Obras que discutem

19 Apr 2010 | publicado por dedos | 1 comentário

Um de meus passatempos favoritos é procurar textos críticos sobre arte, para depois espinafrá-los e defenestrá-los. Como sou um bom menino, desisto na maioria das vezes de tornar públicas minhas críticas, não por não serem reais, mas porque não quero criar caso com ninguém, muitos menos criar imagens desfavoráveis de pessoas que não conheço. Mas as vezes é complicado… por isso, vou tentar, de forma geral, sem apontar o dedo, e sem parecer um comunista espumando de raiva (o que vai provavelmente acontecer lá pro fim do post), falar de algo que me causa um incômodo terrível.

Se você já foi a uma exposição, leu um catálogo, um blog ou algo que fale de arte (arte com “A maiúsculo”, erudita, burguesa, “história da arte” etc et al), certamente já leu algo assim: A obra x discute a questão do urbano na vida sexual dos artrópodes chilenos…

Ácaros andinos à parte, eu gostaria de perguntar: como é que uma obra pode discutir alguma coisa? Até onde eu sei, pessoas discutem sobre coisas. Obras de arte não possuem opiniões, pontos de vista, interpretações de fatos ou conceitos. Você pode dizer que estou sendo literal e chato, então vou tentar mostrar o perigo de morte cerebral que existe por trás da afirmação a obra discute, analisando o que encontramos comumente em textos críticos sobre arte contemporânea:

  1. Descrições sobre os aspectos físicos da obra em questão, ou seja, o autor descreve aspectos formais como cor, volume, dimensões, traço, material. Esse tipo de texto é potencialmente maçante, a não ser que você esteja realmente interessado nos aspectos formais de determinada obra, ou seja, provavelmente você é um artista tentando fazer algo parecidinho (releitura, interrogação) ou juntando repertório pra fazer algo original mais pra frente.
  2. Exaltações ao artista. Nunca mais li um texto crítico, e de repente estamos cercados de gênios. Em alguns casos, fica quase evidente que o crítico é amigo íntimo do artista e está precisando de algum favor.
  3. Conceitos antigos sendo apresentados como novidades. O que eu simplesmente não aguento mais são os “deslocamentos de objetos do cotidiano para o contexto artístico”. Céus, a prática do ready-made é uma senhora de quase cem anos, então não escreva sobre seu artista favorito que desentulhou o porão numa galeria de arte como se fosse o novo gênio da invenção artística. (Esta reclamação já foi feita de modo poético no Manifesto Inexpressionista).
  4. A combinação dos três itens anteriores desemboca no temido a obra discute. Alternando extensas descrições sobre o objeto em questão, com elogios ao artista e sua obra anterior, mesclados com práticas inovadoras e originais, chega-se à discussão da obra, isto é, o crítico agora desfilará verdades tentando chegar ao famoso “o que o artista quis dizer com isso”. Essa mensagem muitas vezes é interpretada pelos incautos como uma verdade vinda de uma autoridade no assunto, infelizmente.

Intimamente associada à discussão das obras de arte está a questão da mediação, muito em voga ultimamente. O discurso crítico ultimamente tem se prestado a esse serviço desprezível: deglutir e entregar ao grande público obras de arte numa bandeja, menosprezando as interpretações e novas leituras que poderiam advir desse mesmo público. Passe um dia num centro cultural ou museu, e fique próximo aos monitores que estão explicando obras, e certamente ouvirá algumas atrocidades. Eu tive a oportunidade de presenciar um caso pavoroso na Pinacoteca de São Paulo.

Uma turma de adolescentes está sentada ao redor do Porco Empalhado de Nelson Leirner (um ótimo trabalho, por sinal). O monitor já sai logo de cara com essa: e aí pessoal, esse porco aqui é uma pintura ou uma escultura? Pintura ou escultura. Parem as máquinas, exclamação. E nem queiram saber o que veio depois. Vocês querem mesmo discutir obras de arte? Para isso, terão que jogar suas impressões sensoriais no lixo e entrar num mundo de conceitos, que, ao meu ver, nasceram elitistas e poderiam muito bem morrer do mesmo modo, sem essa hipocrisia de mediação para as massas. E tira a mão de mim.

post scriptum 1: não é meu desejo ficar apontando dedo pra ninguém, como escrevi no início, MAS para ilustrar bem o que são textos que combinam os 4 itens aqui expostos separei dois links, este e aquele.

post scriptum 2: escrevi esse post no estilo dos caras do único blog de futebol que eu leio, exclamação.

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1 Comment

  • Beatrix says:

    a discussão precisa se perpetuar em torno de algo – A Questão (no meio informal conhecida como O Lance). todo mundo parece saber qual é a medula da obra, o tema central e inexorável, o dilema mais dramático e profundo a que o artista sucumbiu em seu frenesi criativo.

    palavras não descrevem qualquer outra arte senão a sua própria, ou tudo seria texto. curiosamente, o prazer em dar aulas diante de uma tela é a própria recusa em percebê-la. sempre lembrando que emitir sons é uma das mais antigas táticas de defesa animal… e quando proferimos nossa opinião, nos isolamos do resto do mundo.

    hoje no metrô eu tava pensando que a Mona Lisa é o quadro mais vago do Leonardo, e por isso o auê. quero dizer, não existe um tema mitológico nem religioso, um Lance ali rolando às vistas; é só uma mulher e pronto. mas nããão, ninguém se contenta com a sua presença, querem saber quem ela é, montar historinha, de preferência um romance louco, supor que é o próprio Leonardo, de alguma maneira retalhar com conceitos e lendas uma imagem feminina que simplesmente tá ali pra ser vista.

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