O último sistema operacional

14 Jun 2009 | publicado por dedos | Comente

Acostumamos a chamar de normal em computação os sistemas operacionais com “janelas”, “pastas”, “lixeira” e outras analogias com o mundo material. Vamos agora imaginar um sistema operacional que funcionasse tal qual estas metáforas sugerem. Daremos a ele o nome geek de LastOS (o último Sistema Operacional). Analisaremos, a seguir, seu funcionamento.

Pastas. Como qualquer pasta que se preze, as pastas no LastOS não suportariam conteúdo infinito, e muito menos organizariam automaticamente seu conteúdo em ordem alfabética. Os dados se apresentariam na ordem em que foram colocados, e se por acaso excedessem o tamanho da pasta, esta se romperia, espalhando dados por todos os cantos do disco rígido, delegando ao usuário a árdua tarefa de reorganizá-los manualmente.

Lixeira. Esta teria que ser esvaziada e limpa diariamente. Se dados forem esquecidos na lixeira do LastOS por mais de 24 horas, começarão a deteriorar e dar origem a uma proliferação de diversos virus que poderiam afetar o funcionamento do computador.

Clipboard. Este talvez tivesse seu funcionamento melhorado no LastOS – pois o clipboard clássico é uma entidade misteriosa que extermina o que foi copiado anteriormente, a cada novo Ctrl+C. Como se pode esperar de uma prancheta comum, a cada Ctrl+c, o conteúdo sobreporia o conteúdo copiado anteriormente, sendo possível vasculhar manualmente por estes, um a um.

Janelas. Existem as de deslizar para cima e para baixo, as que se abrem como portas, vitrôs, etc. De qualquer forma, uma janela não é um retângulo mágico, redimensionável e facilmente deslocável – e as janelas do LastOS teriam qualquer coisa de frágil, a ser manuseado com cuidado, para que não se quebrassem, colocando a perder qualquer atividade ou programa que estivesse rodando nos limites da janela.

Arquivos. Talvez a mais disparatada analogia de todas. Alguém poderia nos explicar o que um conjunto de informações programadas para desempenhar uma tarefa específica tem a ver com um arquivo? Neste caso, nem para o LastOS foi encontrada uma função adequada – talvez apenas um lugar para guardar pastas, o que não acrescentaria em nada à função que desempenha o disco rígido, etc.

Para não ficar demasiado maçante e literal, detenhamo-nos nestes exemplos. O que queremos perceber aqui é o seguinte: o computador é de uma natureza bem diversa da dos objetos selecionados para dar nome às suas funções e ferramentas. Nossas pastas e janelas não são mais do que a projeção de nossas limitações em um sistema que existe justamente para contrapor a precariedade dos sistemas de organização materiais que existem. O LastOS serviria para explicitar melhor esta condição limitada e talvez forçar nosso intelecto a compreender estas singelas máquinas um pouco melhor, trazendo para nossas vidas materiais os ensinamentos de praticidade e organização que podemos extrair dos nossos amiguinhos feitos de chips, processadores e discos.

ps. Como eu não sou programador e não entendo lhufas de como construir um programa sequer, posso apenas dar a entender o que penso através de um texto medíocre, de humor um tanto nerd, sem grande alcance ou nada inovador. Este texto foi descaradamente concebido em cima das idéias de Theodor Holm Nelson, e é também uma singela homenagem a este homem que enxergou algumas décadas à frente, e foi uma das únicas vozes a combater a mediocridade dos homens de negócios da informática em seu tempo.

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