Um conto de Natal, ou a triste história do Falun Gong na China

17 Dec 2013 | publicado por dedos | 1 comentário

Quando chega a época do Natal nossas cidades são tomadas por enfeites e bugigangas coloridas e luminosas. Crianças ingênuas esperam pelo Papai Noel, as não tão ingênuas esperam pelos presentes dos pais, os pais ricos atendem os desejos dos filhos e os pais pobres se sacodem pra acalmar os desejos de consumo de suas crianças. As crianças sem pai e sem mãe tentam entender ou esquecer.

natal-shopping

Fato é que boa parte da população é tomada por um sentimento de melancolia quando essas datas – Natal e ano novo – se aproximam; algumas pessoas têm suas próprias razões, outras não sabem a razão, outras ainda acham normal. A vida das pessoas está tão tomada de afazeres e problemas que parece simplesmente surreal parar tudo para celebrar – some-e a isso o fato de que nossa celebração hoje em geral é um mero culto ao consumo, o ritual se perdeu, Jesus nasceu mas as dívidas estão aí, a insatisfação e o caos estão aí, no caminho pra casa com um presente debaixo do braço deve-se desviar de uma pessoa em situação de rua dormindo na calçada.

Esse sentimento de melancolia eu associo ao absurdo que ocorre em várias esferas (pessoais, interpessoais e sociais) durante essa época – começando pela mídia e pela propaganda, que o ano todo nos fornece uma enxurrada de medo e tragédias para depois simplesmente virar a chave, tentando nos vender produtos sob o pretexto da amizade, da união, da família, do amor – amor deve ser a palavra mais banalizada dos últimos tempos.

Voltando às compras de Natal: vamos agora olhar com um pouco mais de atenção para o lugar de onde chegam boa parte dos badulaques comemorativos dessa tradicional data. Para as pessoas de olhos puxados que fazem o Natal do mundo inteiro ser mais colorido e luminoso.

Negócios da China

Não é preciso de ouvido atento para descobrir-se que os passos pelos quais avançamos rumo ao futuro soam ocos. Mas é preciso concentrar o ouvido se se quer descobrir de que tipo de vacuidade se trata que ressoa no nosso progresso. - Vilém Flusser, em O Chão que Pisamos, 1983

Vejo muitas pessoas empolgadas com sites como Deal Extreme e Ali Express. Nestes sites é possível comprar todo tipo de quinquilharia a preços irrisórios, com frete grátis, diretamente da China. Eletrônicos a preços três vezes menores do que no Brasil configuram o teor dos negócios. Perguntas que costumam girar em torno do assunto são: “quanto custa?”, “quando chega?”, “é de qualidade?” etc. Mas para qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento em processos de produção, a pergunta deveria ser a seguinte: como é possível um preço tão baixo?

Já não é mais novidade a terrível revelação sobre o mercado de produtos chineses que emergiu com a história de Julie Keith, mulher norte-americana que comprou um kit com bugigangas de halloween numa loja de departamentos e encontrou uma carta assustadora e desesperada de um prisioneiro na China – esse fato ocorreu há pouco mais de um ano.

O autor da carta, um prisioneiro de trabalhos forçados no campo de trabalhos forçados de Masanjia, na província chinesa de Liaoning, afirmava o seguinte: prisioneiros políticos e espirituais (praticantes de Falung Gong, retornaremos a esse assunto adiante) estavam sendo submetidos a prisões sem julgamento e regimes brutais de até 15 horas de trabalhos diários, destinados à fabricação de objetos para serem vendidos em outros países.

Não havia sábados, domingos, feriados e o prisioneiro que não conseguisse cumprir suas tarefas de maneira adequada estava sujeito a punições severas como torturas e espancamento. Este link em português contém mais detalhes deste caso e inclusive uma tradução completa da carta.

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No final desta carta há uma menção aos praticantes de Falung Gong que segundo a carta, na maioria das vezes, eram alvos de maior repressão do que os outros prisioneiros. Eu fiquei particularmente curioso sobre esse detalhe e foi assim que começaram minha pesquisa com o intuito de descobrir o que é o Falun Gong e os motivos de sua perseguição na China. Um dos primeiros materiais que vi sobre o assunto foi o documentário Above the Ghosts’ Heads – The Women of Masanija Labour Camp, dirigido pelo jornalista chinês Du Bin (que aparentemente está preso). Trata-se do chocante relato de Liu Hua, ex-prisioneira em Masanjia.

Não há recursos cinematográficos, trilhas sonoras elaboradas e imagens ilustrativas: a câmera está sempre focada apenas em Liu Hua, na frieza de sua expressão e em suas inconvenientes palavras, filmadas em alguns locais ermos da China. Suas memórias e relatos puderam ser guardados graças a um ato de coragem e subversão; na prisão onde era proibida a posse de canetas e papéis, Liu Hua escondia uma pequena caneta em seu uniforme de trabalho e escrevia seus “diários” em pedaços de papel e tecido que conseguia esconder no trabalho. Escrevia debaixo de um cobertor durante o horário do sono. Algumas de suas companheiras, quando foram libertadas, levaram seus escritos embora escondidos em suas vaginas. Outros, ela memorizou o melhor que pôde antes de engoli-los.

O relato da ex-prisioneira está em consonância com o pedido de socorro encontrado por Julie Keith nos EUA: um campo de concentração onde não havia nenhum tipo de direito para os prisioneiros, que trabalhavam em jornadas de 12 a 15 horas, submetidos a vários métodos de tortura e violência, onde praticantes de Falun Gong recebiam um tratamento mais brutal que os demais prisioneiros. Os prisioneiros eram basicamente duas maiorias, os praticantes de Falun Gong e os presos políticos/ideológicos, geralmente presos por atos considerados subversivos contra a “Democracia Popular” chinesa. Liu Hua era uma dessas prisioneiras políticas; ela e seu marido possuíam cargos políticos/administrativos em sua cidade de origem, e foram perseguidos por combater abusos do Partido Comunista naquele local. Liu Hua passou ao todo 2,5 anos presa em Masanjia.

A triste história do Falun Gong

After the Holocaust, it is impossible to rule out any form of depravity.  Whether an alleged evil has been perpetrated can be determined only by considering the facts.


Após o Holocausto, é impossível desconsiderar qualquer forma de depravação. Se um suposto mal foi perpetrado ou não só pode ser determinado ao considerarmos os fatos.

Tradução livre de um dos trechos do relatório Bloody Harvest, de David Matas e David Kilgour

Para começar a falar de Falun Gong vale relembrar de algumas circunstâncias da revolução que levou o Partido Comunista ao poder na China. Quero enfatizar um ponto em específico: a ruptura com as tradições milenares chinesas, nominalmente: Taoísmo, Budismo e Confucionismo. Quem procurar por vídeos desta época vai assistir imagens de destruição de templos antigos e estátuas de Buda, por exemplo. Todos os valores espirituais (no caso do Tao e de Buda) e morais (os ensinamentos de Confúcio) foram considerados pelo Partido Comunista como valores associados a uma China atrasada e supersticiosa.

Eis que no fim da década de 80 uma prática derivada do tradicional Qigong (um conjunto de exercícios físicos e respiratórios visando o fortalecimento e regeneração do corpo e da mente) começa a crescer em popularidade: o Falun Gong. Segundo o criador da filosofia, a suposta novidade em relação a outras técnicas derivadas do Qigong era alegadamente o resgate da dimensão espiritual da prática, resumidas, no caso, pelas palavras Verdade (do original Truthfulness, poderia ser Honestidade talvez), Compaixão e Tolerância. 

Falun Dafa, Falun Gong Symbol

símbolo do Falun Gong – NÃO é a suástica nazista

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Nos anos 80 a prática do Qigong explodiu na China. Em 1984, Li Hongzhi cria o Falun Gong, afirmando que tratava-se de uma prática mais simples derivada de uma linha tradicional do Qigong. A popularidade do Falun Gong só cresceu desde o seu surgimento; em 1992 é reconhecido oficialmente como uma ramificação oficial do Qigonpela Associação de Pesquisa em Qigong da China, um órgão estatal que incentivava e financiava a expansão dessas práticas pelo país, e conduzia “pesquisas científicas” sobre as mesmas. Em 1993 o primeiro livro sobre Falun Gong é lançado na China por uma editora militar e rapidamente torna-se um best-seller no país. Em 1994 é lançado o primeiro vídeo com a gravação das técnicas de Falun Gong, também por uma empresa do Partido Comunista. É relevante considerar o “detalhe” de que tudo na China está sob a chancela do Partido; até então o crescimento do Falun Gong é visto com bons olhos tanto pela população, quanto pelos governantes. De 1992 a 1997 o Falun Gong chegou a espantosos cem milhões de praticantes.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas só até a página três. Ou mais precisamente, até o ano de 1996, quando o Ministério da Propaganda chinês baniu a impressão dos livros de Falun Gong. No mesmo ano, por divergências de ordem política e econômica, o movimento perde o suporte oficial e rompe com a Sociedade de Pesquisa em Qigong. Desse ponto em diante a repressão só aumentou,  até chegarmos ao fatídico protesto de 25 de abril de 1999, relatado em detalhes no documentário abaixo (Decade of Courage é uma série de 4 documentários sobre a saga do Falun Dafa na China, nenhum possui legenda em português no momento).

O protesto silencioso

Após a intensificação da propaganda negativa contra o Falun Gong por parte do PCC (Partido Comunista da China) a indignação começou a se espalhar entre os adeptos da prática; o mesmo partido que, há pouco tempo atrás, fazia apologia e investia dinheiro na propagação do Falun Dafa (variação de Falun Gong, podem ser interpretados como sinônimos).

Em 1999 a situação tornava-se insustentável. Notícias de prisões, espancamento e tortura de praticantes de Falun Gong se espalhavam pelo país. No dia 25/04/1999, dez mil pessoas se reuniram em silêncio em torno do Escritório Oficial de Apelações, próximo ao local onde residem os principais governantes do país. O protesto durou um dia todo e, aparentemente, teve um desfecho pacífico.

No entanto, no dia 20 de junho, 3 meses após o protesto, praticantes de Falun Gong começam a ser presos aos milhares. A propaganda oficial do governo critica e ofende duramente o Falun Gong que, a partir desta data, torna-se ilegal na China. O que temos desde então são indícios, testemunhos e relatos de um verdadeiro sistema de carnificina com detalhes grotescos que, não tivesse havido Auschwitz, seriam simplesmente inacreditáveis.

Policemen in white clothing beating Fallun Gong practicer

Policiais a paisana batendo em praticante de Falun Gong

Colheita sangrenta

… como foi possível Auschwitz? Como podemos viver após isso? Tais perguntas não dizem respeito apenas aos responsáveis direta ou indiretamente, nem apenas aos que foram diretamente ou indiretamente atingidos: dizem respeito a todos que fazem parte de nossa cultura. Porque o que é tão incomparável, inaudito, nunca antes visto e portanto incompreensível em Auschwitz, é que foi lá onde a Cultura Ocidental revelou uma de suas virtualidades inerentes. Auschwitz é a realização característica de nossa cultura.

Vilém Flusser em O Chão que Pisamos, tradução livre

Nos anos seguintes à grande repressão desencadeada em junho de 1999, prisões arbitrárias, torturas e penas em campos de trabalhos forçados tornaram-se rotineiros e de conhecimento público; o retrato do Falun Gong como movimento herético, supersticioso e anti-chinês estava sendo pintado com eficácia pelo Partido. Porém alguns relatos realmente perturbadores começaram a surgir aqui e ali; exames médicos em prisioneiros do Falun Gong e desaparecimento de pessoas são parte do assunto.

Em 2006 é publicado o relatório Bloody Harvest: Revised Report into Allegations of Organ Harvesting of Falun Gong Practitioners in China (Colheita sangrenta: Relatório revisado sobre alegações de colheita de órgãos de praticantes de Falun Gong na China). Os autores são o advogado de Diretos Humanos David Matas e o político canadense David Kilgour. Neste relatório foram reunidas diversas considerações e áreas de evidência, assim como relatos de vítimas, testemunhas e médicos. Foi o primeiro estudo sério sobre o assunto e conectou informações e dados anteriormente desconexos.

A partir de 1999, após o início das perseguições ao Falun Dafa, o número de transplantes na China triplicou, sem nenhuma nova fonte oficial de doadores. O Partido Comunista declara que a maior parte dos órgãos para doação vem de condenados à morte que são executados. Um relatório da Cruz Vermelha chinesa de 2011 aponta que, em 20 (vintes) anos, apenas trinta e sete pessoas se declararam doadoras de órgãos na China (dado exposto no pronunciamento do Dr. Damon Noto no Congresso dos EUA, em setembro de 2012 - o vídeo da sessão inteira está aqui). O Dr. Damon Noto integra uma organização chamada Doctors Against Forced Organ Harvesting (DAFOH).

Os números falam também em mais de 100 mil transplantes de 1999 a 2009. Segundo Noto, um médico proeminente no combate à política chinesa de transplantes, analistas e especialistas ao redor do mundo fazem a estimativa anual de execuções na China em um alcance de 2000 a 8000 execuções/ano, mas nem assim os números batem; há muito mais transplantes do que doadores e prisioneiros executados. Some-se a isso a impossibilidade de todos os prisioneiros executados terem tipos sanguíneos e órgãos compatíveis com todos os receptores desses órgãos (a proporção de compatibilidade é de 10:1 segundo o doutor).

Existe impossibilidade numérica nos dados apresentados pelo Partido Comunista. Apenas com os órgãos dos presos executados jamais seria possível alimentar o ritmo vertiginoso de transplante sob demanda que hoje acontece no país. O tempo de espera por um órgão para transplante na China é questão de dias, no máximo semanas. No Brasil, Estados Unidos e Europa, por exemplo, a espera na fila por um órgão pode levar meses a fio.

Números são símbolos. Eles podem representar qualquer coisa. Mas, como uma máscara, também ocultam aquilo que representam. Se tudo o que temos é um número, é impossível compreendermos  um cenário como um todo. No entanto, o relatório de David Matas e David Kilgour não revelou somente números; reuniu também depoimentos de sobreviventes, fugitivos, testemunhas e pessoas que, de alguma maneira, tiveram envolvimento com um grotesco esquema de colheita de órgãos ocorrendo com os adeptos de Falun Gong presos nos campos de trabalhos forçados na China.

O relatório de Matas e Kilgour ajudou a escancarar uma tragédia humana que vem ocorrendo desde 1999 até os dias de hoje: a colheita sistemática de órgãos de prisioneiros vivos do Falun Gong para o mercado de transplantes na China. Não se trata de teoria conspiratória. Há evidências de várias naturezas e o problema vem tomando dimensões globais. Para se ter idéia da atualidade e intensidade do problema, no dia 12 de dezembro de 2013 (nem uma semana da presente publicação) o Parlamento da União Européia, composto por 28 países, publicou uma resolução onde condena a colheita de órgãos e demanda interrompimento imediato da prática, assim como a libertação dos prisioneiros da consciência, em sua maioria adeptos do Falun Dafa, mas a eles juntam-se cristãos e praticantes de outras religiões.

O que acaba de ser exposto é insuportável. É natural que tentemos recorrer nesse momento a racionalizações e desculpas. É mais fácil pensar que se trata mesmo de uma teoria da conspiração, de uma falácia ou exagero. Ou ainda, podemos considerar que este problema passa ao largo de nosso cotidiano, que nada podemos fazer - já que todos fazem… Há ainda o problema de que, aparentemente, todos ou quase todos os objetos que hoje consumimos vêm da China (o que não é verdade mas é quase).

Isso está acontecendo hoje, agora. A carta encontrada por Julie Keith em seu kit de halloween é apenas um indício, a ponta de um iceberg; mas se nos agarramos a essa ponta de gelo e submergimos para investigar, a constatação é de que boa parte da economia global gira em torno de parcerias comerciais com um estado genocida.

O Silêncio Conveniente

Alguém há de perguntar ou estranhar a total falta de cobertura por parte da imprensa para estes fatos. Oras, se houvesse uma nação praticando sistematicamente a destruição de seres humanos, numa escala e eficiência dignas de serem comparadas aos campos de concentração nazistas ou aos gulags russos, é evidente que todos estariam sabendo a essa altura. E, afinal, quem compraria produtos de um estado que retira à força órgãos de seus cidadãos ainda vivos para vendê-los num lucrativo mercado de transplantes? Ora, nós mesmos.

O silêncio da imprensa e dos Estados advém das polpudas parcerias comerciais com os chineses. Muito dinheiro é feito ao deixar que os chineses produzam nossas bugigangas a um preço quase-zero. Toda vez que compramos um produto chinês, depositamos uma moeda na caixinha de Natal do Partido Comunista. E não há ninguém para gritar caixinha obrigado!!, mas sim me tire daqui, me pague direito, deixe-me viver.

Trata-se, hoje, de um problema: é seguro afirmar que quase ou 100% dos computadores e dispositivos eletrônicos similares são produzidos em solo chinês, inclusive o computador deste que vos escreve. Procurar por um smartphone não-fabricado na China pode significar não encontrar smartphone algum. É preciso fazer um racional sobre isto.

Nossas compras

Se pararmos para pensar honestamente sobre nossas compras talvez cheguemos à conclusão que, de fato, não precisamos nem de metade do que compramos, ou mais do que isso. Questionamentos:

  • Quem precisa de um abridor de garrafas em forma de mulher de pernas abertas que geme ao ser utilizado (sim, isso existe)? Precisamos das luzes coloridas de Natal? A maioria das bugigangas que vejo no comércio popular são perfeitamente inúteis e dispensáveis.
  • Cristãos: porque não celebrar um Natal minimalista esse ano? Sem presentes? Afinal, a Bíblia não fala em momento algum de troca de presentes – ou citar a Bíblia vale em alguns momentos, e outros não? Porque não dedicar o Natal aos nossos irmãos chineses em regime de escravidão para manter nosso consumo em alta?
  • Eu preciso possuir dez pares de tênis, 70 camisetas, 100 pares de brinco etc? Comprar menos, ou melhor ainda, não comprar, alguém já pensou nisso?
  • Outro dia fui comprar um cadeado. Comecei a olhar para os locais de fabricação, todos chineses, até que eis um Indústria Brasileira! Ela existe! Pesquise por alternativas; a diferença de preços pode não ser tão elevada.
  • Eu preciso comprar imediatamente um smartphone ou computador novo apenas porque foram lançados agora? Não posso ficar mais alguns meses usando o que eu já tenho?

Linhas gerais

O presente texto não tem como intenção a proposição de soluções pois as próprias causas e soluções do problema estão entrelaçadas como uma bola de fios; no meio disso tudo há palavras como globalização, obsolescência programada, vantagem competitiva, cadeia de valor… Por outro lado, estão colocadas diversas oportunidades, tanto para nós “consumidores” como para inovadores, engenheiros, inventores e outros que pensem o mercado de objetos de consumo.

A decisão de adquirir ou não um produto made in China, independente se for positiva ou negativa, hoje transita pelo fato gravíssimo do extermínio de seres humanos. Hoje todos temos muita facilidade em condenar o nazismo; já passou e seus ecos não parecem interferir mais de forma direta ou indireta em nossas vidas. Mas o quanto existe de mesquinharia em ignorarmos um holocausto que está acontecendo agora justamente porque ele afeta nossos bolsos, nosso dinheiro?

Todo mundo compra, todo mundo faz, não dá pra fugir, é assim mesmo, infelizmente o capitalismo está aí, não seja louco, você não pode mudar nada. então você vai viver sem computadores? 

Temos então um desafio e uma oportunidade de tentar redefinir nossas escolhas e nossos estilos de vida. Atrás de um preço baixo está sempre um ser humano que paga caro. Neste texto nem foi mencionado o fato de que são produzidos muito mais objetos hoje em dia do que seres humanos; o que vamos fazer com tudo isso? Será o modelo de consumo cíclico – produtos novos sendo despejados no mercado, produtos velhos sendo despejados no lixo – sustentável?

Independente do que se decida por cada indivíduo, que a decisão possa ser feita com a consciência dos horrores que estão realmente acontecendo e são ofuscados pelas luzes coloridas do natal e as cores vibrantes do plástico.

Observações:

  1. O autor não é praticante de Falun Gong, sequer está envolvido com alguma associação relativa ao Falun Dafa;
  2. O texto não busca exaltar a filosofia ou incentivar a prática de Falun Gong e sim abrir uma discussão sobre o modelo de negócios do comércio global;
  3. Se a filosofia perseguida em questão não fosse o Falun Gong, mas sim qualquer outra como o Yoga ou o Tai Chi Chuan, o autor teria prosseguido na pesquisa de qualquer maneira.

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1 Comment

  • ALBERTO GIOVANNI FIASCHITELLO says:

    Olá Rafael. Me permita parabenizá-lo pela ótima matéria. Suas reflexões são muito corretas, em minha opinião, e seus questionamentos e propostas têm muito valor. Sou praticante brasileiro de Falun Dafa há cerca de 8 anos e acompanho esse holocausto dos particantes de Falun Dafa (assim como dos tibetanos) com angústia. A prática é bastante séria, não exige vínculos ou compromissos (a não ser o do esforço próprio para desenvolver a consciência e o caráter), não envolve nenhuma questão monetária e não possui estrutura ou formalidades religiosas. Ela permite um desabrochar consistente do caráter e um desenvolvimento muito rápido da energia e da consciência espiritual. Isso torna as pessoas auto-conscientes e bastante responsáveis por suas ações humanas e sociais. Como a prática, através de seus valores e princípios, recuperou boa parte da cultura espiritual milenar chinesa – que como disse você, era fortemente baseada no taoismo, no budismo e no confucionismo, antes da entrada do comunismo -, o Partido Comunista Chinês, que é, por natureza, tirano e rigidamente dogmático, temeu um retorno aos valores espirituais tradicionais, em detrimento dos dogmas comunistas. e começou uma difamação massiva contra o Falun Dafa, proibindo depois a sua difusão, e por fim deu início à perseguição, às prisões, mortes, torturas, extração de órgãod dos praticantes. Mas, houve também um outro motivo. O fundador do Falun Dafa – Li Hongzhi – se recusava a participar do esquema financeiro que envolvia as associações de qigong dirigidas pelo governo chinês. O governo promovia intermináveis e obrigatórios seminários de qigong por todo o país, lucrando muito dinheiro com os mesmos. Quando percebeu isso, o Sr. Li Hongzhi falou abertamente que o qigong não era para a finalidade de enriquecer pessoas, mas para recuperar os valores espirituais e a possibilidade de elevar a consciência, e deixou a Associação de Qigong dirigida pelo governo. Foi a partir daí que começaram as difamações e, posteriormente, a perseguição. Bem, não vou me alongar mais. Deixo um link sobre um dossiê que fizemos sobre esse genocídio: http://www.falunchina.net/doc/dossie.pdf . Um abraço e obrigado em nome das vítimas dessa perseguição.

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