Pesadelo na fábrica de embalagens

16 May 2014 | publicado por dedos | Comente

Imagine a cadeia de produção de um objeto que faz parte de um conjunto mais amplo de objetos; por exemplo, a embreagem de um automóvel.

Para produzir a embreagem é necessária a aquisição de matéria-prima; a matéria bruta será processada e usinada para que atinja a sua forma final, pronta para ser introduzida na linha de montagem do automóvel.

No entanto, não se trata de um processo simples; é preciso investir na fábrica, pagar o aluguel e os impostos; contratar funcionários, garantir a sua segurança e os benefícios garantidos pelas leis trabalhistas.

É necessário também investir em maquinário e ferramentas, o que implica em custos de manutenção e revisão; além disso é preciso investir em um processo adequado de descarte de lixo e de quaisquer resíduos indesejáveis do processo.

Acrescente-se a isso custos administrativos, recursos primários (água, gás, luz), mais a solução de eventuais imprevistos, custos de transporte de recursos e pessoas, e o resultado será um volumoso aporte financeiro para consumar a fabricação da embreagem.

Imagine então que, mesmo diante de tantos custos e um ambiente fiscal burocrático com taxas proibitivas, você persistiu: sua fábrica de embreagens é uma realidade e a primeira embreagem foi produzida. É o momento de inseri-la no mercado, oferecê-la para as montadoras de automóveis.

No entanto, as montadoras tem demandas muito específicas; cada detalhe da embreagem é verificado, da densidade e espessura dos materiais até as empresas que forneceram os materiais utilizados em sua fábrica. Após meses de escrutínio, finalmente, a embreagem foi aprovada e aceita em uma grande linha de produção de automóveis, uma das mais prestigiadas. No entanto, falta um detalhe.

A empresa que produz os automóveis exige que as embreagens sejam entregues em uma embalagem específica. Felizmente, essa mesma empresa oferece o serviço de embalagem. Você submete, então, as embreagens para serem embaladas, o que, evidentemente, tem um custo.

Alguns dias depois, um telefonema: as embalagens ficaram prontas. Rapidamente, você se dirige ao depósito para recolher as embreagens, agora embaladas. Chegando lá, há uma espécie de balcão; atrás do balcão, há um funcionário; ou seria uma funcionária? Você tateia pelos seus óculos, pensando tê-los deixado em casa, mas não, eles estão pousados em sua face. A visibilidade por detrás do balcão é muito baixa, e agora você sequer tem certeza de ter visto alguém ali. Agora em dúvida se veio ao local correto, você se prepara para ir embora, quando uma voz difusa, monótona, começa a ressonar por detrás do balcão:

As embreagens submetidas estão propriamente embaladas e prontas para integrar nossa linha de produção; é necessário, agora, pagar a taxa de integração. Ademais, nossa indústria de embalagens agora retém todos os direitos de uso de suas embreagens. Você não poderá oferecê-las para outras indústrias ou pessoas. Além disso, para que você possa produzir mais embreagens idênticas a essa, será necessário pagar uma taxa de licenciamento.

Nesse ponto do discurso, a fúria já tomou conta de você; as memórias de todo o dinheiro investido na produção de embreagens, e de todas as dificuldades enfrentadas ao longo do processo, desfilam em sua mente como um filme. Como, após tudo isso, é possível que a fábrica de embalagens simplesmente se aproprie do fruto de seu trabalho? Você está procurando o número do seu advogado em seu telefone. Mas a voz metálica do balcão ainda está falando:

Finalmente, mas não menos importante: todo o lucro vendido com a venda de suas embreagens será repassado à indústria de embalagens.

Nesse momento, você perde o controle e atira o seu telefone ao chão. Que tipo de absurdo é esse? A embalagem sequer é um componente do seu produto, nem é necessária para produzir um carro! Por que deixar que essa indústria se aproprie de suas embreagens, resultado de um longo trabalho, muitos testes e elevados investimentos?

Você começa a procurar alternativas em sua mente; anda em círculos, reconstrói seu telefone. Você repara que, no balcão, há um contrato; você não lembra de tê-lo visto antes. Passam-se alguns momentos. Silêncio atrás do balcão. Eis que, de repente, algo muito estranho acontece: você assina o contrato. Afinal, é uma montadora de prestígio que vai utilizar suas embreagens; outros fabricantes e empreendedores certamente hão de notar a presença de suas peças naquela linha de montagem. Essas e outras justificativas semelhantes, aliadas ao seu cansaço e à sensação de absurdo, são o suficiente para que você assine a carta de cessão de direitos que surgiu no balcão.

No caminho para casa, você tenta entender o que houve; longas noites em claro de reflexões se passam, sem nada conclusivo surgir em seus pensamentos.

Um dia uma notícia no telejornal chama sua atenção: a indústria de embalagens lucrou bilhões naquele ano. Você desliga o televisor. A sua fábrica de embreagens está enfrentando tempos difíceis e severas restrições orçamentárias, há muito trabalho a fazer; melhor não perder tempo em frente à televisão.

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