"Nós", de Eugene Zamiatin

21 Jun 2009 | publicado por dedos | 1 comentário

Analisaremos agora um romance de ficção. Um romance sobre um Estado totalitário, onde apenas um modo de pensar e agir é admitido: o apoio incondicional ao Estado. Uma sociedade cujos integrantes estão sob constante vigilância, tanto por parte do estado, como pela própria população – além de uma entidade onipresente e onipotente que olha por todos. Uma vida em que um simples passo em falso, uma ação inesperada ou até mesmo um simples pensamento podem despertar desconfiança, e transformar um indivíduo em inimigo da sociedade – um criminoso a ser punido. Qualquer manifestação de criatividade é transgressora – a não ser que sirva para exaltar o estado.A história de um homem colocado em conflito consigo mesmo por uma mulher que lhe mostra o lado prazeroso – e proibido – de uma existência monótona e ultra-regrada. Poderíamos encaixar esta descrição no consagrado 1984, de George Orwell. No entanto, curiosamente, esta descrição também está perfeitamente adequada a um livro escrito 23 anos antes do romance orwelliano. Este livro foi escrito por um russo chamado Eugene Zamiatin, e seu título, igualmente breve, é “Nós”. Aprofundaremo-nos agora no romance russo, o suficiente para despertar a curiosidade de seus futuros leitores, até um limite que não lhes prive do prazer da leitura e da descoberta.

Século XXVI. Após a Guerra dos 200 anos, à qual sobreviveu a diminuta parcela de dois décimos da humanidade, os remanescentes isolaram-se do mundo construindo uma imensa muralha, que delimita fisicamente os domínios da mais perfeita forma de organização humana conhecida até então – o Estado Uno. Neste estado, todas as edificações, inclusive a muralha, são feitas de vidro. A transparência, a clareza e a coletividade são conceitos-chave do One State. Portanto, os números – como são chamados os habitantes da vítrea civilização – habitam apartamentos de vidro, andam por ruas de vidro, trabalham em repartições de vidro. Essa estrutura é muito conveniente aos interesses do Estado Uno, pois transforma a população na maior vigilante de si mesma. É claro que existe um aparato oficial de vigilância e repressão – os Guardiões – pronto a delatar qualquer sinal de dissidência, sujeitando os culpados à máquina executora do Benfeitor, o misterioso e imponente líder o que olha por todos, e governa o Estado Uno com amor frio e matemático.

Qualquer sinal de individualidade é condenado pela sociedade dos números. Noções como “meu” ou “seu” são simplesmente absurdas – isso aplica-se a parceiros, posses e até mesmo nomes – os que seriam os cidadãos de nossa sociedade, são os números do Estado Uno. Assim, o nome, ou número, do personagem-narrador é D-503. Este número possui uma função privilegiada – é o construtor do Integral, uma espécie de nave espacial cuja função é levar a filosofia matemática do Estado Uno a regiões – e épocas – remotas. D-503 mantém um diário, onde confidencia reflexões e impressões de sua vida de número. E é neste diário que residem os méritos literários de Zamiatin.

D-503, longe de ser um obtuso matemático, revela ter boas doses de um sonhador e de um filósofo. As primeiras entradas do diário são claramente destinadas a explicar o funcionamento do Estado Uno, como a Tabela de Horas e a Lex Sexualis. Detenhamo-nos por um breve instante na análise superficial destes dois mecanismos. Na Tabela de Horas o tempo de cada número está esquadrinhado e dividido para que sua vida esteja matematicamente integrada às engrenagens do Estado Uno: a hora de dormir, de acordar, de comer, de trabalhar e daí em diante. Existem, no entanto, as horas pessoais – duas horas por dia destinadas às atividades particulares de cada número (consideradas por D-503 como uma imperfeição a ser corrigida). A Lex Sexualis tem algo de mais curioso: o One State reconhece a necessidade humana do sexo, e sabe que pessoas com instintos reprimidos representam potenciais seres humanos revoltados e infelizes, combinação adequada para o surgimento de um insurrecto ou dissidente (George Orwell explorará em seu 1984 esta relação estatal com o sexo, porém com uma abordagem obscura e pessimista). A solução para este caso é interessante: os hormônios sexuais de cada número são medidos em laboratório, determinando a intensidade de suas necessidades sexuais. De acordo com o grau de desejo sexual, é estabelecida uma cota semanal de relações sexuais, e são distribuídos cupons cor-de-rosa de acordo com o número de dias de sexo. O número deverá então escolher um (ou mais de um) número que seja de seu agrado, e inscrever-se a ele, determinando então que manterão relações sexuais nas horas determinadas para isso. Utilizando os cupons rosados, têm o direito de baixar as persianas de seus apartamentos por uma hora – o único momento em que um número tem direito à privacidade.

D-503 cumpre com orgulho seus deveres de número, e boa parte de seus escritos são dedicados à exaltação da máquina estatal. Porém, alguns acontecimentos colocam em crise suas certezas, e a primeira delas é o encontro com uma mulher, que exerce sobre ele uma estranha atração, mas também lhe causa certo ódio e repulsa (e qualquer pré-adolescente apaixonado dos nossos dias sabe bem o que é isso). E é em um dos primeiros contatos visuais com esta mulher, cujo número é I-330, que reside uma das passagens mais inspiradas da narrativa de Zamiatin. Em mais uma das demonstrações públicas do Estado Uno, uma nova máquina de compor sinfonias era apresentada à população (Orwell gostou muito desta máquina). Em oposição à música matematicamente composta pela nova invenção, um piano é colocado no palco. De dentro de uma caixa, surge a mulher misteriosa, trajando um vestido dos tempos idos, e começa a tocar no antigo instrumento uma composição dos séculos passados. A grande massa de números começa a gargalhar – rir do absurdo ilógico que é a música dos antigos. Mas D-503 não está rindo – está completamente absorto, profundamente tocado por algo que não se encaixa em nenhuma equação, que não pode ser submetido à lógica fria da tabuada:

“Sim, epilepsia, uma doença do espírito, dor… Dor agradável e lenta, uma dentada, nos a desejamos ainda mais profunda, ainda mais dolorosa. Então, lentamente, o sol. Não o nosso, não aquela luz azulada, cristalina, uniforme filtrando-se pelos tijolos de vidro. Não, um sol avassalador, selvagem, reduzindo tudo a quase nada…”

E aqui começa o inferno pessoal de D-503. Cada vez mais envolvido pela enigmática mulher, começa a duvidar de suas convicções e suspeitar que seu Estado perfeito é construído em cima de um enorme vazio. É desses questionamentos que Zamiatin extrai o que mais há de filosófico da mente do protagonista de seu romance. Em suas entradas no diário, D-503 sempre divide em tópicos os assuntos sobre os quais irá discorrer. Porém, no dia que se segue ao seu primeiro encontro íntimo com I-330, do qual sai extremamente confuso e perturbado – e renovado, entretanto – o tópico é o seguinte: “Não, não consigo, Escrever apenas, Sem plano”. Um parágrafo do mesmo dia:

“Ponho-me diante do espelho. E pela primeira vez na vida, sim, pela primeira vez, me vejo com clareza, nitidamente, conscientemente. Vejo-me assombrado como um certo “ele”. Aqui estou eu-ele: sobrancelhas negras traçadas em linha reta; e entre elas, como uma cicatriz, um vinco vertical (não sei se estava aí antes). Olhos azul-metálicos, sombreados pelas olheiras de uma noite em claro. E lá, por trás daquele metal… acontece que nunca soube o que estava lá. E de “lá” (esse “lá” está ao mesmo tempo aqui e infinitamente longe), de “lá” olho para mim – para ele – e sei: esse de sobrancelhas retas, é um estranho, alheio a mim, alguém que estou encontrando pela primeira vez na vida. E eu, o verdadeiro eu, não sou ele.”

Encerraremos aqui as incursões na trajetória linear no romance de Zamiatin, julgando-as suficientes para traçar um panorama geral que desperte o interesse pela leitura do mesmo – considerando como um desnecessário dispêndio de tempo e esforço acompanharmos, até o fim, a trajetória de D-503. Isto será feito, quando formos comparar D-503 com Winston Smith, Nós a 1984. Agora, detenhamo-nos a observar os aspectos mais gerais de Nós e conhecer um pouco melhor a obra e o autor que influenciaram diretamente conhecidos romances de ficção das últimas décadas, como o já citado romance de Orwell e o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

A principal virtude de Nós em relação aos livros de ficção que o seguiram é o amplo espaço concedido a devaneios e incursões poéticas, como tentamos demonstrar nas citações anteriores. Se encararmos este romance como apenas uma obra de ficção científica de teor fantástico, encontraremos diversas brechas e exageros que deporiam contra a verossimilhança e a coerência da obra. É neste momento que teremos que levar em consideração aspectos biográficos de Zamiatin, o que nos levará a um maior esclarecimento em relação à função desempenhada por este romance. Ezra Pound nos diz que o mau crítico se identifica quando começa a falar do autor, e não da obra – talvez temendo que associássemos a imagem de um astuto crítico e inspirado poeta com a de um senhor um tanto ranzinza, que simpatizava com os fascistas e passou um tempo encerrado em uma jaula. Já Baudelaire, em seu ensaio sobre Edgar Allan Poe, nos diz o contrário, e chega mesmo a descrever os aspectos físicos do famoso escritor estadunidense. Daremos agora os braços a Pound, de um lado, e a Baudelaire, do outro, tentando nos ater apenas aos detalhes biográficos que contribuam para um melhor entendimento da obra de Zamiatin.

Com seus escritos, Zamiatin conseguiu desagradar autoridades de todas as vertentes e cores. Perseguido tanto pelos tzaristas, como, posteriormente, pelos socialistas, enfrentou extremas dificuldades para publicar diversas de suas obras em sua terra natal. Foi também exilado da Rússia, e não pereceu nas mãos de Stalin graças à intervenção de amigos influentes. Nós deve ser contextualizado como uma sátira ácida e um tanto profética do que a Revolução Russa estava se tornando. Zamiatin captou com extrema lucidez algumas tendências, e, elevando-as a um grau quase profético, chegou ao formato que assumiu o Estado Uno. Fazendo uso de algumas analogias poderemos compreender um pouco melhor a origem de certas imagens do romance, assim como relevar aparentes exageros.

Por exemplo, a máquina de compor sinfonias, e o dever dos poetas e escritos para com o Estado. Zamiatin foi constantemente acusado de desserviço aos interesses revolucionários, e viu diversos colegas escritores sucumbirem aos interesses socialistas, transformando obras literárias em exaltações vermelhas. Provavelmente inspirou-se neste fato ao pensar na máquina compositora de sinfonias – os escritores, poetas e demais artistas como uma grande máquina de fazer obras com absoluta frieza e impessoalidade. Consta no primeiro registro do diário de D-503 uma citação da Gazeta do Estado Uno que é uma crítica mais explícita nesse sentido:

Todo aquele que tiver capacidade deverá compor opúsculos, odes, manifestos, poemas e outros textos que exaltem a beleza e a grandiosidade do Estado Uno.”

Algo que soa contraditório e exagerado é a alimentação dos números, que consiste em um alimento sintetizado à base de petróleo. Dado o ritmo em que é atualmente consumido, e o valor econômico que alcançou, dificilmente teremos petróleo daqui a cinco séculos, muito menos sendo utilizado como comida. Mas é possível, e preferível, neste caso, considerarmos o elevado senso irônico de Zamiatin para entendermos que estava criticando a posição tão importante a ser alcançada pelo petróleo, e o valor que hoje é dado à negra substância – tão importante a ponto de chegarmos a comê-la, um dia. De fato, o petróleo tornou-se o epicentro de guerras e crises econômicas – a saúde da economia mundial é talvez mais dependente de petróleo do que de comida.

Uma manobra notável de Zamiatin garante a sobrevida de “Nós” como obra de ficção científica. Anthony Burgess nos diz, em seu 1985, que:

É sempre tolice escrever uma obra de ficção sobre um futuro que seus leitores logo poderão conferir pessoalmente. Digamos que eu me limito a dramatizar certas tendências.”

Também este é o método de Zamiatin, que não consiste apenas em empurrar a humanidade seis séculos adiante do século XX, listando as características mais prováveis de um futuro distante – também arrisca uma previsão de fundação filosófica. A sociedade dos números tem como sua grande referência Taylor – o idealizador da Administração Científica (ou Taylorismo), que consiste basicamente na divisão e especialização de funções do trabalho, brilhantemente ilustrada por Charles Chaplin no famoso filme Tempos Modernos. Isto consiste num “acerto”, se tomarmos a ficção como profecia – e desde a sua implantação é facilmente verificável que o mesmo princípio tem crescente aceitação em diversas áreas do conhecimento humano. Aldous Huxley retoma esta “profecia” em seu Admirável Mundo Novo – onde Ford é praticamente Deus. Recorramos a mais uma passagem inspirada do diário de D-503:

Esse Taylor foi sem dúvida o maior gênio da antiguidade. Verdade que seu pensamento não teve suficiente alcance para que extrapolasse seu método para a vida, cada passo, as vinte e quatro horas do dia. Ele não foi capaz de integrar seu sistema de uma hora em vinte e quatro horas. Ainda assim, como é que eles podiam escrever bibliotecas inteiras sobre esses Kants, e mal tomar conhecimento de Taylor, um profeta que conseguiu ver dez séculos à frente?”

Além da fundação filosófica, o Estado Uno possui também algo de religioso – e aqui deve-se relembrar a postura de Zamiatin para com qualquer tipo de autoridade. Os cristãos são mencionados como os antecessores imperfeitos dos números, e o próprio D-503 é uma espécie de religioso asceta; sua devoção ao Benfeitor e ao One State é irrestrita. Refere-se aos Guardiões como a personificação dos anjos da guarda a que se referiam os antigos, e chega mesmo a sentir-se bem quando percebe um Guardião espreitando-o por trás. Seu diário é o modo que encontrou para expiar suas faltas, com o compromisso de não ocultar nada. Este “nada”, no caso de D-503, são suas tentações, os sonhos, os devaneios, o deleite que sentiu ao escutar a música do piano – qualquer tipo de sentimento não cabível numa equação matemática. A imaginação é o principal inimigo de D-503: ironicamente, algo que possui de sobra. Destes conflitos, da sua relação conturbada com a enigmática I-330, de sua imaginação, surgirá a doença que os médicos chamam de alma – “é incurável”. Desta doença é que podem surgir as interferências do inesperado em uma existência monótona, cujas leis são tão exatas como a tabuada.

Um texto crítico jamais substituirá seu objeto de estudo. Neste caso, o que se espera é lançar luz sobre Nós e despertar a curiosidade de possíveis leitores. Esta obra, em comparação com os livros que foram diretamente inspirados por ela, é praticamente desconhecida. Zamiatin encarou este problema em vida – na década de 20, quando Nós foi escrito, era muito mais fácil encontrar suas traduções em língua inglesa do que o texto original em russo, tamanha a perseguição que sofreu em sua terra natal. Num momento posterior, compararemos Nós ao orwelliano 1984, e perceberemos com nitidez com que intensidade este livro influenciou os romances cacotópicos das décadas seguintes. Por enquanto, que sirva o presente texto como um pequeno alerta aos leitores e um singelo tributo a Zamiatin, por um texto que ainda não obteve o reconhecimento que lhe é de direito.

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