O plágio e a ilusão do único

14 Oct 2009 | publicado por dedos | Comente

Um fato curioso sobre as rupturas e revoluções é que, geralmente, estas movimentações trazem consigo um pouco da estrutura a ser negada. Radicais ludistas utilizam marretas industrializadas para destruir fábricas, bandas punks de noise-core fazem uso de instrumentos musicais para produzir anti-música. Das vanguardas artísticas do século XIX em diante, há riqueza de exemplos semelhantes, até chegarmos ao cataclisma causado por Marcel Duchamp – há quase cem anos atrás – quando deslocou alguns objetos industrializados (como um urinol e uma pá de neve) para o museu, e chamou estes objetos de “obras de arte”. Talvez não haja muito para se ver num mictório de ponta cabeça ou numa roda de bicicleta espetada num banco, mas há algo a se pensar sobre estes atos – o de condecorar objetos comuns com os louros que caracterizam o “objeto artístico”. Esta ação nada ingênua até agora não foi bem digerida, Duchamp ainda é o nome por trás de boa parte da produção artística contemporânea. O seu gesto é de uma abrangência impensável para o obtuso vanguardista que diz “isso não serve mais, agora precisamos disto, que é o novo”. Para Duchamp, tudo serve, conquanto exista uma boa idéia para colocar o banal em movimento.

A chave duchampiana é a recombinação de idéias, imagens e significados. Se concebermos suas ações sob as noções comuns de “original” ou “novo”, e principalmente conforme a aplicação mercadológica destes termos, poderemos considerar Duchamp como um plagiador. O plágio frequentemente carrega um peso de conotações negativas. Enquanto a necessidade de sua utilização aumentou com o passar do século, como resposta ao bombardeio de imagens que hoje bem conhecemos, o plágio foi camuflado em um novo léxico para aqueles, como Duchamp, desejosos de explorar essa prática enquanto método e como forma legitimada de discurso cultural. Ready-mades, colagens, found art ou found text, intertextos, combines, detournment e apropriação – todos representam incursões no plágio.

As ações dos plagiadores subvertem conceitos de valor baseados em horas de trabalho e dificuldade de produção – novos sentidos são criados a partir de estruturas anteriormente fundadas. O plágio neste sentido é uma forma de negação que envolve a re-invenção dos cânones e signos que aprendemos a aceitar como imutáveis, “normais” ou corretos. Criando novos sentidos, o plágio age como a negação de uma cultura que encontra sua justificativa ideológica no “objeto único”.

Mesmo objetos produzidos em série nos são vendidos com a intenção de provocar a ilusão do único. A indústria fonográfica e seus CDs, por exemplo: por que motivo alguém compraria um disco original, se pode obter o mesmo material – som, imagem e texto – gratuitamente, pela Internet? O pequeno disco colorido dentro de uma caixinha desperta nossas sensações de posse, nossos prazeres de colecionadores; para algumas pessoas existe o prazer da compra, a satisfação de gastar seu dinheiro para possuir algo em troca. Fomos acostumados a nos apegar a isto.

Porém, existe uma geração inteira crescendo habituada à idéia da imaterialidade e à velocidade da rede de computadores. Baixar músicas da rede e trocá-las com amigos pelo celular tornou-se prática corriqueira entre crianças e adolescentes nas escolas. Apaixonados por música com condições financeiras limitadas finalmente têm a possibilidade de ouvir de tudo sem gastar fortunas em discos. Esta geração está aprendendo a valorizar a informação, em detrimento do meio que a suporta: a música, e não o disco de plástico. Mas a indústria cultural e o mercado artístico ainda mantêm o foco sobre os objetos únicos, combatendo como podem a cultura recombinante, com liminares e processos judiciais milionários, muitas vezes contra simples usuários domésticos.

A conotação negativa do plágio está intimamente ligada a este conflito do mercado com o advento das “não coisas”, o termo flusseriano para toda a informação decodificável, porém não-palpável. A indústria cultural não quer perder o controle da mediação arte-público. A experiência do indivíduo com a arte não pode ser direta – há de existir uma instituição para fazer a ponte, seja ela um museu, uma loja de discos, um professor ou uma televisão. Todos devem ser devidamente creditados e ressarcidos. O problema das instituições é que provocam o desaceleramento do processo da comunicação e recombinação de idéias. Tomemos como exemplo os blogs e os textos online.

O texto online flui em uma corrente ininterrupta pela rede eletrônica. A produção do texto pressupõe sua distribuição, revisão e consumo imediatos. Todos que participam da rede também participam da interpretação e transformação do fluxo textual, com comentários, hiperlinks e diversos tipos de retroalimentação possíveis. E isso é bem diferente de esperar que determinado livro seja publicado por uma editora, ou comprar o jornal na manhã do dia seguinte. O texto recombinante fecha a lacuna entre a produção e o consumo, e amplia as possibilidades daqueles que não são celebridades literárias.

Incrivelmente, podemos também imaginar novas possibilidades da cultura recombinante para a arte erudita, a arte com “A” maiúsculo, dos gênios, ismos e vanguardas. O processo é basicamente o mesmo: quebrar a mentalidade do objeto único, para que o pensamento possa estar a par das tecnologias de seu tempo. Imaginemos, por exemplo, que todos os museus e colecionadores de arte, tomados subitamente por um maluco sentimento de coletividade, se dispusessem a digitalizar todos os seus acervos, disponibilizando-os online e em alta definição. Aliada à tecnologia da qual já dispomos, esta mentalidade coletiva e uma imensa coleção de imagens poderia dar origem a vários museus eletrônicos, que não abrigariam obras de arte, mas sim diversos painéis que pudessem reproduzir fielmente as obras de arte desejadas – com até mais nitidez e detalhe do que as obras originais. Dessa forma, países sem recursos para custear grandes exposições poderiam realizar o sonho de colocar, lado a lado, as obras mais significantes de determinado período, artista ou movimento, por exemplo. Curadorias temáticas com fins educativos também seriam possíveis. As condições tecnológicas atuais nos oferecem um cenário animador – limitado apenas pela mentalidade em vigor do mercado da cultura.

O que não deixa de ser curioso sobre essa repulsa ao plágio e a recombinação é o fato de que a grande mídia faz uso constante destas práticas. Novelas, música pop, best sellers, filmes enlatados, moda, jornalismo, publicidade; não é necessário ir longe para perceber que, na maioria dos casos, trata-se da reapresentação de estruturas muito semelhantes ou idênticas, com matizes e roupagens trocadas. No mundo da arte acadêmica, tal prática também é recorrente, e tão sútil quanto escandalosa; faz uso de conceitos subjetivos como criatividade, estilo e releitura. Consideremos agora uma prática empregada tanto pela indústria quanto por alguns artistas do mais alto escalão: o auto-plágio.

O auto-plagiarismo se configura quando o artista (ou empresa) recorre a artifícios esteticamente significativos de seu trabalho anterior, e os reapresenta sob a falsa asserção de que são criativamente originais, e que algum progresso estético foi feito. Nos casos ordinários de plágio (plagiar o outro), a concessão de crédito ao plagiador seria negada, se este não tivesse acrescido nenhum elemento de importância além do que foi plagiado. Mas se um artista repete sistematicamente os elementos de seu própria trabalho, existe uma tendência a considerar tal prática como legítima, muitas vezes sob a égide do “estilo”. O hábito de pensar o estilo como uma ramificação “natural” da personalidade do artista parece justificar, muitas vezes, a repetição indisicriminada do que um dia já foi interessante. Gostaríamos de arriscar aqui uma sentença: o hábito é irrelevante, se não oposto, à arte e a sua prática.

Percebemos, até aqui, o quanto são maleáveis nossas concepções de novo, criativo, original, único, artístico, plagiado – palavras cujos significados mudam de acordo com o interesse dos que as empregam. Desejamos, no entanto, suscitar questões que se encontrassem fora do campo de batalha pela mediação das artes, nem a favor (direitos autorais, instituições, dinheiro, processos), nem contra (pirataria, sabotagem, contra-ataques judiciais). Ações criativas abertas, sem rótulos tendenciosos como “Arte” ou “contracultura”, por exemplo. Fazer arte fora do mundo da arte, sem a influência dos cânones do único e sem a pressão dos advogados. Mas no que poderia consistir, hoje, essa recusa da arte? O “gesto negativo” está no tédio quase universal que se abate na maioria das pessoas na simples menção da palavra “arte”. Mas qual seria o “gesto positivo”? Seria possível imaginar uma estética que não se comprometa, que se remova da História e mesmo do mercado? Ou que ao menos tenda a fazer isso? Que queira substituir a representação pela presença? Como a presença pode se fazer mesmo na (ou através da) representação? Onde e quando existe o mundo da criatividade não-mediada?

A arte no Mundo da Arte tornou-se uma mercadoria. Porém, ainda mais complexa é a questão da recusa de toda mediação. A mediação é difícil de ser superada, e é a origem de todos os problemas relacionados à autoria, plágio e direitos autorais que atingem tanto o mundo da arte e os que agem por fora dele. Questões interessantes estão surgindo, principalmente no mundo “imaterial” das não-coisas, que interfere de forma cada vez mais aguda no mundo material e no mercado. A distância entre produtores/consumidores de linguagem já foi dramaticamente reduzida, e o horizonte atual nos permite ao menos devanear sobre o dia em que “o artista não será um tipo especial de pessoa, mas toda pessoa será um tipo especial de artista”.

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