Carta com destinatário desconhecido, encontrado em meio à coisas antigas

26 Oct 2015 | publicado por dedos | Comente

Na minha lista de coisas que perderam o sentido, sua face e meu hábito de sonhar com ela ocupam as duas primeiras posições.

Mesmo sabendo que cuspirias em meu rosto ao encontrar-me na rua, escuto teus conselhos em estado onírico e acredito em suas palavras comedidas.

Tanta polidez e tanta paciência me causariam náuseas em estado desperto, mas nestes sonhos eu apenas escuto e concordo balançando moderadamente com a cabeça.

Mas estes gestos polidos e equilibrados jamais foram parte de nosso repertório/ e eu sei que os leões estão apenas momentaneamente saciados com tua distância.

Tornar-me um homem morno habituado a seus desvarios lascivos e compreensivo em relação à futilidade de teus desejos?

Tornar-me um homem contemporâneo, libidinoso e insensível a essa ciranda sinistra de corpos em chamas?

Tornar-me um homem mineral, de pedra bruta e não-lisa, que vaga pelo mundo já sem perceber os encantos da dança?

Estes são os três itens da minha lista precedida pela tua face e meus sonhos, e espero que sejas minimamente sensata para perceberes que: se tua face e meus sonhos ocupam a mesma frase, é porque os leões ainda estão à solta.

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