O advento da salsicha, a morte da intuição

28 Jun 2009 | publicado por dedos | 4 comentários

Alimentar-se bem, hoje, tornou-se um ato de persistência e resistência. Com a profusão massiva de alimentos industrializados e o aparato de propaganda que impulsiona suas vendas, não é de se surpreender que alimentos embutidos, congelados, instantâneos e coisas que podem ser preparadas num forno de microondas tenham papel importante na base alimentar de boa parte da população. Naturalmente, com uma alimentação pobre e uma rotina estressante, o corpo adoecerá. Neste momento, entram em cena os cientistas, a indústria dos remédios e dos alimentos “light” e similares, dizendo que esta ou aquela fruta é eficaz contra tal doença, ou que determinado produto cujo nome carrega o prefixo “bio”, “acti”, “nutri” é essencial para uma boa digestão, etc. Esse discurso agrega valor financeiro a produtos saudáveis e outrora comuns, além de criar um novo mercado de produtos que, de repente, tornaram-se indispensáveis a uma alimentação correta. Então, quem desejar comer um arroz integral deverá pagar mais caro por este do que pelo arroz branco, cujas fibras e nutrientes foram parar, por meio de algum processo industrial, na composição de alguma ração para cães. É por meio deste truque de prestidigitação mercadológica que se transforma uma dieta equilibrada, que nossos ancestrais já sabiam ser a receita de um corpo saudável, em uma descoberta cujos méritos são da ciência e da indústria alimentar.

Da mesma forma, alimentar o espírito com boa arte, literatura, música – cultura – exige dos interessados boas doses de esforço e discernimento.  O fenômeno cultural é mais evidente que o alimentar, e perfeitamente análogo. Porém, em alguns casos, é mais sutil. Tomemos como exemplo o caso da exposição de Vik Muniz no MASP, cujo mérito – diz-se nos veículos midiáticos de maior circulação – foi atrair um grande número de visitantes ao museu. Será mesmo que o trabalho deste incensado artista brasileiro é de uma grandeza capaz de atiçar a curiosidade de milhares? E as obras de grandes mestres da pintura que lá estão abrigadas, não possuem tais méritos? O que explica o anormal fluxo de visitantes experimentado pelo museu durante a exposição do nosso fotógrafo, que alguns dizem representar a arte brasileira em sua melhor forma, atualmente? A resposta provavelmente está no que foi dito às pessoas, no volume de propaganda e mídia dedicadas a este evento, e não na qualidade do trabalho do artista – sobre o qual permitiremo-nos inferir, sem falso distanciamento: está consideravelmente aquém do mediano.

Para tornar mais explícito o que se deseja demonstrar, faremos uso de um exemplo literário. O 1984 orwelliano nos oferece um cenário pavoroso e deprimente, porém interessante ao nosso propósito comparativo. No romance, a alimentação popular era terrivelmente insossa, aquosa e desprovida de valor nutritivo. Além disso, tudo o que podia ser consumido em termos culturais eram novelas baratas, músicas que não passavam de pequenas variações em cima de uma mesma estrutura, pornografia, propaganda estatal e – ironicamente, no nosso caso – futebol. O resultado: uma população subnutrida, intelectualmente deficiente, cujos atos de subversão eram limitados a insignificâncias, como afirmar que dois mais dois somavam quatro, ou então copular às escondidas com múltiplos parceiros. Estaremos tão distantes assim de uma realidade como esta?

Não desejamos insinuar aqui qualquer tipo de resposta pré-concebida. No entanto, é digna de nota a sensação deixada por todos os esforços canalizados na divulgação e venda de toda essa comida misteriosa, dessa cultura barata: querem-nos com os intestinos cheios de lixo, e a cabeça repleta de idéias alheias. Não seria exatamente um problema, se não fossem idéias debilitantes, cujos resultados visíveis são a estupidez e a idiotia, assim como a morte da inteligência e da intuição. O que se poderá apreender do mundo e da vida, se o corpo não está suficientemente nutrido para pensar e discernir? E o que poderá intuir uma mente consumidora, passiva, que só absorve o que há de mais tolo e superficial?

Se, num dia feliz, fôssemos sepultar todo este sistema de perpetuação da estupidez, pediríamos a um escultor que entalhasse uma enorme salsicha em sua lápide. A salsicha é um exemplo deveras ilustrativo de nossa indústria alimentícia e cultural. Quem é capaz de engolir uma salsicha, é capaz de engolir qualquer coisa. O segredo embutido na salsicha é ignorar o que se está comendo. Pois, se colocássemos num prato, separadamente, uma pilha de vísceras da pior qualidade, outra pilha de um aglutinante qualquer, uma de corante, e, para finalizar, uma tripa colorida em forma de saquinho, dificilmente conseguiríamos um voluntário para a degustação. Mas se tudo isso se apresenta de uma forma cilíndrica, alaranjada e homogênea, dentro de uma embalagem onde está estampado um sorridente galináceo, poderemos vender a infame receita às toneladas nos supermercados, a um preço bem acessível. Não deixa de ser curioso: como são baratas as salsichas, os steaks de frango e os hambúrgueres. Desnecessário insinuar, novamente, qual a intenção escondida atrás de um preço baixo e uma embalagem chamativa. Todo esse mercado depende da falta de discernimento dos que não diferem o ato de comer do ato de alimentar-se, dos que não se importam com o que estão digerindo, desde que haja uma sensação final de saciedade, a famosa barriga cheia. Cada refeição desse tipo é a confirmação de que estamos aptos a engolir o que quer que seja, e assim acostumamos nosso paladar ao sabor artificial destes alimentos, e deixamos de apreciar o que não é frito, o que não tem conservante, ou excesso de açúcar ou o que quer que seja. Que o diga a multidão de crianças viciadas em fast-food – sem salada, por favor.

Evidentemente, esse pensamento se estende para além do mercado da alimentação. A cultura, a tecnologia, a arte, a ciência, a religião: estão todas sujeitas a essa lógica de mercado e o nivelamento por baixo da capacidade de produção, raciocínio e discernimento humanos. Vilém Flusser captou essa tendência, já na década de oitenta, de forma um tanto profética:

“Nosso ambiente é de estupidez jamais vista. Objetos tolos nos cercam: canetas plásticas, escova de dentes elétrica, revistas ilustradas, propaganda em cartazes. (…) Os objetos tolos, os “gadgets”, que nos cercam, programam-nos em dois sentidos diferentes. Somos programados a não sobreviver sem eles. E somos programados a não perceber a estupidez deles. (…) A primeira programação tem por efeito que nosso nível intelectual, e com isto nosso nível estético e político, se degrada. (…) A segunda programação tem por efeito incapacidade nossa para concentrarmos a atenção sobre as raízes da estupidez que nos cerca (…)”

Mas não se trata apenas de ignorar as origens do que consumimos e o motivo pelo qual consumimos. O que está em curso, aparentemente, é o cultivo deliberado da estupidez.  Atendo-nos ao campo das artes, ao qual manteremo-nos restritos daqui em diante, poderemos ter uma idéia de como este fenômeno se alastrou para muitas, senão todas, áreas de conhecimento e criação humanas. Pois é da estupidez, e principalmente dela, que podem surgir fenômenos artísticos como Damien Hirst, o homem que vende cadáveres animais imersos em tanques de formaldeído, por alguns milhões de dólares. Ou então, a idéia de Gregor Schneider de expor uma pessoa em seu leito de morte em uma galeria de arte – “para que as pessoas percam o medo da morte”. E não se trata apenas da estupidez dos artistas, mas também do público disposto a pagar por estas idéias– não são, de forma alguma, fenômenos isolados.

Se os artistas são mesmo as “antenas da raça”, como nos sugeriu Ezra Pound, nossos artistas deverão estar em posição de alerta em relação aos sinais recebidos. Pois o que será captado, inevitavelmente, conterá algo, pouco ou muito, de estupidez. A escolha de contribuir para que ela cresça é uma das possibilidades – foi o caminho escolhido pelos dois artistas citados acima. Outro caminho seria: a partir da observação deste sem-número de idéias atrozes, saber precisamente, o que se deve evitar, do que se deve fugir. O artista que desejar contribuir efetivamente, com sua arte, para a resistência da inteligência e da criatividade, será uma espécie de novo asceta – e aqui estamos arriscando uma previsão, uma tendência à qual Pound também estava sintonizado, como demonstrou em seu ABC da Literatura:

Como é óbvio, nem um homem, nem meia dúzia deles podem produzir tantos triunfos métricos em cinco anos ou em vinte, como quinhentos trovadores, sem cinema, romances ou rádio para distraí-los, produziram entre 1050 e 1300. E isso é válido para todos os departamentos artísticos.”

É claro que hoje, o cinema, os romances e o rádio são muito pouco comparados à imensa gama de possibilidades de “distração” – a alienação de si mesmo – existentes. O que queremos entender aqui, é que um corpo e uma consciência alimentados com cultura inútil e comida ruim dificilmente terá algo para transformar em obras de arte relevantes. O lixo que nos vendem como comida não nos dará sequer uma estrutura fisiológica capaz de raciocinar com clareza. Tampouco o barulho ensurdecedor das idéias emprestadas da cultura de mercado permitirá que escutemos a nós mesmos com clareza. E o artista que não escuta a si mesmo, o que não intui, não poderá contribuir criativamente para a sobrevida da inteligência. A intuição – o primeiro passo para a inspiração, que transforma em arte o que está adormecido, na forma de repertório – é a primeira ferramenta do artista, tal qual a poesia é a linguagem do poeta, independente do idioma falado. Não faremos aqui qualquer proposição específica aos artistas, mas podemos dar um conselho genérico. Se não houver criatividade, que ao menos se evite a estupidez – assistindo menos televisão e comendo menos salsichas. Pois, citando novamente, e de uma vez por todas, Flusser, “Nada é mais terrível que a estupidez. Nada merece ser mais receado.”.

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4 Comments

  • Beatrix says:

    isto é muito bom mesmo, o melhor que li por aqui.
    desculpa lá o comentário inútil, mas é que não pude evitar um grande sorriso da primeira à última linha.

  • Alan says:

    É, concordo com a Beatrix, isso é realmente muito bom! Dedos, vc manda muito bem, tanto com as palavras quanto com as imagens. Parabéns, abraço!

  • Cícero Neto says:

    Parabens caro amigo, muito sentido faz o seu texto. A perca da consciencia em todos os aspectos, nos faz “acostumarmos” sem ela, ao ponto que se torna rara a percepção de sua presença. Abraço, ótimo texto!

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