A busca pela felicidade é uma farsa

17 Mar 2014 | publicado por dedos | Comente

Dia desses eu comi um pastel gorduroso que ficou entalado na minha garganta; comprei, então uma lata de Coca-Cola. Nela estava escrita a palavra: Felicidade. Esta palavra não significa mais nada, está morta – do contrário, jamais poderia ser estampada aos milhões em uma lata de refrigerantes. Isso não é mística, isso é economia, isso é teoria da comunicação. De onde chegamos à conclusão de que, ao mesmo tempo, ela está se tornando a palavra mais valiosa de todas, para a felicidade da indústria. Gostou do trocadilho? Foi péssimo, eu sei.

Voltando à felicidade: se eu posso estampar essa palavra em uma lata de refrigerante, numa marca de supermercados, num pote de margarina ou em qualquer outro produto, é porque existe algum consenso em torno dessa palavra, uma espécie de entendimento comum onde “feliz” = bom, “infeliz” = não-bom. Na verdade isso chama-se redundância – quando uma mensagem possui zero ou quase zero de informação nova.

Ah sim, existe uma segunda dimensão desse pensamento, onde “feliz” = lucrativo, e “infeliz” = mais lucrativo ainda.  Tente imaginar a água da sua descarga girando ao mesmo tempo nos dois sentidos. Eles fabricam Rivotril com essa água. Cerveja também.

Agora, espere um pouco, eu garanto que não sou um sujeito deprimido e rancoroso destilando meu veneno contra a humanidade de um quarto escuro. Se você me convidar para conhecer sua casa ou dar uma volta, eu irei com o maior prazer, daremos risadas e será ótimo; o problema não é, de modo algum, viver momentos felizes.

O problema é a compreensão da palavra felicidade que se tornou o lugar comum. “Dinheiro não traz felicidade, todo mundo sabe disso”. Eu sei, eu li todos esses textos que você leu, horríveis por sinal. “Largou tudo pra ser feliz”, bla-bla-bla. Palestras do Steve Jobs: trabalhar com o que você gosta = felicidade. Sério, eu vi tudo isso, o que quer dizer que tudo isso era pra mim também. Céus, me sinto péssimo. Isso não deve ser coincidência.

Eu vou deixar você fazer essa pesquisa: digite “gente feliz” no Google imagens. Eu tive que olhar de novo pra ver se eu não tinha digitado “um bando de idiotas jogando as mãos pro alto, gargalhando sem motivo aparente” porque é justamente isso que o Google cospe para “gente feliz”. Mas isso é ilustrativo.

Se estamos falando sobre “felicidade”, estamos automaticamente falando sobre “infelicidade”, ou “tristeza”, isso acontece 100% das vezes. A felicidade, assim como qualquer valor de natureza humana, é dual, projeta uma sombra. Vou tentar reescrever um conto zen-budista que eu ouvi em uma certa ocasião, muito belo, para ilustrar o que eu quero dizer a seguir:

O mestre de um templo zen-budista no Japão havia falecido. No cortejo fúnebre, muitas flores e cânticos; um clima leve pairava no ambiente. Os monges e pessoas que atendiam a cerimônia haviam absorvido muitos dos ensinamentos do mestre, e sabiam que a vida era passageira. O mestre havia morrido em paz; não foi uma morte sofrida nem dolorosa. No entanto, o discípulo mais próximo do mestre, considerado o mais sábio entre os monges, estava em prantos. Chorava, tremia e soluçava copiosamente. Os outros monges estavam perplexos; como ele, o mais sábio, cotado para ser o próximo mestre, estava em um estado tão miserável? Um deles se aproximou do monge que chorava e perguntou: “O que há contigo? Não sabe que o mestre se encontra unido novamente com a natureza e a divindade? Não há motivo para lágrimas.”

Ao que o monge que chorava respondeu: “Querido irmão, meu espírito está em paz. Quem chora são meus olhos, que não poderão mais enxergar o mestre. Quem treme é o meu corpo, que não poderá sentir a proximidade do mestre. Quem agoniza são meus ouvidos, que não mais escutarão suas palavras. Meu corpo se acostumou à presença do mestre e agora lamenta a sua partida. Eu não desejo me opor a ele; deixarei que chore, deixarei que sofra, até que se acostume à sua nova vida, longe do mestre.”

Você vê? Esse conto é muito belo:

  1. O mestre morreu. O que fazer? Claro, todos os envolvidos tinham algum nível de elevação espiritual. Um dos monges vem ao monge que chora e diz: o que você está fazendo? Do que vale todo o conhecimento que o mestre te transmitiu? Os outros monges estão olhando. Recomponha-se! Ele está preocupado com as aparências.
  2. Independente de todo o seu conhecimento, o monge que chorava não tentou distorcer a realidade; deixou seus sentimentos aflorarem e viveu o momento de maneira honesta e franca. Ele estava triste, mas estava em paz. Esta é a parte mais importante do conto. Mas nós dormimos nessa hora do filme.

Quando Nelson Mandela morreu, você compartilhou uma foto dele em alguma rede social, com uma mensagem de “valeu, Madiba!”. Mas o que você deveria ter feito é ter pensado: “o que raios eu estou fazendo com a minha vida?”. Aquele homem passou 27 anos dentro de uma prisão. Você acha que Mandela estava preocupado com felicidade nesse período? Se ele estivesse preso a um ideal de felicidade desse que nós compramos - fazer o que gosta, trabalhar com o que gosta, nos darmos o valor que merecemos etc - ele teria se matado ou enlouquecido, provavelmente os dois. Um ano após o outro, acordando no mesmo lugar, vendo as mesmas pessoas, o mesmo Sol quadrado, sem poder sair… é uma vida dura!

Mas Mandela viu algo mais nessa situação – ele não só resistiu aquele tempo todo; ele saiu e realizou grandes feitos. Ele fez o que havia para ser feito, o que a vida lhe apresentou como possibilidade. Suas quase três décadas encarcerado certamente causaram transformações profundas em seu íntimo, a ponto de declarar que não sentia ódio de seus captores, sob o risco de tornar-se igual a eles. Mas essas histórias são boas apenas para serem vistas, não é mesmo? Você quer só a felicidade, esqueça essa parte do sofrimento, da luta, da persistência. A indústria ficará muito feliz em te ajudar nessa parte. A Internet também.

Um tempo atrás várias pessoas compartilharam um link no Facebook; ele se chamava “Vale a pena largar tudo em busca da felicidade?“. Eu abro a página e BANG, lá está um hipster sorridente, ganhando um beijinho no rosto de sua namorada. Calma lá, refreie sua raiva, todos amamos odiar hipsters, mas isso também é um truque da mídia – eles são ótimos “bois de piranha”, mas deixemos isso pra outro momento. De qualquer modo, um começo mais do que suspeito. Eu começo a ler o texto e é necessário escalar uma muralha de propaganda, branding puro: casamento com uma mulher bonita e inteligente, prêmios profissionais, lua-de-mel, lançamento de livro, banda, vida em São Paulo etc.

Logo no segundo parágrafo eu já desconfiava de uma armadilha, mas no trecho a seguir eu tive certeza:

De repente, um monte de outras coisas começaram a aparecer como necessidades urgentes para que minha vida fosse plena: “você precisa comprar um carro pra ser feliz”, “você precisa comprar um pacote de viagem anual pra ser feliz”, “você precisa comprar aquele ingresso caríssimo de festival cheio de bandas (que você nunca ouviu na vida) pra ser feliz” e, finalmente, “você precisa comprar uma máquina de Nespresso pra ser feliz”.

Espere aí garotão, você quer me dizer que essas “necessidades urgentes” simplesmente pularam na sua frente, surgiram na sua vida como um fator inevitável? Aula número zero da faculdade de propaganda e marketing, extraído de um site genérico:

Um dos conceitos mais simples do Marketing é a definição do Target, o público alvo. O público alvo é o conjunto de pessoas que pretendemos chegar com a nossa mensagem. Existem diversas definições para este conceito, resumidamente é quem pretendemos que compre os nossos produtos ou serviços.

Se você está vendo, é para você. Céus, se você faz questão de explicitar a propaganda da Nespresso, é muito possível imaginar o tipo de mídia que você anda consumindo e a categoria de público-alvo da qual você faz parte. A essa altura do texto eu estava tentando montar o quebra-cabeça, mas não precisei me esforçar, o mapa das peças foi fornecido algumas linhas depois:

Sim, porque eu (que era editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem da Editora Abril) e a Karin Hueck (que era editora da SUPERINTERESSANTE) pedimos demissão no começo de agosto e acabamos de mudar temporariamente para Berlim (a atual “capital mundial da criatividade”) para tocarmos essa investigação.

Ugh. Por onde começar? Editora Abril? “Mas não é aquela que edita a revista V…” Shh, fale baixo, já está constrangedor o suficiente. Mudar para Berlim para investigar a felicidade? OK, agora era o momento em que eu esperava algum tipo de método, alguma proposta, diga o que você vai fazer em Berlim para tocar essa “investigação” – mas não, nada disso, talvez isso, talvez aquilo e a chave de ouro do texto (sim, fica pior):

 O que oferecemos para vocês é uma carona na nossa viagem de busca por respostas que possam levar à felicidade. Porque – como ensina o filme “Na Natureza Selvagem” – “a felicidade só faz sentido quando é compartilhada”.

Se você está aprendendo coisas com filmes de Hollywood, feche as portas, apague a luz, você é mídia dos pés à cabeça. A última frase dessa parte é reveladora. Felicidade compartilhada: não no sentido de “venha almoçar na minha casa” mas no sentido de “olhe a foto do que eu fiz no almoço, ficou linda com esse filtro”. Esse site se chama Gluck Project – isso é século XXI, a “felicidade” como um projeto. Há textos com títulos típicos de revistas sensacionalistas: como ser feliz no trabalho, como deixei de ser corrupta (?!)como a psicologia pode ajudar, como ter um corpo perfeito para o verão etc. “Mas o título sobre o corpo de verão era irônico.” Mas você leu de qualquer jeito, não? Eu li. É assim que funciona.

Esse site é um produto da mídia; eles dizem ter abandonado os empregos na Abril, porém o site é repleto de links para matérias de seus antigos trabalhos. Você pode abandonar a mídia, mas a mídia não abandona você. Gostaram dessa? Dá uma boa tatuagem. Aliás, eles já colocaram no site o link “Na mídia”, onde você pode ver o que andaram falando na mídia sobre o projeto, que não é sobre felicidade, de modo algum, é sobre eles mesmos. Aliás, é a mesma mídia que vendeu as propagandas que nosso amigo tanto questionou, inclusive a máquina Nespresso – lembra da água privada girando nos dois sentidos ao mesmo tempo?

Todos esses discursos midiáticos sobre felicidade são embustes, simplesmente porque ser feliz é análogo a um dia eterno de Sol; no começo é gostoso, mas você vai sentir falta de ver as estrelas. Felicidade é um conceito manipulável; enquanto você estiver buscando a felicidade, você pode muito bem estar correndo atrás de um unicórnio ou uma máquina de café ou qualquer que seja a ideia que você comprou a respeito disso. E enquanto isso, você gasta horas lendo sobre a felicidade alheia na Internet. OK, eu também li, estamos juntos nessa, mas estou tentando aqui fazer um rationale disso tudo.

É possível que sua vida não lhe permita nem sequer pensar em ser feliz. Você nasceu pobre, num lugar horrível, tudo lhe falta, desde o mais básico. O que fazer? O outro extremo também vale: você nasceu rico, num lugar maravilhoso, nada lhe falta. O que fazer? O problema é que você está perdido - esse trabalho não é bom pra mim, essa vida não é a que eu quero, meus amigos são chatos, meu país está perdido – existe uma situação ideal em sua mente que não corresponde com a realidade. E o problema nesse caso não é, de modo algum, a realidade. A diferença é que o pobre não tem tempo para investigar, ele tem que acordar e fazer o que deve ser feito para colocar alimento dentro de sua casa. Vários estudos já apontaram que há altos índices de felicidade em países extremamente pobres. Como é isso?!

Vou descer do muro agora. Existiu um homem na Grécia antiga que saía por aí nas ruas, apontando o dedo para as pessoas e gritando: conhece-te a ti mesmo! Seu nome era Sócrates e seu destino foi trivial, foi obrigado a beber veneno por causa de seus pensamentos, nada de mais. Mas essa frase é reveladora - conhece-te a ti mesmo. É o conselho mais precioso que já foi dado para a humanidade, e muitos o repetiram – Jesus, Buda, Nietzsche - torna-te o que tu és! Foi precisamente isso que Mandela fez. Não há investigação, há fazer o que deve ser feito; enquanto você buscar na mídia esse tipo de resposta, “como ser feliz”, o máximo que irá acontecer é entulhar sua mente com um monte de histórias que só tem uma coisa em comum: você não faz parte delas, você é um espectador, um dia você vai fazer aquilo… Vamos observar a coisa de uma forma mais transcendental do que mundana? O místico Osho disse:

Se a felicidade se tornar o grande objetivo a ser alcançado em sua vida, então ela será para você um verdadeiro pesadelo. Mas quando, para você, a felicidade está nas pequenas coisas, na forma pela qual você as vive (…) sua casa torna-se um templo, seu corpo se torna a morada de Deus, e, para onde quer que você olhe e qualquer coisa que você toque, se torna imensamente bela, sagrada – então, a felicidade é liberdade.

Mas isso é extremamente difícil, não é mesmo? Num metrô lotado, no seu emprego, no seu casamento… é difícil viver as pequenas coisas. Por isso é mais fácil acompanhar essas histórias da mídia, repletas de grandiose, pretensão, e sempre associadas ao mundo do consumo, do mercado - abandonar empregos, mudar de país, doar tudo o que você tem, fazer uma dieta extrema – jamais pode ser uma coisa pequena e simples, pois assim todos poderiam fazê-lo e não só alguns personagens midiáticos.

Meu deus. Eu preciso de uma Coca-Cola. Das grandes. Para encher um balde e enfiar meu cérebro dentro.

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