, os microscópios e todo o resto da aparelhagem de leitura do universo. E todos os avanços da ciência convergiram em 2013 na palavra selfie. Belíssimo trabalho!

O surgimento da fotografia põe fim à necessidade da representação “realista” no desenho, na escultura, na pintura e demais linguagens ditas artísticas; aparelhos já fazem isso, e fazem muito melhor. Outro mundo que está acabando: o mundo onde as pessoas nunca viram um leão. É nesse contexto que começa a surgir um tipo de pessoa mais próxima da artista que hoje conhecemos.

Eu hoje pensei que eu poderia estar ganhando dinheiro pra escrever isso em algum outro lugar. Mas depois eu pensei que este lugar não teria pinturas aleatórias de faunos e sátiros no cabeçalho e que eu ia ser obrigado a escrever um desses rodapés ridículos “sobre o autor” que vemos nos blogs por aí. Eu disse que ia mostrar um trabalho meu nesse texto:

patodicus-black

Quando eu fui conhecer as doze esculturas de Aleijadinho em Congonhas, eu desenhei algumas. Esta é uma delas, que traduzi para a xilogravura. A intenção foi trazer um ar pagão a um santo cristão; traduzir o mistério rochoso que se levanta na escadaria de Congonhas. Depois de um tempo eu voltei a modificar essa imagem, acabei com a matriz, misturei stencils e latas de spray e papéis coloridos, você pode ver o resultado aqui.

Hoje eu posso fazer esse tipo de experimentação sem nada temer e sem um objetivo definido. Meus trabalhos artísticos podem existir sem que haja uma justificativa prática/social/religiosa/educativa/etc. Afinal, eu sou um artista. Mas o que sou eu mesmo? Próximo texto:

O que é um artista? Parte 3: Beethoven num caminhão de gás

Leia a parte 1 aqui

Marcel Duchamp – The creative act – 1957

30 Oct 2010 | publicado por dedos | 1 comentário
Rose Sélavy (Marcel Duchamp). 1921. Photograph...
Image via Wikipedia

Let us consider two important factor, the two poles of the creation of art: the artist on one hand, and on the other the spectator who later becomes the posterity.

To all appearances, the artist acts like a mediumistic being who, from the labyrinth beyond time and space, seeks his way out of a clearing.

If we give the attributes of a medium to the artist, we must them deny him the state of consciousness on the esthetic plane about what he is doing or why he is doing it. All his decisions in the artistic execution of the work rest with pure intuition and cannot be transrelated into a self-analysis, spoken or written, or even thought out.

T. S. Eliot, in his essay on “Tradition and Individual Talent”, writes: “The more perfect the artist, the more completely separate in him will be the man who suffers and the mind which creates; the more perfectly will the mind digest and transmute the passions which are its material.”

Millions of artists create; only a few thousands are discussed or accepted by the spectator and many less again are consecrated to posterity.

In the last analysis, the artist may shout from all the rooftops that he is a genius; he will have to wait for the verdict of the spectator in order that his declarations take a social value and that, finally, posterity includes him in the primers of Art History.

I know that this statement will not meet with the approval of many artists who refuse this mediumistic role and insist on the validity of their awareness in the creative act – yet, art history has consistently decided upon the virtues of a work of art through considerations completely divorced from the rationalized explanations of the artist.

If the artist, as a human being, full of the best intentions towards himself and the whole world, plays no role at all in the judgement of his own work, how can one describe the phenomenon which prompts the spectator to react critically to the work of art? In other words how does this reaction come about?

This phenomenon is comparable to a transference from the artist to the spectator in form of an esthetic osmosis taking place through the inert matter, such as pigment, piano or marble.

But before we go further, I want to clarify our understanding of the word “art” – to be sure, without an attempt to a definition.

(more…)

Georges Mathieu – Birth and death of signs

30 Oct 2010 | publicado por dedos | Comente
  1. The first stage is the quest for signs as signs. It is an adventure directed towards the discovery of means of expression and the early beginnings of structuration.
  2. The second stage is the recognition of signs, that is to say, the realisation of their incarnation. Here the signs reach their maximum power. Meaning and style are realised.
  3. At the third stage the signs, loaded with recognized and accepted meanings, have reached complete identification with their significance. This is the period of academic formalism. (The purpose achieved without experiment, through known and exploited means).
  4. When these three stages have been passed through, the next stage is that of the refinement of signs, of the addition of elements which add nothing to the meaning. It is the period of exaggeration and deformation, as in baroque. Of this stage naive “sur-figuration”, expressionism, descriptive surrealism, etc., are the outcome.
  5. The fifth stage is that of deformation to the point where the signs have been wholly destroyed. (The work of Picasso is an excellent illustration of this stage).
  6. We now arrive to the last stage. To be precise, this is the stage which goes beyond Form, that is, the utilisation of means of expression which have no possible intent (except of a purely dialectical character). It is the moment which precedes and anticipates new turning-points, when one has reached unbounded horizons, in full anarchy, beyond bondage and quite free. It is an intermediary stage, no less useful than the sacrifice of ants drowning themselves so that others can continue their march over the dead bodies…

STILES, Kristine e SELZ, Peter (org.). Theories and Documents of Contemporary Art: A sourcebook of Artists Writings. Los Angeles: Univ. of Calif. Press, 1996.

Frank Stella – The Pratt Lecture – 1960

30 Oct 2010 | publicado por dedos | Comente
NYC - MoMA - Frank Stella's Empress of India
Image by wallyg via Flickr

There are two problems in painting. One is to find out what painting is and the other is to find out how to make a painting. The first is learning something and the second is making something.

One learns about painting by looking at and imitating other painters. I can’t stress enough how important it is, if you are interested at all in painting, to look and to look a great deal at painting. There is no other way to find out about painting. After looking comes imitating. In my own case it was at first largely a technical immersion. How did Kline put down that color? Brush or knife or both? Why did Guston leave the canvas bare at the edges? Why did H. Frankenthaler use unsized canvas? And so on.

Then, and this was the most dangerous part I began to try to imitate the intellectual and emotional processes of the painters I saw. So that rainy winter days in the city would force me to paint Gandy Brodies as a bright clear day at the shore would invariably lead me to De Staels. I would discover rose madder and add orange to make a Hofmann. Fortunately, one cand stand only so much of this sort of thing. I got tired of other people’s painting and began to make my own paintings. I found, however, that I not only got tired of looking at my own paintings but that I also didn’t like painting them at all. The painterly problems of what to put here and there and how to do it to make it go with what was already there, became more and more difficult and the solutions more and more unsatisfactory. Until finally it became obvious that there had to be a better way. (more…)