O último livro impresso

22 Jul 2009 | publicado por dedos | 1 comentário

O último livro impresso terá como assunto a história dos livros impressos e o valor destes objetos. O autor desta obra será o dono da última editora de livros impressos no globo, que sobrevirá à crise do papel graças a alguns títulos de auto-ajuda, destinados a um público ainda mal adaptado aos métodos “imateriais” de difusão do código escrito.
O primeiro capítulo tratará de traçar uma breve história da imprensa, dando certa ênfase à pessoa de Gutemberg e seus tipos móveis. Relembrará os árduos tempos em que alguns heróis talhavam, em xilogravura, as páginas da Bíblia, em caracteres góticos – letra por letra, página por página – e como o surgimento da imprensa transmutou para melhor este quadro. Evocará o caráter quase material dos tipos impressos, de como se podia tocar a superfície da página e sentir o corpo das letras.
Em seguida, nosso caro autor nos fará o favor de rememorar o grande serviço prestado às massas com a difusão dos textos impressos, dando assim, finalmente, a oportunidade das pessoas comuns se alfabetizarem, outrora um privilégio de muito poucos. Apenas isto não bastará: seremos também lembrados de que a difusão dos textos e livros mudou também o modo de pensar da humanidade em geral. A realidade deixou de ser inóspita, mágica, desconhecida: o conhecimento chegou para todos, mulheres e homens, dos infantes aos anciãos.
Em seguida, o último livro impresso apresentará uma reflexão da relação homem/livro. Nosso autor terá um particular empenho dramático neste ponto: citará livros que mudaram o rumo da história, livros que tiraram outros livros do ostracismo, livros que despertaram grandes mentes adormecidas, livros que salvaram vidas. A seguir, mencionará a relação afetiva do homem com seus objetos: o prazer de ter consigo um livro especial evocador de boas lembranças, de possuir uma biblioteca particular, de poder colecionar literatura sob diversas formas, cores e tamanhos.
E é neste ponto que os argumentos do autor do último livro impresso não serão tão arrazoados quanto os iniciais – para não dizer um tanto desesperados. Apelará para o fetichismo, suscitará os supostos prazeres de tirar um livro da embalagem, sentir o cheiro das páginas novas, perscrutar com os dedos a capa ainda intacta. Dirá ainda que sempre existirão árvores em quantidade suficiente para se fazer mais e mais papel, que os ecologistas estão gravemente equivocados, que a celulose é a submissão da natureza a uma causa nobre. Encerrará seu discurso argumentando que os livros impressos são parte viva do pensamento humano, um legado cultural cuja extinção trará ao homem certa miséria de identidade.
O último livro impresso será um fracasso de vendas e motivo de risos nos novos círculos literários. Um funcionário insatisfeito da última editora deixará “vazar” a matriz digital do livro para a rede mundial de computadores, e a versão não-impressa do último livro impresso circulará online, em alta velocidade. Os leitores interessados o carregarão em seus eletronic readers, como um artigo curioso de um tempo estranho, onde tudo parecia excessivo, espaçoso e empoeirado.

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