Do protesto à pornografia

14 Apr 2014 | publicado por dedos | Comente

Logo que aconteceu o evento/protesto “Toplessaço”, no RJ, eu fiquei impressionado com a foto abaixo. Fiquei tentado a escrever sobre o assunto. Mas não escrevi, resolvi esperar. A espera acabou se justificando, pois a indústria cultural tardou, mas não falhou, em confirmar minhas mais trágicas suspeitas. Primeira imagem:

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a mídia sendo a mídia

Quando eu vi essa foto e todas as reportagens a respeito, eu pensei que esse evento provavelmente seria utilizado pela mídia para gerar dinheiro. Todos os protestos de hoje em dia estão sendo transformados em grandes eventos, big business; se você for à essas manifestações para protestar, sua maior chance de sucesso é causar algum tipo de prejuízo financeiro. Como por exemplo: deixar a cidade entregue ao lixo. Caso contrário, você será apenas parte de mais um case midiático.

Eu menti. Você será parte de um case midiático de qualquer maneira.

Voltando ao toplessaço no Rio de Janeiro; eu suspeitava, desde o início, que esse evento seria aproveitado pela indústria cultural. Eu só não esperava que fosse ser tão rápido, e de maneira tão escancarada. Uma das manifestantes do toplessaço foi recrutada pela Globo para posar nua. Um absurdo? Aparentemente não; ela aceitou. 

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poderia ser qualquer uma, ela não é o mais importante

Eu já sei o que você está pensando: “Mas isso vai trazer mais visibilidade para o movimento. O toplessaço está na mídia! Ela tem até um nome: Musa do Toplessaço.” - Pare com isso. Pense no que você acabou de dizer. Vamos com calma. Vai ser feio.

Se eu tivesse um cargo de prestígio na mídia, ou na polícia, eu contrataria uma equipe somente para ficar entrando em páginas de protestos no Facebook. Eu faria o seguinte pedido: façam um levantamento de quem são esses protestantes, quero saber tudo:

  • Distribuição de idade e gênero;
  • Endereço residencial/profissional/etc;
  • Orientação sexual;
  • Marcas que consomem, páginas que curtem, etc;
  • Profissão;
  • Nível de escolaridade;
  • Orientação política;
  • Poder de consumo;
  • Nível de alfabetização;
  • Com que frequência usam a Internet;
  • Para que usam a Internet;
  • Quantos realmente comparecem aos eventos;
  • etc.

Mas isso não é mera especulação: já existem muitos profissionais fazendo isso. Uma pesquisa desse tipo, para levantar tantos dados de um espaço amostral tão grande, custaria caríssimo. Hoje em dia as pessoas fornecem seus dados gratuitamente. Basta saber se movimentar em meio aos dados e coletar o que é relevante.

O que aconteceu no toplessaço? Muitas pessoas confirmaram; pouquíssimas aderiram. Havia muito mais fotógrafos e repórteres do que mulheres participantes. Por que você acha que havia tantos fotógrafos assim no lugar? Será que eram necessários tantos, será que a adesão em massa era realmente aguardada?

A mídia noticiou o caso da seguinte maneira: o protesto foi um fracasso, havia muito mais mídia do que manifestantes. Isto é proposital. Uma mulher decide participar; chega lá e se depara com uma horda de fotógrafos. Eu posso estar enganado, mas eu acho que existe uma diferença considerável entre 1) fazer topless na praia e 2) fazer topless na praia com um monte de gente te fotografando e sabe-se lá deus onde estas imagens vão parar e o que vão fazer delas. Quero acreditar uma das motivações do protesto fosse demonstrar que é perfeitamente possível que mulheres não usem a parte de cima do biquini na praia, sem causar grandes tragédias ou corromper a família “de bem” etc.

Mas aquele dia não foi possível. Só foi possível o topless estilo mídia, com dezenas de fotógrafos a te perseguir; junte a isso pessoas comuns misturadas a eles tirando fotos suas para fins escusos, os curiosos de plantão, imagens que possivelmente poderiam parar na Internet… desistir não é exatamente uma má ideia. O protesto foi sufocado pela mídia. A Globo diz:

Ana Paula foi umas oito mil mulheres que confirmaram presença no evento “toplessaço”, que aconteceu em janeiro no Rio de Janeiro. Ao chegar à areia, uma surpresa: um amontoado de imprensa e curiosos e nenhuma mulher aderindo à causa. Restou a ela ser a primeira a tirar a parte de cima do biquíni e, logo, ganhar o posto de “musa do toplessaço”.

Isso é típico do estilo mídia: slogans. Rotulação ou branding, como queiram. “Mulher do ano”, “mulher mais sexy do ano”, “mulher-bife” etc etc etc etc. Musa do toplessaço. Eu queria entender como funcionou essa premiação. Na página do Facebook do protesto estava estipulado esse posto para a primeira voluntária? Havia um comitê na praia dedicado a escolher a musa? Nada disso, não existe musa do toplessaço, eles precisam disso para que eles possam vender esse ensaio fotográfico. “Mas o ensaio pode ser visto de graça na Internet!”  – isso não quer dizer que você não está pagando. “Mas se está na mídia, deve ser importante.” - (respiração profunda) Eu sei, eu sei.

O problema não é o fato de essa mulher posar nua. O problema nunca foi nudez, a arte está aí para comprovar isso. O erotismo tampouco é o problema; Robert Mapplethorpe virá atrás de você em seus sonhos, com um chicote, se você disser isso.

O problema está em acreditar que posar nua para as organizações Globo vai ajudar a causa do topless nas praias brasileiras. A Globo, da sua parte, quer que o espectador pense que a musa do toplessaço acredita nisso. Talvez ela acredite, mas ela não é importante nessa história, ela é uma ferramenta útil, e descartável por sinal – haveria uma musa do toplessaço de qualquer maneira.

Se existe a musa do toplessaço, a legalização da maconha no Brasil vai acontecer antes da legalização do topless. Você não vai ver ninguém fumando maconha na Globo; se isso acontecer, essa pessoa estará matando os pais em alguma novela.

A nudez é um mercado valiosíssimo, monopolizado pela indústria cultural há décadas. É por isso que você ouve esse tipo de frase: “nós vemos pessoas peladas o tempo inteiro na TV e não podemos tirar a roupa na praia”. A nudez de pessoas comuns expõe uma verdade brutal: a diversidade humana é imensa, não cabe nos estereótipos vendidos pela mídia. Qual o tipo de reação que você espera da mídia em relação a isso?

Seios expostos fora da mídia? Não vai acontecer. As manifestantes que aderiram foram engolidas por fotógrafos; algumas de suas fotos foram parar em portais de notícias. Uma delas ainda está com os peitos de fora, só que num site de pornô softcore de subcelebridades. É horrível, eu sei.

A indústria cultural lança celebridades e elege algumas poucas pessoas como “especiais” porque esse é o business da mídia. O que quer dizer, automaticamente, que existe um público comprando essas ideias. Quem acessa o site onde a musa do toplessaço está posando? Eu tenho quase certeza do seguinte: não é o público que consome pornografia. Esse público consome clipes de vídeos pornô na Internet, as revistas pornô estão indo à falência. O acesso ao ensaio da musa do toplessaço é gratuito, está enterrado em um site de fofocas: quem se importa? O ensaio é muito ruim, aliás. Mas é o suficiente para a indústria cultural absorver esse evento de protesto. O output é a nudez midiática, e nada de nudez ou semi-nudez pública para a população. Fica pior:

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Isso é Notícias Populares. Está tudo aí: a pornografia, a demagogia, a violência gore, o policialesco. Só falta a manchete escrachada. Esse é o público-alvo do ensaio da musa do toplessaço: o público que consome telejornais no estilo bang-bang, revistas de fofoca e programas de auditório, e não o público ávido por pornografia para a auto-satisfação. Esses estão nos tubes da Internet consumindo clipes de vídeo.

Falando em pornografia online… você já deve ter visto: roupas caem, pênis sobem, coisas acontecem, nada de muita conversa ou preliminares, onde todo o teatro culmina no orgasmo masculino. “A pornografia trata as mulheres como objetos!” Sim, isto é verdade, porém mulheres são tratadas como objetos pelos homens desde sempre. Considere que isso não é exclusividade da pornografia ou da indústria cultural. Qual é, então, a influência direta da indústria cultural e da pornografia sobre as mulheres?

Apesar de as mulheres serem retratadas como objetos sexuais, quero crer que as mulheres, em maioria esmagadora, sabem que não são objetos sexuais, mesmo que não o expressem. A propaganda não produz diz diretamente para as mulheres: você é um objeto sexual. Pelo contrário, a mídia vende produtos para mulheres com afirmações do tipo: você não é um objeto ou apenas mais uma, você é bela, poderosa, independente, então é claro que você vai querer que sua cozinha seja de primeira linha, suas roupas íntimas as mais caras, seus seios os maiores, sua barriga inexistente etc. 

Isso é uma parte do problema; a outra parte do problema, que envolve estupros, agressões, abusos, ameaças na Internet, encoxadas no metrô etc, começa quando a mensagem de “mulher = objeto” é comprada por homens.

Homens que compram essa ideia podem, ao longo do tempo, se deparar com uma realidade: as mulheres não são objetos. Como consequência inevitável da sua visão distorcida de mundo e de suas atitudes, mulheres o rejeitam, seus relacionamentos fracassam, ele está cada vez mais isolado. “Mas na pornografia é tão fácil! É só tirar a calça. Eu até tenho dinheiro!”

OK garanhão, mas… o que fazer então, na dura realidade, onde as mulheres não são objetos e não te querem porque você é um imbecil? Qual o próximo passo? Trancado em sua própria ignorância, talvez possam surgir soluções como, não sei… sacar o pênis para fora dentro do metrô? Criar um clube de encoxadores, um site misógino, violentar alguém? Fazer terrorismo na Internet, comentários agressivos em fotos etc? Qual a próxima invenção? Para esse tipo de sujeito, o problema está no mundo, nas mulheres, nos problemas da sociedade, na perversão dos valores, no comunismo, onde quer que seja.

“Mas na pesquisa do IPEA a maioria das respostas machistas vieram de mulheres!” - foda-se o IPEA, essa pesquisa foi um desastre, a começar pelas questões. Mas essa pesquisa e o toplessaço acabaram tendo seus destinos laçados um ao outro. Quer ver onde foi parar o toplessaço? Eu vou citar uma matéria cujo subtítulo é o seguinte: Protesto online motivado pela pesquisa do IPEA convoca selfies de topless contra o estupro. O grifo é meu:

Nana disse ao Brasil Post que teve a ideia quando viu o resultado da pesquisa, inspirada na Marcha das Vadias e no grupo russo Pussy Riot. “A ideia é que a gente tire a roupa e se fotografe, da cintura para cima, com um cartaz tampando os seios com os dizeres “Eu também não mereço ser estuprada” e postemos, todas juntas, ao mesmo tempo, online. Quem tá dentro?”, diz a descrição do evento. Quem não quiser fazer topless pode aparecer vestida, o importante é postar a foto com a hashtag #EuNãoMereçoSerEstuprada no seu perfil do Facebook às 20h.

OK, é tipo um topless, mas cobrindo os seios, ou seja, não é um topless, muito embora esteja sem sutiã. Mas por que? Eu tenho dois palpites, um não elimina o outro e os dois funcionam juntos:

1) Qualquer mulher tem muitas razões para não querer mostrar os seios na Internet. Seja por razões íntimas ou de privacidade, auto-confiança etc, seja por razões de segurança, existe porque se preocupar. Mesmo com os seios tampados, as participantes desse protesto online foram vítimas da hostilidade e ignorância de hordas de trolls, misóginos, machistas etc. Imagine se estivessem com os seios à mostra. Melhor: não imagine.

2) Elas estão tampando os seios porque o Facebook não permite seios à mostra. Pegue uma bebida, medite nessa frase.

Por que fazer um protesto sobre o corpo da mulher em uma rede social que, notadamente, já baniu fotos de mulheres amamentando, por exemplo? Porque fatos como esse não fizeram as pessoas procurarem outra alternativa de rede social? O teor e a intensidade dos protestos sempre varia, mas a única constante é o Facebook. Por exemplo, nesse protesto online, para várias mulheres mostrar os seios seria sim uma opção, mas a forma do protesto teve de ser pré-formatada para caber no Facebook.

O que quer dizer também que seus dados serão vendidos para anunciantes que também são a indústria cultural. Mesmo que você esteja compartilhando conteúdos políticos contrários aos interesses da mídia, a mídia estará lá registrando, e dará o melhor de si para te oferecer algo que, finalmente, você queira comprar. Ou algo que você esteja disposta a fazer.

toplessaço começou nas praias, ao ar livre, em público, e foi parar na Internet, com os seios tampados, atraindo o ódio de milhares de machistas/misóginos/imbecis anônimos, escondidos atrás de um computador. Ah, mas a musa do toplessaço está nua na Internet. Se sente melhor agora? É claro que não. A proporção de uma mulher nua (na mídia) para milhões de mulheres proibidas de deixarem a parte de cima do biquini em casa continua.

Para que esse tipo de manifestação tenha sucesso, é urgente que os impactos sejam sentidos no tecido da sociedade, no cotidiano, as ideias convertidas em ações. Meu palpite é que para o topless nas praias começar a ser discutido a sério no Brasil, com possibilidades reais de mudança, mulheres tenham que começar a fazê-lo espontaneamente, em qualquer dia, em qualquer praia, a qualquer momento. Até que não haja fotógrafos o suficiente para cobrir todos os casos, até que não haja policiais o suficiente para prender todas as mulheres. É claro que estamos diante de um problema enorme aqui: se eu sou mulher e faço topless na praia, no Brasil, quantos minutos até começarem os insultos, os abusos, as abordagens violentas, os estupros?

Compartilhar no Facebook, ou em qualquer rede massivamente monitorada, não vai resolver este problema. Pelo contrário, eu acho que ele só tende a aumentar, quanto mais seja veiculado no Facebook e na grande mídia (assunto pra outro texto). No momento, infelizmente, a solução mais realista está próxima de algo como “porte de armas para mulheres” – nesse nível. Eu adoraria estar brincando em relação a isso. 

(não há conclusão possível para esse texto)

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Considerações :

1a) Eu relutei muito em publicar esse texto, e não consegui conclui-lo de maneira digna. O assunto do meu blog é principalmente indústria cultural e arte, é a primeira vez que adentro o campo das questões de gênero. Eu tenho um pênis no meio das pernas e não sou feminista – mas também não me considero machista – o que não quer dizer nada, nós somos o que fazemos e não o que dizemos que fazemos. O “feminismo para homens“, na minha visão, é igual a “não seja um imbecil”, muito embora isso pareça uma tarefa hercúlea para muitos. Tudo isso considerado, o foco do texto é, realmente, a indústria cultural e como ela se comporta quando um ativo muito valioso para essa indústria – a nudez feminina – corre o risco de se tornar domínio público.

1b) Eu fui, ao longo dos anos, treinado para tentar ler o verso da superfície da mídia; eu fui acompanhando os casos que citei no texto por meio do que chegava pra mim via Facebook. Eu fiz algumas previsões pra mim mesmo e, infelizmente, todas elas foram se confirmando com o passar dos dias (o que não me deixou feliz). Escrever esse texto foi uma experiência difícil e muito arrastada, e estou feliz de não ter mais que mexer nele;

1c) Decidi conectar esses eventos (toplessaço -> musa do toplessaço -> toplessaço no Facebook) como uma tentativa de mostrar que nem a mídia, nem o Facebook, nem o IPEA e nem essa guerra de compartilhamentos estão ajudando as mulheres a conquistar o direito de fazer topless na praia (algo trivial, nada de outro mundo, mas aqui estamos). Meu corpo, minhas regras: eu sou completamente a favor. Mas, infelizmente, essa questão está longe de estar no campo da opinião apenas.

2) Perguntaquando a mídia (Internet, TV, etc) noticia um caso de abuso sexual no metrô, por exemplo, ela está aumentando a probabilidade de acontecerem abusos semelhantes? Minha opinião: sim. 

3) A seção de comentários está desativada de propósito para esse post. Eu sei muito o bem o tipo de pessoa que eu posso atrair com esse texto, e além disso, 1) eu faço o tipo reservado e 2) as pessoas podem discutir nas redes sociais, nos bares e etc.

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