Manifesto Inexpressionista

23 Jul 2009 | publicado por dedos | 3 comentários

A tola arte dos que não compreenderam os novos caminhos da expressão; dos que, por ingenuidade, ainda vêem na prática e no fazer artístico-artesanal um caminho possível. Tolos seduzidos pelo falecido retrato moderno dos que “esperam os milagres que o mundo lhes parece dar direito, sentem correr sangue purpúreo nas veias e lançam um longo olhar carregado de tristeza à luz do Sol e às sombras dos grandes parques”. Insensatos entregues ao imediatismo do prazer visual.

Preferimos o cômodo caminho do “labor criativo”. Renunciamos ao elevado traçado das idéias, antes por incompreensão, que por despeito. Não somos versados nas particularidades da linguagem contemporânea; não encontramos lugar dentro do fascinante círculo das performances em galerias, das eletrizantes vídeo-instalações, tampouco somos algum dos quatro estômagos que ainda estão a ruminar Duchamp e Beuys, as eternas novidades. Não, dessa vaca somos apenas o sininho amarrado ao pescoço, que debilmente ressoa nossa quase completa falta de desenvoltura frente à arte de nosso tempo. Como seríamos mais felizes se conseguíssemos, por meio do discurso artístico, transformar o copo d’água em carvalho! Mas nossa percepção deslocada temporalmente só nos permite ver o copo d’água – e, não sem certa vergonha, admitir que gostamos dele.

Reconhecemos, no entanto, a incomensurável distância que separa nossas defasadas composições formais dos avançados conceitos que têm colocado a arte em movimento em nossos dias. Não desejamos, porém, que essa distância seja motivo para cisões e discussões acaloradas: aceitamos sem reservas o papel de retrógrados. Ainda estamos presos a certas qualidades que, a muito custo, foram transmutadas para o que hoje conhecemos como erudição artística.

Desprovidos das características que hoje fazem um artista, dessa arte que só a razão de nosso tempo poderia produzir, prudentemente nos abstemos. Não há crise, não há propostas, apenas a manutenção do que já vem sendo feito: em vez de construirmos nossas obras com idéias e entregarmos pensamentos prontos, continuaremos construindo imagens – para que delas nossos obsoletos admiradores e observadores possam extrair seus próprios pensamentos e idéias. Transferimos, assim, a árdua tarefa de pensar, idealizar e conceitualizar para o público.

Os artistas da vanguarda de cem anos atrás proclamaram que a arte era dos artistas, que a obra de arte estava na idéia, que o artista é uma espécie de Midas que, pelo toque mental, transforma o chumbo do cotidiano banal no ouro da arte. Os artistas das décadas seguintes gostaram muito desta idéia, que ainda persiste sem grandes distorções. Nós, humildes inexpressionistas, por alguma deficiência cuja explicação nos escapa, enxergamos tal tarefa como demasiado árdua e grandiloquente. Por meio da recusa à expressão artística contemporânea, devolvemos a arte à mente do grande público. Nesta recusa arde a chama inexpressionista.

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