1984, de George Orwell

24 Nov 2009 | publicado por dedos | Comente

Este artigo sobre o já consagrado livro 1984 foi escrito em contraposição à resenha que fizemos, há alguns meses, do romance Nós, de Eugene Zamiatin. Sugerimos sua leitura antes do texto que se segue.

Se escolhemos comparar 1984 a Nós, não foi com o intuito de dissecá-los, ponto a ponto, para que ao fim tenhamos uma tabela de semelhanças e diferenças. Tal estudo seria mais apropriado a algum tipo de publicação especializada no gênero. Nosso propósito é consideravelmente mais simples, e pode ser delineado pontualmente:

  • Perceber como determinadas obras/expressões/discursos, ao mesmo tempo que ganham notoriedade, projetam uma sombra sobre suas “raízes” ou principais influências – quando não as fontes de onde extraíram literalmente alguns de seus conteúdos. Tentaremos, então, olhar um pouco mais adiante, e investigar estas influências.
  • Ver como a abordagem negativa do conceito de plágio é um fator limitante do exercício da criatividade. Consideramos oportuna a comparação por se tratar de dois marcos da ficção científica, sendo que 1984 foi largamente inspirado no romance de Zamiatin, e tornou-se indiscutivelmente o mais conhecido dos dois. Plágio ou não, fato é que, de qualquer maneira, uma grande obra literária possibilitou o surgimento direto de mais uma, e quem sabe de quantas outras, indiretamente.

A relação entre 1984 e Nós não é casual: Orwell leu o livro de Zamiatin, e manteve por este vivo interesse, a ponto de publicar uma crítica literária sobre o mesmo, num jornal, como nos conta Anthony Burgess, que ainda nos dá uma pista importante do que 1984 viria a fazer pela propagação de Nós:

“Orwell escreveu um artigo criticando o livro [Nós], publicado no Tribune de 4 de janeiro de 1946, quando conseguiu finalmente encontrá-lo, muitos anos depois de saber de sua existência. Sempre foi um livro bastante difícil e, se agora pode ser encontrado em quase todos os idiomas, isto se deve ao fato de que Orwell foi influenciado por ele. Mas parece ser impossível encontrá-lo na língua original, o russo.” – 1985, p.52

Zamiatin encontrou severas dificuldades para publicar sua obra em sua terra natal. Seu romance não fazia nenhum tipo de alusão demasiado direta a um ou outro governo, porém seu texto era considerado potencialmente perigoso, tanto pelos tzaristas quanto pelos socialistas, e foi banido da União Soviética. É natural que a tradução inglesa circulasse em maior quantidade. O romance de Orwell, apesar de ser crítico e até demasiado literal em sua analogia com a ditadura stalinista, não contou com a mesma perseguição, já que estava em curso um decisivo momento histórico: a Guerra Fria. Se o texto de Orwell era desagradável aos socialistas, o ocidente capitalista o receberia de braços abertos. Isaac Asimov, em sua crítica a 1984, destaca alguns detalhes da biografia de Orwell que ilustram bem a chegada deste momento, acompanhados de sua opinião pouco favorável ao livro:

“Orwell concluiu A Revolução dos Bichos em 1944, mas teve dificuldade em favoráveis para causar-se qualquer perturbação aos soviéticos. Todavia, logo que a guerra terminou, a União Soviética tornou-se uma caça permitida e A Revolução dos Bichos veio a lume. Foi recebida com grandes aplausos e Orwell tornou-se suficientemente próspero para afastar-se de outros trabalhos e dedicar-se à sua obra-prima, 1984. […]

Trata-se exclusivamente de um retrato do stalinismo.

Em 1944, na época em que o livro foi publicado, a Guerra Fria encontrava-se em seu auge. Por esse motivo o livro tornou-se popular. Era quase uma questão de patriotismo, no Ocidente, comprar esse livro, discuti-lo, talvez ler partes do mesmo, embora, em minha opinião, um maior número de pessoas o adquiriu e discutiu do que aquele que o leu, pois se trata de um livro tremendamente cacete, didático, repetitivo, sendo, antes de tudo, destituído de ação.” – No mundo da ficção científica

Não é o primeiro caso em que uma obra artística ou literária serviu como uma luva para a propaganda anti-comunista nos tempos da Guerra Fria; as pinturas do norte-americano Jackson Pollock foram amplamente difundidas como o símbolo da liberdade de criação e expressão nos EUA, em oposição ao Realismo Socialista imposto por Stalin aos artistas soviéticos. Toda a arte produzida pelos soviéticos, inclusas a literatura e a poesia, deveria ser um instrumento do Estado, uma expressão de sua identidade visual, importantíssima para um estado totalitário, que precisará manter intacta a imagem de seu poder, mesmo que a situação seja das mais adversas. Apesar de Hitler ter sido o maior “ditador esteta” – como sugere o documentário Arquitetura da Destruição, de Peter Cohen – Orwell preferiu manter o foco sobre Stalin e a Revolução Russa, alvos maiores de seu rancor e ressentimento.

Evidentemente, apesar de seu alvo inicial ter sido bem específico, a leitura que o mundo fez do romance de Orwell foi mais ampla. O sombrio cenário de 1984 passou a representar toda sorte de perigo oferecida por intervenções estatais demasiado severas, manobras belicistas, controle da expressão e do trânsito de informação, e também os estados socialistas e/ou totalitários em si. O termo “orwelliano” e menções ao Grande Irmão se espalharam dos círculos literários e universitários até a cultura de massa, dando nome ao emblemático reality show televisivo. Ainda que fosse evidente que o mundo pós-guerra de Orwell não concretizar-se-ia, e até mesmo de 1985 em diante, 1984 continua sendo uma referência agourenta de algo que esteja ligado a um controle excessivo ou perda de liberdades individuais e coletivas.

“Mesmo que 1984 seja um ano idílico, essa visão de Orwell ainda servirá como símbolos dos piores temores da humanidade. 1984 é usado como uma metáfora tanto vaga para a tirania e só podemos lamentar que seja tão vaga. Quando solicitados a não fumar maconha na sala de aula ou gentilmente instados a estudar um pouco mais, os universitários respondem com um “Tipo 1984, cara?”. Por extensão, o termo “orwelliano” serve para definir qualquer coisa, desde uma folha saída do computador até a gélida funcionalidade de um novo aeroporto.” – 1985, p.18

Torna-se, então, mais fácil compreender a dimensão do alcance de 1984 e os motivos que possibilitaram sua ampla difusão, enquanto suas fontes, entre elas o romance de Zamiatin, permaneceram desconhecidas ao grande público e até mesmo aos círculos literários. Mesmo que escrevamos um tratado comparando os dois romances e afirmando com veemência a maior riqueza existente em Nós - o que de certa forma já fizemos, assim como Asimov e Burgess – não conseguiremos ofuscar a notoriedade e o impacto causado por 1984. Talvez esta situação seja um exemplo claro de plágio bem-sucedido.

Condições externas criam ou não o cenário favorável ao plágio, de modo que seria praticamente impossível plagiar uma obra literária de maior vulto, como o Dom Quixote de Cervantes, por exemplo – uma apropriação de uma obra deste porte só seria permitida à guisa de releitura. Já no caso Orwell-Zamiatin, tudo parece conspirar a favor do autor inglês: além de sua intenção de criticar impiedosamente o stalinismo, seu colega russo havia sido suficientemente perseguido (tanto pelos tzaristas como pelos bolcheviques) para que Nós permanecesse relativamente desconhecido. Assim, foi possível que 1984 se propagasse, tornando-se um dos mais marcantes romances de seu tempo, cunhando o termo “orwelliano”, e tudo isso sem que seus leitores percebessem que as desventuras de Winston Smith se assemelham fortemente às peripécias do número D-503, o habitante do Estado Uno de Nós.

É bem possível que Orwell tenha concebido Winston como uma espécie de sombra ou “negativo” de D-503. As virtudes do protagonista-narrador do romance russo – otimismo, clareza e rapidez de raciocínio, energia e predestinação à glória – são gravemente corrompidas em Winston Smith. Sua saúde é frágil, seus pensamentos vagueiam em círculos, e a única coisa da qual tem certeza é a da sua eliminação física e histórica. Sua única pergunta é “quando”.

O mesmo vale para a destruída Airstrip One - o novo e impessoal nome dado à Grã-Bretanha – se comparada com as paragens cristalinas e geométricas do mundo vítreo do Estado Uno: fachadas decadentes de arquitetura vitoriana e resquícios de uma Londres bombardeada constantemente; habitações populares caindo aos pedaços, canos entupidos, elevadores quebrados; túneis e corredores metálicos abafados, com paredes engorduradas. A única coisa que parece funcionar constantemente são as infames telescreens (traduzidas de maneira infame para teletelas), aparelhos televisores de mão dupla, que despejam propaganda estatal e notícias da guerra, e ao mesmo tempo filmam e transmitem a vida de cada indivíduo para que possam ser observados. Além disso, jamais podem ser desligados. O sistema de vigilância e punição funciona com implacável eficiência, enquanto todo o resto funciona de forma deficiente e um tanto aleatória (não há energia para os elevadores, mas para as telescreens…). A linguagem está sendo sistematicamente condensada e simplificada num dialeto chamado Newspeak - traduzido, mais uma vez de maneira infeliz, para novilíngua. Toda a literatura, cinema e qualquer forma de cultura transmitidas à população são produzidas por máquinas, que nada fazem além de recombinar diferentes elementos em cima de estruturas repetitivas; excetuando a parte das máquinas, é basicamente o que se consome hoje com o nome de cultura de massa. Já vimos a idéia da música produzidas por máquinas em Nós.

É nesse ambiente desesperador que se desenrola a trama de 1984. Winston faz passeios constantes aos subúrbios, desejando saber como era a vida no pré-guerra; compra um caderno antigo de folhas cremosas, tinta e uma pena – assim começa seu diário. Ao contrário do diário de D-503, a escrita de Smith não é bem articulada e se resume a impulsos semi-conscientes que dizem respeito à sua liberdade e a seu futuro. Juntamente com o diário tem início a constante paranóia de ser descoberto e, para piorar, percebe que uma mulher do partido está lhe observando. Após vários incidentes, começa a ter ódio e medo da mulher, mas após receber da mesma um misterioso bilhete, começa a sua espiral rumo à danação. Por se tratar de um livro demasiado conhecido e existirem diversos textos críticos e análises sobre o mesmo, não o adentraremos em detalhes; porém, como tentamos mostrar anteriormente, a estrutura é muitíssimo semelhante à do romance Nós, com algumas particularidades que não deixam dúvidas de que Orwell era, pelo menos, um grande admirador de Zamiatin.

Um outro bom exemplo de apropriação crítica e literária surgida do mesmo contexto é o romance 1985, de Anthony Burgess, mais conhecido como o autor de A Laranja Mecânica. O livro é dividido em duas partes. A primeira se trata de uma análise crítica de 1984, em forma de entrevistas e artigos; Burgess escancara algumas referências, como o filme de H.G. Wells, Things to come (1936), e tenta situar o leitor no ambiente político em que Orwell escreveu seu romance. A segunda metade do livro, que é o romance em si, baseia-se na tese em que Orwell fez uma série de previsões grosseiras e disparatadas, e tenta dar ares mais “realistas” a um estado totalitário no ano de 1985. O resultado é uma Inglaterra dominada pelos sindicatos, simbolizados por Bill, o Operário Símbolo. O “inglês operário” é a língua hegemônica, e antigas grosserias ortográficas, gírias e vocábulos do léxico chulo constituem agora a linguagem oficial. A educação nas escolas visa preparar os indivíduos para a vida de operários, sendo matérias como história, filosofia e literatura banidas do currículo. Os vagabundos e assaltantes são ex-professores e intelectuais, que falam latim pelas ruas e sobrevivem de assaltos e pilhagens. O protagonista de 1985 é Bev Jones, que acaba de assistir a sua esposa morrer num hospital que pegou fogo, durante uma greve do sindicato dos bombeiros. Além disso, tem uma filha de treze anos mentalmente retardada e sexualmente precoce, que só parece se divertir masturbando-se e assistindo televisão. Beirando o desespero, Jones faz uma série de denúncias e rompe com o seu sindicato, o que o precipita para uma série de desventuras.

Não é com um propósito de “caça às bruxas” que acusamos o ato plagiador de Orwell. A idéia principal é demonstrar que, de uma obra ou contexto criativo, podem surgir outros, readaptados ao momento e com uma função mais específica e menos abrangente – justamente o caso de 1984 e o momento político no qual foi editado. A obra a de sucesso comercial não depende necessariamente de suas qualidades para assegurar seu sucesso de público e crítica. Se Nós é muito mais rico literariamente do que 1984, só nos resta lamentar que as idéias de Zamiatin não tenham agradado as editoras e o mercado, e, principalmente, os governos de sua nação.

O que nos leva, finalmente, a questionar se o que hoje nos é vendido como obras prima, grandes sucessos musical ou best seller, entre outros exemplos, tem seu valor cultural e financeiro avaliado a partir das noções de original ou criativo, estas palavras que tanto têm aparecido nos processos contra supostos piratas e plagiadores.

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