Vivo num quarto enorme. A distância da porta até a minha cama é de tantos passos que, quando chego até o leito, minha visão já está acostumada ao escuro faz tempo. Tenho que andar até a minha cama no escuro porque o interruptor fica ao lado da porta.
Além da minha cama, existem dezenas, talvez uma centena de camas dentro do quarto. Eu poderia muito bem deitar-me em qualquer uma delas, já que sou o único habitante do quarto. Mas não me parece correto, já que a minha cama, encaixada no canto diagonalmente oposto à porta, foi a mim designada em épocas imemoriais, e não há qualquer motivo para contrariar uma decisão tão simples e ingênua como a localização de uma cama.
Eu entro no quarto, apago o interruptor e caminho até a minha cama, inicialmente esbarrando em outras e tropeçando aqui e ali. Mas após alguns minutos, minha vista se acostuma e o caminho é mais rápido.
Após me deitar, e aquietar meu corpo e mente no silêncio e no escuro, escuto ao longe, muito longe, o ranger da porta abrindo. Tenho a impressão de ver um braço passando pelo vão da porta aberta. A luz se acende, e a porta se fecha. Levanto e começo a lenta e sonolenta caminhada em direção ao interruptor.
Isso acontece toda noite.


