Desenhando sem rascunhos ou planos prévios

11 Apr 2009 | publicado por dedos | 1 comentário

Tentarei, pela primeira vez, descrever uma das técnicas que utilizo para desenhar. É algo muito simples, porém requer extrema confiança no “acaso” e em si mesmo. Isso a torna um pouco mais difícil para iniciantes no desenho ou pessoas que não tem confiança em suas habilidades. Gostaria de me alongar também sobre isso, inicialmente. Perceberá o leitor que dou muitas voltas, e que o texto aqui é quase “filosófico” – não me interesso por guias passo-a-passo, a não ser que sejam extremamente necessários. Não espere um manual, pois essa técnica depende mais do indivíduo que a pratica do que qualquer outro fator.

Importantíssimo esclarecer: esta é apenas uma das técnicas que utilizo para desenhar, e em momentos específicos. Não é a solução para todos que desejam aprofundar-se na prática do desenho. Não considero o desenho como mera aplicação técnica de uma habilidade, e me sinto exposto ao compartilhar essa técnica publicamente. Se funciona para mim, não quer dizer que funcionará para você. Mas acredito que sempre há algo a se aprender.

Descobrindo um caminho ([o seu] entre milhões)

Talento, técnica, habilidade, são palavras que carregam intensa carga de significado. Além disso, são palavras muito relativas e os seus significados algumas vezes chegam a ser confundidos. Evito pensar nessas palavras.  Eu acredito que um pode sentir-se plenamente satisfeito com o ato de desenhar e os desenhos que faz, desde o início de seu aprendizado. Desenhe despretensiosamente, sempre que puder, se possível todos os dias. Você só irá sofrer se tiver alguma meta mirabolante na cabeça, como desenhar igual ao Mutarelli, ou algum objetivo pequeno (como fazer fan-art do seu mangá favorito) que logo será descartado, porque perceberá que pode fazer muito mais. Assim, aprofundar-se na técnica que tentarei descrever a seguir não será um problema.

É como andar ou comer (?)

Nada de preparar ambientes, ligar musiquinhas relaxantes, tirar as crianças do quarto. Desenhar poderá salvá-l@ de ambientes hostis, aulas chatas, palestras intermináveis, atrasos ultrajantes, etc. Assim como desenhar ao ar livre pode-se revelar uma experiência surpreendente. Evite condicionar-se a um determinado ambiente, desenhe em frente a outras pessoas, perca a vergonha. Acostume-se a, onde quer que esteja, fazer uns rabiscos, sempre que tiver vontade.

Isso ajuda a quebrar o principal obstáculo: nós mesmos. A evolução da “prática artística” – na minha opinião – está ligada ao rompimento de tabus, preconceitos, questões de orgulho, idealismos. E então vemos um que começa a desenhar e fala “eu gosto de desenhar em preto e branco”. E o outro que diz “eu curto fazer mangá”, e o outro que macaqueia “quem não sabe fazer figurativo faz abstrato”, etc. Auto-proibições e restrições absurdas, logo no início! Tudo isso acompanhado de pensamentos como “não tenho talento”. A fórmula perfeita para a desistência. Abandonar todas essas afirmações sobre si mesmo e observar o que se está fazendo é, talvez, o “objetivo” da técnica em questão.

Práticas intensas

Farei agora uma tentativa de descrição de uma prática intensa, talvez o que seria a “técnica” em questão. É o que costumo fazer nas horas em que “algo precisa sair”; alguma idéia, um sentimento latente, um momento de inspiração. O primeiro passo é escolher um material que, de preferência, não possa ser apagado. Se for utilizar lápis ou coisa parecida, guarde a borracha.

Respire fundo. O que tentará fazer agora é o oposto de se concentrar. A concentração exige que toda percepção seja fechada e focada em um único ponto. Estamos falando de um processo diametralmente oposto ao da concentração. O que tentará fazer é se abrir – deixar-se levar por todos os estímulos possíveis à sua volta. Os sons ambientes, o ar, a temperatura, o espaço, seus pensamentos, sentimentos, palpitações internas.

É nesse estado de abertura em que começará a desenhar. Algumas vezes terá uma idéia antecipada do que quer fazer; comece a fazê-lo. Outras vezes, não existirá uma idéia, um ponto de partida. Comece com uma linha, uma mancha, o que quiser. Observe. Com o que se parecem as formas que você fez? Como está seu traço hoje? Continue, sem se preocupar com aspectos formais (como anatomia ou perspectiva). Não sabe desenhar uma mão humana? Tenha a liberdade de desenhar uma mão do jeito que você bem entender. Divirta-se, acima de tudo.

Quando se desenha sem rascunhos ou planos, uma nova forma é possível: a forma da expressão. Confie. Use seu corpo, suas emoções, o que está a passar pela sua cabeça, o que está a receber, decodifique. Desenhe com toda força, ou com toda delicadeza, ou à maneira de um calígrafo, não importa. Tente perceber o que o momento pede.Não tenha medo de errar. Se fez algo que gostou muito, e está com medo de continuar e “estragar”, corra o risco. Incorpore “erros”, admita a interferência do acaso.

Pratique mais e mais esse exercício de entrega, de falta de concentração. Ultimamente, tenho tido nítidas impressões de que o meu corpo está a realizar o desenho sozinho, e que tudo que faço com minha cabeça é atrapalhar. Não é nenhum tipo de metáf0ra – com o tempo, perceberá que desenhar é um movimento de todo o corpo, e não apenas de uma mão ligada à uma imaginação fértil.

A prática regular deste exercício assegurará ao praticante uma evolução espantosa em sua confiança e no seu traço. Já tive o prazer de transmiti-la a alguns amigos, com resultados muito felizes. É importante não ter pressa – saber que, a seu tempo, estará desenhando aquilo que sempre desejou. Essa técnica pode ser de muita ajuda – mas nada dispensa a prática constante e paciente.

Post scriptum

  • O início pode revelar-se a parte mais complicada do processo. É provável que quererá abandonar o que está fazendo, deixar o papel de lado e puxar outro. Faça-o, mas procure não jogar fora o que deixou de lado. Já retomei desenhos abandonados há mais de 2 anos e os finalizei a meu gosto – é uma experiência interessante.
  • No momento em que um estiver desenhando sem comparações, provavelmente um só quererá viver sem comparações. Aceitar seus erros em desenhos ajuda a aceitar os próprios erros. Aceitar seus desenhos ajuda a aceitar a si próprio. Os desenhos e a prática artística em si podem ser (e podem não ser) passos para o auto-conhecimento.
  • [desenhos] Faço isso  por motivos que me escapam. [para mim] Não há como deixar de fazê-lo. Não tenho interesse em construir uma identidade artística, uma carreira, um estilo. Toda minha “obra” é livre para que façam dela o que quiser (inclusive vender ou reclamar autoria).

Exemplos [desenhos que fiz com a técnica descrita)

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